28.9.16

eu e a pandilha de criaturas extraterrestres que habita o submarino, escutando a história da raposa.


blue bath, LUK

-- Carga d'ossos como está, menina, sem gel nas unhas, peito que dê gula, nem o cabelinho pintado como deve ser, vale poucochinho... Não leve a mal, menina, mas agora querem-se outra vez as mulheres bastas, do pluz size em diante, as das fotografias a três quartos e boquinhas cu de galinha.

27.9.16

quanto valho eu, inteira?
meu amor, o inferno é o meu corpo foda a foda alcançado.
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:

25.9.16

das coisas que sabemos, sentido-as cravar os dentes na maciez da polpa do coração, tenazes revolvendo os órgãos internos, agudos afilados fustigando-nos a alma - mas decidimos não falar, nasce a dúvida. simples e fatal.
{sussurrar baixinho}

chega-me o leitor conhecedor, da vida e da gramática, das coisas como elas são, e pede-me que tome note, altere, corrija, evite, o pleonasmo acima destacado. 
pois com certeza que sim, afirmativo e correcto, palmadinhas no recto, beijinhos múltiplos e variados, adeus e ficar bem.
Violeta, hoje mais violeta do que o costume - culpa da fotografia, garanto -, continua bem e de boa saúde, coroada de seis belíssimas flores, tal como no longínquo mês de Julho, data em que foi resgatada da superfície comercial onde era mantida em cativeiro.

manda beijos e abraços.
/e faz figas contra o mau-olhado, que isto de exibir a beleza na net, já se sabe... nascem as invejas daninhas./


Violeta, acabada de acordar


/começo a achar que é de plástico.../

24.9.16

desço o caminho que conheço de cor e olhos fechados. Taeko e Yukiko acompanham-me. o cheiro intenso dos figos maduros assegura-me que estou perto do rio. aos poucos, toda a cidade fica para trás.
o corpo inteiro cobre a alvura do meu. sinto-lhe o sexo, ainda duro, molhar-me a barriga latejante.
-- eu não existo, alicinha, - diz-me ao ouvido, enquanto me morde o lóbulo, vermelho, da excitação.
a custo, o corpo ainda no galope de um espasmo profundo, consigo sussurrar-lhe baixinho: -- eu também não.
espreito o clarão amarelo que rompe a custo, por entre o nevoeiro.
talvez o café me traga a temperatura anunciada na aplicação, mas hoje, parece-me, já me chove por dentro.

23.9.16

paz à alma de Vendredi, cujo corpo apodrece no balanço suave das águas baixas da ribeira.


era desta forma, tranquilamente, zombando a putrefacção da pobre, que gostaria de ter iniciado o presente relato. mas não posso. não devo. Vendredi merece um final épico, talvez caída no poço de um elevador, no bairro do pica-pau, ou trucidada por um comboio da linha do cacém. ou, porque não, atacada pela navalha de algum agarrado, quando lhe resiste ao assalto à luz do dia. tudo se há-de passar na musgueira. 
ou talvez Vendredi mereça uma morte mais nobre, coisa para um palacete em sintra, às mãos de um velho conde em ruina, quiçá, envenenada pela cozinheira ciumenta, nada e criada em Malveira da Serra, há sessenta e um anos. ou por um dos filhos bastardos do velho.
ou talvez nada e de Vendredi nem mais uma palavra.

22.9.16

o que me irrita no rapaz de cabelos longos, maquilhagem, barba e sapatos de salto altos, o corpo bamboleando-se como se fosse uma top-model dos anos noventa, não é a diferença, muito pelo contrário. o que me irrita superlativamente é o cliché do pressuposto feminino.

21.9.16

parei na autoestrada,
percorri metade da ponte,
cerca 80 metros de altura,
/sei-os, porque os li não faz muito tempo
e tenho tanto medo daquela ponte./

tentei,
não consegui salvar o gato,
que ainda mia na minha cabeça.

entre a idiota de colete reflector e a cobarde que aqui vos tecla,
há um par de braços vazios.

20.9.16

presente simples




/roubado aqui: maquina de escrever/
quando há pouco saí do carro, os sapatos tão bonitos e tão altos, o fato azul marinho, percebi que da multa já não me safava. viesse eu com as botas da terra e as calças gastas, com que esta manhã corri atrás de dois jovens javalis - verdade -, e talvez o sr. agente encolhesse os ombros e me mandasse à minha vida.

 a quem trabalha, não basta ser, é melhor não parecer.

18.9.16

andariam os dois pela casa dos trinta e caminhavam à minha frente, em direcção ao estacionamento. ela, franzina, empurrando a custo um carrinho repleto de artigos pesados, que lhe fugia de viés; ele, distando de alguns metros, apenas com um saco na mão.
talvez isto seja também a igualdade, pensei.
sim, há um gozo especial, uma espécie de poder, um controlo qualquer, ou simplesmente tolice minha, em caminhar descalça nos azulejos gelados, ainda de madrugada, e voltar à cama, logo depois.
a vida é um teatro.

17.9.16

fecho os olhos e entrego-te o meu corpo, líquido, ouro negro, antigo, um grito rouco no centro da clareira, ventre prenhe dos sonhos de menina.
à minha mãe, que me trouxe ao mundo fora de prazo, abrigando-me nas suas asas imensas, e nos ensinou a brincar.
a mulher mais bela que conheço.
 


14.9.16

a paciência in-
sonora do meu desespero.


/a morte é uma flor/

Mukyo Samuzora

12.9.16

caminho sobre o desfiladeiro mais alto, através de uma corda demasiado fina. tenho medo como nunca tive. 
mas não será assim com toda a gente?

11.9.16

Marlon Brando decidiu esta tarde, entre mimos a sós e areia lavada, dar-me beijinhos nas pernas nuas, com as garras afiadas. na alvura da carne, nasceram lágrimas de sangue. doeu-me de tal maneira, que, ao carinho do pobre, respondi com uma lambada.
um amor complicado este.

/uma lambadinha, para ser sincera/
observo-o, enquanto dorme, - uma respiração tão breve, que por momentos temo -, está velho, o meu velho gato. tão velho. marejam-se-me os olhos. talvez não passe deste inverno.
que lençol lhe escolherei para mortalha?
- queria uma vida contigo.
- cansavas-te de mim.
- precisamente.

10.9.16

actualização do estado da Violeta.

para meu gáudio e satisfação, Violeta, a orquídea adquirida sem lop, em grande superfície comercial, há quase dois meses, mantém-se viva e de boa saúde, seguindo a sensibilidade líquida desta flor sem grande jeito, que lhe mantém o vaso sempre com água. 





/talvez seja anfíbia... sei lá/
sob o calor infernal da manhã que ainda agora começa, descobri o meu setembro outonal. patos-reais grasnando perto, figos pingando mel e pequenas pêras amarelas.
vejo a máquina gigante, desde manhã cedo, engolindo as videiras e vem-me à memória um outro tempo, tempo em que o povo inteiro se juntava nas vinhas, tagarelando e cantando, e o ar cheirava a moscatel. o tempo do meu avô.

das coisas mais importantes na vindima daquele tempo, lembro-me bem, era a escolha das tesouras e a companhia que nos calhava do outro lado da videira. os que andavam de mal, famílias que não se davam, situações mal resolvidas, ficavam em fileiras longínquas, garantindo tréguas por aqueles dias; depois havia os que fugiam dos lentos e os que fugiam dos despachados, os que ficavam sempre juntos e os que nem se conheciam. os que ora andavam aqui, ora andavam ali, parecendo muito, mas fazendo quase nada, e os profissionais, que ganhavam ao dia. e havia os meus irmãos, feitos adónis em tronco-nu, para delícia e suspiro de algumas senhoras de então, carregando os baldes para os tractores.
a mim, desde cedo, porque tinha mãos de fome pelo mundo e a cozinha /lugar das meninas prendadas/ me atrofiava, chamava-me sempre a ti conceição, uma velhinha ligeira e divertida, que até ao dia da sua morte, de cada vez que via a minha mãe, lhe perguntava por mim.
lembro-me de uma vez que me mandaram para a cozinha descascar batatas, /piada de homens à volta/, e eu - adolescente em combustão - lhes virei as tesouras à cara e lhes disse que também cortavam tomates, só era preciso que os houvesse. parece que ainda ouço as gargalhadas sonoras da ti conceição, enquanto dizia, o diacho da rapariga, que nunca se deixa ficar. é cá das minhas! corta cachos, florzinha, corta cachos e deixa lá os tomatos!... 

o meu avô, senhor de um porte majestoso, controlava todas as operações, sem nunca - que me lembre - levantar sequer a voz. era um homem soberbo. trabalhador e inteligente. a minha avó, que toda a vida teve criadas e mal sabia mexer num tacho, ficava na cozinha, enquanto membro honorário, observando as outras mulheres.

foi assim, por muitos anos. 

9.9.16

do ciclo do cavalo.

Meu amor – agora sim – posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.


Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.

da ternura.

Anne Laval

7.9.16

queria uma capa de invisibilidade, que me poupasse dos olhares consternados à minha passagem, torcendo o nariz à minha fraca e magra figura. eu própria, confesso - mas só a si, que me lê e não me vê -, virei costas aos espelhos de corpo inteiro. é que, até para ter pena de mim como deve ser, me falta o tempo.
enquanto arrastava os ténis até à caixa, com três cabides na mão, perguntava-me, angustiada, se se pode vomitar de cansaço...

6.9.16

ouço as sirenes novamente. a cidade, esta onde os turistas não chegam, fervilha de vida em esquinas cortantes. com a noite, vem o receio das criaturas nascidas em becos sem saída, figurantes sem voz e sem nada a perder. o som dos passos confunde as sombras em torno dos candeeiros. nas varandas, fumam-se os primeiros cigarros e ouvem-se bebés em balidos de sono.
e não tens medo?
aos antropófobos enviesados como eu, sugiro como divertimento social o postcrossing.
um gato morto na estrada, é o que vejo, manhã cedo, nos arrabaldes da cidade. e a tristeza lacónica  do costume apodera-se de mim. há todas as mortes, pequenas e grandes, gente esmagada dentro de carros velozes, mulheres que morrem no chão da cozinha, crianças em hospitais, velhos ao abandono - há todas as mortes, naquele gato esventrado, mas ninguém parece reparar nelas.

5.9.16

reparo que, ao lado do pacote gigante de m&m's que nunca comerei, comprado em substituição de um jantar tardio que não se deu, repousa o meu alicate preferido. tenho uma predilecção por ferramentas de corte, confesso. são instrumentos que nos permitem descobrir o que se esconde sob a camada inicial, assumindo o controlo do que antes nos escapava. possuo o jeito e a delicadeza para o seu fácil manuseamento.
só hoje li a palavra em tons de laranja. dexter.

estranha coincidência.

4.9.16

às vezes, Taeko e Yukiko ganem, num quase choro humano, enquanto dormem. pergunto-me se sonham, se recordam, e qual das opções será a melhor.
chamo-as de mansinho, na maior das ternuras que consigo.
o castanho barrento, exposto em sulcos profundos, transformou-se no parque de merendas de alguns pássaros cinzentos que não consigo distinguir. nada sei do homem, temo a sua invalidez, talvez a sua morte. é outro o homem que agora lavra a terra.

a doença, desmaios súbitos sem aviso prévio, ainda não tem nome, tão-pouco cura. o rapaz, que ajudei a criar, enraivece-se à notória invalidez que o vai tomando. proibido de conduzir, desempregado forçado. debito lugares-comuns à mãe, enquanto torço os dedos para não chorar. a miserabilidade da situação é evidente. 

cheguei no momento em que a maca, coberta por um plástico preto, era empurrada até à carrinha branca, estacionada a menos de cinco metros. paralisei, encostada à porta. choro todos os cães que morrem.



o mocho-galego - encanta-me aquele olhar - deixa que eu me aproxime, quase lhe consigo tocar, ainda que não o tenha tentado. como eu, vive de noites brancas e madrugadas em silêncio.