15.10.16

chove mansamente sobre o vale. ao fundo, Taeko e Yukiko escavam a terra amolecida, perseguindo alguma toupeira. voltarão depois, molhadas e sujas, abanando as caudas felizes, enquanto eu as tento limpar com as toalhas velhas. não tenho leite, nem café, em casa, apenas fome. o monte de roupa suja cresce no cesto. a dona da bata às riscas só limpa, não se entende com máquinas modernas, cheias de botões e amigas do ambiente. o tempo escapa-me por entre os dedos, como areia fina. tenho saudades das cadelas, dos gatos, até das aranhas, do mocho, dos livros, da terra. saudades de um abraço inteiro, de entregar o corpo à dança, de calçar os sapatos vermelhos, da minha mãe, de rir sem preocupações, de partilhar, da boa conversa, de estar mais gorda, mais bonita por fora e por dentro. 
ainda penso em procurar aquela que julgava ter sido, mas ando perdida há demasiado tempo, transformei-me num magro bicho, fingindo o imprescindível social, cada vez me mais intolerante ao barulho e à intimidade dos outros, debitada exaustivamente nas pausas do café. nesta estranheza de mim, já não procuro respostas, o que, não fazendo de mim uma pessoa mais interessante, me traz alguma paz de espírito.