7.8.16

quando era menina, por esta altura do ano, estando o avô na sesta, fazia companhia à avó, que bordava no fresco da salinha de estar. de tempos a tempos, olhava-me apreensiva e pedia, florzinha, vai lá fora e vê se há algum fumo...
às vezes, havia.


/foi por causa dos incêndios que comecei a odiar - bem sei, é palavra forte, mas eu era muito jovem - as gentes da cidade. via as imagens da miséria daquela gente humilde do campo, gritando e chorando, desvairada na aflição, o medo de perder tudo, a casa, os animais, os estábulos, as plantações, os pinhais, uma vida inteira na terra, e os jornalistas, quais abutres, fuçando a dor e a pobreza, para que os da cidade tivessem com que se entreter - rir e gozar com os campónios - no jornal da noite. ainda hoje, sempre que vejo as imagens - que nunca mudam, neste país de dar pena - o estômago se embrulha e as lágrimas me rolam às escondidas./