10.9.16

vejo a máquina gigante, desde manhã cedo, engolindo as videiras e vem-me à memória um outro tempo, tempo em que o povo inteiro se juntava nas vinhas, tagarelando e cantando, e o ar cheirava a moscatel. o tempo do meu avô.

das coisas mais importantes na vindima daquele tempo, lembro-me bem, era a escolha das tesouras e a companhia que nos calhava do outro lado da videira. os que andavam de mal, famílias que não se davam, situações mal resolvidas, ficavam em fileiras longínquas, garantindo tréguas por aqueles dias; depois havia os que fugiam dos lentos e os que fugiam dos despachados, os que ficavam sempre juntos e os que nem se conheciam. os que ora andavam aqui, ora andavam ali, parecendo muito, mas fazendo quase nada, e os profissionais, que ganhavam ao dia. e havia os meus irmãos, feitos adónis em tronco-nu, para delícia e suspiro de algumas senhoras de então, carregando os baldes para os tractores.
a mim, desde cedo, porque tinha mãos de fome pelo mundo e a cozinha /lugar das meninas prendadas/ me atrofiava, chamava-me sempre a ti conceição, uma velhinha ligeira e divertida, que até ao dia da sua morte, de cada vez que via a minha mãe, lhe perguntava por mim.
lembro-me de uma vez que me mandaram para a cozinha descascar batatas, /piada de homens à volta/, e eu - adolescente em combustão - lhes virei as tesouras à cara e lhes disse que também cortavam tomates, só era preciso que os houvesse. parece que ainda ouço as gargalhadas sonoras da ti conceição, enquanto dizia, o diacho da rapariga, que nunca se deixa ficar. é cá das minhas! corta cachos, florzinha, corta cachos e deixa lá os tomatos!... 

o meu avô, senhor de um porte majestoso, controlava todas as operações, sem nunca - que me lembre - levantar sequer a voz. era um homem soberbo. trabalhador e inteligente. a minha avó, que toda a vida teve criadas e mal sabia mexer num tacho, ficava na cozinha, enquanto membro honorário, observando as outras mulheres.

foi assim, por muitos anos.