7.8.16

-- na montanha, não são permitidas crianças!

ralhava com a irmã, que, mal feitos os dez, insistia em acompanhá-la nas caminhadas do fim de semana, organizadas pela escola. a mãe, metia-se então na conversa e argumentava, -- não sejas assim, Mariana! qual é o mal de levares a tua irmã?  a Clarinha também leva a dela. 

amuava. a irmã da Clarinha já tinha onze anos e era diferente, enquanto que a Luísa ainda era uma criança, sempre a choramingar. que vergonha.

aconteceu logo na primeira caminhada, estavam a meio do percurso. Luísa queixava-se de uma dor no abdómen e andava mais devagar. Mariana, furiosa e intempestiva, no início dos seus treze anos, deixou-a ficar para trás, não dando conta a ninguém. a última coisa que queria era ser gozada pelas amigas e passar por babysitter. só quando o monitor da sua secção se apercebeu da falta de Luísa, Mariana deu meia volta e foi procurar a irmã. desceu o caminho todo maldizendo aquela criançola que devia ter ficado em casa a brincar com as bonecas. não a encontrando nos terrenos mais próximos, decidiu sentar-se numa pedra alta, à espera que a outra chegasse. passaram-se vários minutos, até que ouviu os passos. finalmente! ia dar-lhe um ralhete a séria! mas quem chegava era Rui, o monitor mais velho, apreensivo. -- Mariana, onde está a tua irmã?? -- não sei... já me fartei de a procurar. sentei-me aqui à espera dela..., gaguejou. -- és uma irresponsável!, gritou o monitor e continuou a descer. 

foi nessa altura que o frio lhe percorreu a espinha. começou a correr atabalhoadamente, enquanto gritava o nome da irmã. as lágrimas soltaram-se, velozes, enquanto descia a ladeira até ao rio, tropeçando nos arbustos rasteiros. quando se aproximou da margem, cansada da correria, viu o Rui dentro de água, mas não percebeu logo. a sua cabeça estava confusa, o desespero tinha tomado conta de si. tentava rezar a oração que a mãe lhe tinha ensinado, quando era mais pequena, mas não se conseguia lembrar das palavras.

só quando viu surgir o monitor com o pequeno corpo inerte nos braços, entendeu. e então gritou, gritou tão alto, que pouco tempo depois, todo o grupo acorria ao local. Rui tentava a reanimação, insistindo, mas Luísa estava morta. o cadáver da menina, como lhe havia chamado a repórter do directo, foi transportado pelos Bombeiros para o instituto de medicina legal. 

Mariana também morreu nesse dia, mas só alguns meses mais tarde foi levada pelo inem para as urgências, com vários golpes nos pulsos. já cadáver.

2 comentários:

  1. culpas dessas nunca deviam ser sentida por crianças, são demasiado pesadas para frágeis criaturas...

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