12.7.16

pela segunda vez, sinto a sombra no coração. Marlon Brando não me parece bem. falta-lhe a vivacidade do costume. da primeira vez que lhe dei conta da apatia, tratou-se o mal, obscuro, sem se fazer a cura. não se sossega a gente, quando não se sabe o porquê.
neste cuidar dos animais, de que nunca me arrependi - e sei muito bem fazer contas ao que já gastei e gasto e às trocas que fiz à vida -, a doença, até mais do que a morte, penso, é a tormenta maior. com o tempo, aprende-se a gerir a sombra que a dor dos outros - tantas vezes, morte anunciada -, nos traz. um dia foi o meu avô, o primeiro grande homem da minha vida, depois o meu irmão, /meu querido e doce irmão, o mais belo homem que perdi/, decepado num milésimo de segundo, depois o meu pai, cravejado num sofrimento atroz. se me entreguei ao bichos, não me atrevendo a um filho, é apenas e tão só, porque nunca esqueço quão frágil me tornei. a frieza que me atribuem, o desinteresse egoísta, são críticas tão válidas, como a casca grossa das árvores, onde tantas vezes me recolho. aprendi, a custo, a lição. nascemos para |aprender a| perder.

/Corto Gatês, o meu intrépido saqueador dos mares, regressou da sua empresa marítima, incólume, e já partiu em nova missão. que Posídon o acompanhe./