31.10.16

{um poema para a Miss Smile}


Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria


excerto de A Gorda, de Isabela Figueiredo

difícil é não comprar o livro.
obrigada, Isabela.

porque há bloggers assim, capazes de tudo, até de tentar envenenar as orquídeas das outras...


a prova

30.10.16

da odisseia que se iniciou em julho do corrente ano e de como flor de espinheiro, a própria, tem sabido, com a sua total inexperiência, manter Violeta, a imperatriz tropical, em tamanha beleza.

[roam-se, bloggers famosas!]


Violeta, a trinta de outubro de dois mil e dezasseis

/é impressão minha ou as flores de Violeta, a orquídea, parecem monstros do espaço?... abelhas-mamutes?.../

encontrar uma teia de aranha, ainda que pequena - a teia, que de Miluzinha, nem sinais - no lava-loiças, há-de ter algum significado, mas prefiro não reflectir sobre coisas profundas tão cedo. aproveito estes sessenta minutos, oferecidos pela boa-vontade do mesmo alguém que daqui a seis meses os rapinará sem piedade, para pôr as pernas ao sol, observando taeko e yukiko na felicidade da escavação, em companhia da última bolacha e do último pacote de leite, morno, com duas colheres de mokambo. também não quero reflectir sobre isso agora. por arrumar vejo ainda o saco dos felinos e a caixa das gordinhas. está tudo bem, nada nos falta.

/o próximo animal que me vier parar às mãos, há-de chamar-se mokambo/a. caracóis e primas lesmas não contam. nem bichos de prata. perdoa-me, senhor./   

29.10.16

é sábado, sente-se sozinha, ouço-a dizer. de olhar caído no chão, continua a mendigar algum carinho, numa voz de queixume, enjoativa, repetindo-se em súplicas. a conversa pouco mais dura. mal desliga o telemóvel, dirige-se, apressada, à casa de banho. dá-me pena.
devia ser proibido implorar o amor.
o meu poeta azul tem o olhar mais belo que já beijei.
confesso: quis embebedar-me, ontem à noite. quis embebedar-me como há muito não me lembrava. avancei no jinzu, como quem avança nos sumos de pacote. queria, à força, suprimir aquela necessidade imediata de pensar nas coisas. pois que sim, o dia foi longo, ainda tinha de voltar ao escritório (ah-ah-ah!), nem é tarde, nem é cedo, é a hora certa para me embebedar. não uma dessas bebedeiras de secundário, em que vamos agarradas pela melhor amiga até à casa de banho, não, nada disso, era uma bebedeira mais contida, mais madura, onde havia apenas olhares inebriados, gargalhadas soltas no ar e sexo selvagem na arrecadação do restaurante. uma bebedeira com estilo, quase um teledisco ou publicidade de perfume. pois então que venha esse jinzu, vício que ninguém me entende e ainda me acusa de nem ser gin de verdade. gin de verdade ou não, a meio do segundo, fiz contas ao preço, lembrei-me do saldo da conta, e decidi que me embebedava noutra altura, quem sabe no natal, com uma caixa tamanho familiar de mon cheri. da desejada bebedeira, passei à ingrata depressão. raios partam o jinzu!
entraram as duas, três pisos depois, não as observei, entretida que ia na minha azáfama, até que decidiram iniciar conversa, debatendo a problemática do acrílico. eu, patega acabada de chegar ao gelinho, deixei-me ficar, até ao rés-do-chão, a aprender a ser uma mulher moderna.

/sempre me ficou o gozo de ver a unha de garra - acrílico violeta escuro - em tentativas vãs de calcar no botão do elevador./

28.10.16

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,

...

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

26.10.16

quando entrei na pequena livraria da rua passos manuel, movida por um desejo insano de encontrar godot, ainda não sabia que traria al berto lunário embrulhado num saco de papel. escolhi-o pelo sexo, confesso, depois de ter lido um artigo antigo do público, opinião de alguns, que era um bom livro para ler corpos resfolgados, ainda com sabor a mar.

24.10.16

descer ao rio de lanterna na mão, as botas de borracha calcando o tapete ensopado, Taeko e Yukiko - quais vacas anãs - pastando na erva mais tenra: eis o ponto alto do dia, que, na verdade, já é noite cerrada.

/isto depois de descobrir que o vizinho trata o cão pela terceira pessoa.../

23.10.16

Rebecca Leveille Guay - Flowers

o passeio de barco prometido, como já se temia, ficou cancelado na sexta-feira à tarde, por receio do temporal. depois de terem acesso à curta mensagem, os deuses domingueiros tomaram para si a cínica tarefa de não mandar um pingo de chuva durante toda a manhã. velhacos.
almocei cedo, numa orgia de cores e paladares, - pimentos assados, tagliatelle com alperce (sim), peixe panga bem simples, puré de maçã, crepe de goiabada e queijo de cabra, cogumelos salteados, meio copo de vinho - um verdadeiro festim. do café, bebi dois golinhos, cada vez me custa mais forçar-me ao gosto queimado, e pus-me a caminho da livraria. o rapaz, por simpatia ou genuíno reconhecimento, ofereceu-me um sonoro cumprimento. o gesto quebrou o silêncio religioso entre os presentes - sempre todos tão iguais - que o rubor se me aflorou à face. ridícula, fugi apressadamente para a poesia. já em segurança, encostada às prateleiras do costume, dei início à busca, procurando algum arrebatamento dominical.
saí de mãos vazias.

/que saudades dos meus alfarrabistas./
prometi que era assunto morto, mas confesso que ainda lhe sinto o pulsar das veias, mesmo junto à garganta, onde cravei a navalha curta. não estando morto, continua a ferrar-me na boca do estômago. há-de jorrar fel.
PANTONE 316 CP

num abraço entre o verde denso da serra a pique e o azul profundo do mar, nasceu a cor que me acaricia a alma.

22.10.16

Durante quinze, vinte, mais minutos, esqueço o que vejo. Concentro-me só no quadro onde vão sendo anotados números, o giz a raspar a ardósia e a manchar-se de vermelho. Altura: 1.64m. Peso: 80 Kg. Cérebro: 1250 gramas. Coração: 400. Pulmão esquerdo: 730. Pulmão direito: 650. Fígado: 500. Pâncreas: 100. Baço: 140.

Penso só que nunca saberei quais são os meus valores. Que não vou querer que ninguém os conheça por mim. Vou ser cremado. Melhor, incinerado. Isto, se não morrer de morte violenta e não me trouxerem à força para uma sala destas. À força. Sorrio. Antes de o assistente fazer uma incisão na parte de trás da cabeça, de orelha a orelha, e de levantar a pele como uma máscara e de a poisar sobre ele, o rosto deste homem era a imagem da impassibilidade. Parecia morto não de há dois dias, mas há anos, há séculos, desde sempre. Parecia já ter nascido assim: morto.

(...)


Até pegar a sério no bisturi, vivi durante um ano a exaltação da carne. Construi teses sobre a macroscopia da alma e a microscopia da textura dos tecidos. Passei a comer bifes mal passados. Comprei um coelho no mercado só para o dissecar no lavatório da casa de banho e depois me habituar ao cheiro da sua decomposição. Colei na parte interior das portas do guarda-fatos as imagens mais macabras dos manuais de Tanatologia. Passeei com as namoradas no cemitério e fui discursando sobre a paz dos mortos. Fui um perfeito idiota aterrorizado com a chegada do meu confronto com a morte.

Com o tempo, deixei-me disso. A carne tornou-se banal. A minha e a dos corpos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos como mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.

Se me disserem que um dos meus mortos já teve uma vida antes, eu respondo que só me interessa aquela que ainda encontro quando o abro. Uma vida que não dura mais de três horas de cortes e sangue. Com poucas personagens e desfecho rápido. Morreu. Mataram-no.

É verdade que com cada corpo que me passa pelas mãos tenho uma conversa diferente. Não há duas histórias iguais. Tal como não existem duas ramificações sanguíneas semelhantes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.

Morremos todos do coração, acreditem.


/Este é o meu corpo, Filipa Melo/
As coisas delicadas tratam-se com cuidado

 Desossaste-me
 cuidadosamente
 inscrevendo-me
 no teu universo
 como uma ferida
 uma prótese perfeita
 conduziste todas as minhas veias
 para que desaguassem
 nas tuas
 sem remédio
 meio pulmão respira em ti
 e outro, que me lembre
 mal existe

 Hoje levantei-me cedo
 pintei de tacula e água fria
 o corpo acesso
 não bato a manteiga
 não ponho o cinto
 VOU
 para o sul saltar o cercado


daqui: modo de usar & co


/não sei porque deixei de ler escritores africanos, especialmente elas, que tanta falta me fazem e tão próximas me são./
Odin, deus da criação, deu o leite ao homem para alimentar a mulher e à mulher para alimentar o mundo.
de Raul e Herberto, aprendi a lei da metamorfose, teoria geral da vida, das coisas e da imaginação. é no poder da transformação que nasce a tristeza crónica inveterada. no dia em que tudo for plano e o voo do condor ficar preso na linha do horizonte, a realização da condição absoluta acontecerá e explodiremos num grão de plenitude extasiada. no dia em que a mudança for impossível, as características imutáveis,  as variações imobilizadas, conheceremos, nos breves instantes precedentes à aniquilação, - feixes de luz cegando-nos -, no seu estado mais puro, a felicidade consubstancial.


numa teimosia suicida de não querer ser infeliz, morre, aquele que não se adapta.

a este propósito, dizem as mulheres das estepes, descendentes das mais bravas sármatas, não te aflijas pelo filho que chora, mas antes pelo que permanece imóvel. 

21.10.16

às vezes vejo-os, caras conhecidas, vozes familiares, um ex-colega a subir as escadas do chiado, uma antiga cliente a atravessar a rua no Marquês, um professor de inglês esquecido no Carmo. de todos fujo, nada tenho para lhes dizer e o silêncio não faz conversa.
hoje acendi uma vela na igreja da encarnação.

18.10.16

sinto-me, como nos tempos em que os lobos uivavam na minha parede, animal de mato rasteiro, em fuga felina, urinando medo -- o terror da besta que me tombará.

o desespero de estar perdida num labirinto.  

16.10.16

talvez não o diga com a frequência que gostaria /talvez a muitos nunca o tenha dito/, ou porque o tempo me escasseia, ou me escasseia a escrita assertiva, e os elogios, já se sabe, podem conter demasiado açúcar e cariar o post original.
aqui fica a minha declaração de manhã de domingo, /que já é segunda-feira e ainda ontem foi sexta/:

- é muito bom ler-vos. obrigada.
acabei por não descer ao rio, depois de ouvir os disparos, no meio do nevoeiro. tiros de caçadores estão na minha lista top #as 10 mortes mais estúpidas. 
espero que Corto Gatês, o intrépido, se acautele nas suas incursões pelos mares bravios de vegetação. afinal, foi um chumbo vesgo ou de maldade, que lhe trouxe, já depois de gatarrão adulto, o nome que orgulhosamente ostenta.

15.10.16

 
Jared Rue, Nightfall



/O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração./
 
Raul Brandão
as raparigas da pastelaria são sempre simpáticas comigo. já se habituaram a ver-me por lá nos sete dias da semana. há pouco, dizia uma em conversa, Se soubesse o que sei hoje, tinha estudado, não estava aqui metida!, as outras duas respondendo, Podes crer!
fica-me a frase na cabeça. eu, que guardo duas latas amarelas, canudos floreados a latim, com selo de prata, no cimo da estante, afinal também ali estou metida.
termino a tosta de queijo e tomate, o sumo de laranja natural, recuso o café e regresso ao trabalho. Se soubesse o que sei hoje, tinha emigrado, quando o momento era o exacto.
lembras-te de quando, os dois na cama, enrolados nos lençóis brancos, me sorvias como a uma pêra madura?
chove mansamente sobre o vale. ao fundo, Taeko e Yukiko escavam a terra amolecida, perseguindo alguma toupeira. voltarão depois, molhadas e sujas, abanando as caudas felizes, enquanto eu as tento limpar com as toalhas velhas. não tenho leite, nem café, em casa, apenas fome. o monte de roupa suja cresce no cesto. a dona da bata às riscas só limpa, não se entende com máquinas modernas, cheias de botões e amigas do ambiente. o tempo escapa-me por entre os dedos, como areia fina. tenho saudades das cadelas, dos gatos, até das aranhas, do mocho, dos livros, da terra. saudades de um abraço inteiro, de entregar o corpo à dança, de calçar os sapatos vermelhos, da minha mãe, de rir sem preocupações, de partilhar, da boa conversa, de estar mais gorda, mais bonita por fora e por dentro. 
ainda penso em procurar aquela que julgava ter sido, mas ando perdida há demasiado tempo, transformei-me num magro bicho, fingindo o imprescindível social, cada vez me mais intolerante ao barulho e à intimidade dos outros, debitada exaustivamente nas pausas do café. nesta estranheza de mim, já não procuro respostas, o que, não fazendo de mim uma pessoa mais interessante, me traz alguma paz de espírito. 

14.10.16

trago o coração inundado de lodo e tristeza.



9.10.16

meio cinza, meio nada, totalmente a larapiar a Pizarnik, a ideia por agora era mais ou menos esta: «Escribir no es más lo mío. Con sólo nombrar alcoholes temibles, yo me embriagaba. Ahora, lo peor es ahora, no el miedo a un desastre futuro sino la de algún modo voluptuosa constatación del presente infuso de presencias desmoronadas y hostiles.»


mas depois a Tétisq decidiu roubar-me a Vendredi!!

achou que bastava achinelar-lhe a nomenclatura para Sexta-feira, julgando-se na ilha ou na casa dos segredos, para que eu não desse conta da ousadia. a lambona da Vendredi, há meses a viver de pensão alheia, abusando do estigma de coitadinha, atreve-se a apelidar a sua melhor amiga - que sou eu, note-se! - de Dona. Dona! vejam bem! eu, que tanto posso usar o título de doutora, como de engenheira, como de Magnífica, sou chamada de DONA! quiéláessamerda?!? a vontade que me deu de rodar a baiana, pôr a mão na anca e avançar para o murro na tromba, como fez a nossa amazona maior, bem na fuça do Trampa!
fraquinha dos ossos, lá me aquietei, não fosse o bando da hospedaria juntar-se à enjoadinha da camareira, e aquilo já é tanta gente, que saía de lá sovadinha de todo. decidi que a coisa passava pela estratégia, plano para mulheres habituadas a lutar nas barras dos tribunais e nas assembleias dos condomínios. procurei a Palmy e o seu famoso e terrível cão de loiça, animal arraçado do mais duro betão e peitorais de touro das américas, pensando eu que isto das bloggers famosas é só lérias e as agendas preenchidas não passam de conversa fiada para as pinipons baterem palmas. nem quis acreditar quando a porteira me respondeu que a Senhora andava acarretar tijolos na obra... jesus...

Vendredi, minha desengonçada, estás a deixar-me tão fora de mim que penso já em soluções terminais para te liquidar de uma vez por todas! trancar-te no petroleiro da Cuca, a esfregar o convés, ou pedir ao Rentes que te meta na cama com o Meças a cair de borracho, ou, melhor ainda!, pedir ao Pipoco para te apresentar a um dos seus amigos, quiçá ao pavão do Melchior de Mello.

Se mesmo assim, insistires em dar-me cabo da paciência, andando por aí, de blog em blog, assassinando o meu bom-nome e reputação elevadíssima, eu juro, Vendredi Maria dos Três Anjos da Anunciação, que te ponho uma semana a tirar estrume à forquilha na vacaria do Atalho!! ou te mando com a Linda lá pró Giná (não, estupida! não é prá revista! isso querias tu!) pra veres o que é bom prá tosse e pra esse nalgueiral descaído!

8.10.16

este blog está a pensar em seguir os valentes passos de Vendredi, moça de quem nunca mais se ouviu falar.

5.10.16

sim, o anjo do inverno já soprou no meu pescoço. trajo um dos pijamas de malha grossa, acompanhado de meias fofas e gordas e pantufas com pelinho.
mas insisto na parede de vidro completamente aberta, a varanda oferecendo-me a noite pura, uma lua tão delicada. 
correndo entre gentes e locais, vi-o. Raul, a minha paixão antiga, estava ali, no meio de alguns livros toscos, a menos de cinquenta passos. corri-lhe para os braços, aninhei-o no meu pequeno peito, não o voltei a largar.
a pedra ainda espera dar flor...


«Mesmo na desgraça colhemos uma flor se a encontramos no caminho, e nem agora nem nunca nos havemos de desinteressar das coisas simples e eternas que são o encanto máximo da existência. A sua ausencia total só no inferno se concebe.»
 
/pág. 189, Quetzal/

2.10.16



Patrick Leger

uma série de acasos leva-me a sair no preciso momento em que a ave de rapina, alto, deixa cair o animal do tamanho de um pequeno coelho. se não lhe morreu nas garras, duvido que tenha sobrevivido à queda.
a natureza, definitivamente, não é vegetariana...
Rosácea, a pequena roseira que há duas semanas comprei - novamente - num espaço comercial, tem feito as minhas delícias pelos tons de rosa, desde o seco suave ao mais escuro cor de vinho. dou-me conta, agora que Rosácea floriu quase todos os seus botões e alguns deles já secam em rosa sangue,  que ganhei nova função: catadora de pot-pourri.

a ladeá-la, Violeta, a imperatriz, e D. Poinsétia, a brava sobrevivente do último natal, já sem vermelhos.
sento-me na esplanada mais próxima, com vontade de um chá e um bolo seco qualquer. o homem com quem tinha combinado encontrar-me, e por quem alterei o meu (único) dia livre, respondeu-me que afinal estava fora de lisboa, seria melhor falarmos amanhã.
o encontro, coisa simples, estava marcado há quase uma semana, confirmado por telefone e correio electrónico, e sugerido pelo próprio. ainda assim, não maldigo a vida. o sol, ameno, beija-me a pele. o chá aquece-me a alma. quanto ao homem, ainda não sei o que fazer.
acordaram-me pelas cinco da manhã, tudo escuro, apenas as luzes do casario, na encosta. queriam sair. calcei as botas, umas calças velhas, o casaco azul, e fui com elas. 
ainda com a lanterna apagada, quedo-me no cimo da ladeira, encantada com o céu estrelado, enquanto as aves nocturnas e os grilos executam o concerto da noite. guardo o momento, precioso, e avanço por entre os arbustos, lanterna em riste, procurando os dois pares de olhos apressados.

cansadas e satisfeitas, ouço-as agora roncar. a mim, sobra-me a caneca de café com leite, a piscina do submarino e um livro disposto a navegar comigo.


bom domingo.


/ouço os primeiros tiros do outono. que raiva me (re)nasce./

1.10.16

contou-me a raposa, enquanto eu praticava mariposa na piscina do submarino, que, no mundo de onde vinha, a música era sempre servida à hora das refeições. alimente corpo e alma, podia ler-se nas portas de todos os estabelecimentos. no final, as pessoas abraçavam-se dizendo, que a música esteja contigo.

-- e dançavam?

-- sim. com os olhos postos nos seus amados.