19.8.16

a cena passou-se à porta dos correios, na pausa da hora do almoço. faltavam sete minutos, quando cheguei e me deixei ficar na pequena fila que já se tinha formado. com o nariz colado à porta de vidro, mãe e filho, ao lado o pai e um bebé de colo. o garoto, com voz mimada, guinchava: eu quero entrar!, eu quero entrar!, eu quero entrar! a mãe, cansada, tentava suborná-lo: já não te compro o gelado, estás a ouvir? se continuas assim, já não te compro o gelado! cala-te ou não te compro o gelado. o pai, como um bêbedo, insistia na piada, queres levar um selo? ãh? queres? olha que eu dou-te um selo! queres um selo ou não? e ria-se sozinho. ao lado, uma mulher mais velha, que na altura julguei ser a avó, instigava o garoto: dá um pontapé na porta, p'ra ver se abrem mais depressa! dá um pontapé! com força! agora aqui a gente à espera... nunca gostei de esperar e também não faço ninguém esperar. dá um pontapé! a mãe do outro lado, está quieto! já não te compro o gelado! nem os ténis! nessa altura, o garoto aumentou o volume ao choro fingido.

foram sete longos minutos.

a mãe foi receber dinheiro no balcão.
o garoto foi ver as vitrines.
o pai com o bebé não entrou, ficou à porta a fumar um cigarro.
a avó, que afinal nem os conhecia, estava naquela urgência, porque queria mandar uma carta rápida para a neta, que está na frança. acrescenta que está a ajudar a neta com um emprego, mas o homem do balcão não lhe alimenta a conversa.

antes de chegar a minha vez, a última coisa que ouço é a mãe a chamar o garoto, para irem comer um gelado...

5 comentários:

  1. primeiro li que o homem tinha um bebé, e depois quando cheguei ao parecia bêbado, já nã sabia se afinal tinha ou nã um bebé... :) a língua portuguesa tem coisas destas... o povo português tem cenas dessas... mas nã será só o português...

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    1. :b

      cada um com os seus achaques (eu é que só conto os dos outros :)

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    2. assisto muitas vezes sem entender uma palavra... mas julgo melhor assim :)

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  2. uma família portuguesa, funcional como Deus quer.

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    1. sei que o texto pode parecer sobranceira da minha parte, mas garanto-te que até as falas são as originais...

      /acho que o que mais me surpreendeu foi mesma a senhora mais velha, a instigar o miúdo para fazer mal/



      (... e o teu blog?...)

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