31.12.16

do homem, nem sinal. é novamente outro homem, num tractor maior, que lavra o terreno junto ao laranjal. as garças-boieiras, talvez outras também, continuam a picar a terra revolvida, indiferentes ao roncar da máquina.
tentei um recomeço, mas tudo é uma continuação.
a vida é, afinal, uma elipse catatónica.
Laura Makabresku

30.12.16

respiro os gases azuis dos combustíveis, sempre que vagueio pelas ruas estreitas do meu labirinto. nas sarjetas, misturam-se os dejectos dos cães citadinos com as águas pluviais, recolhidas na estação próxima dos comboios de velocidade veloz. aprendo a caminhar nestes passeios periféricos que nunca foram os meus, despindo o casaco arrogante, comprado nas avenidas. aos poucos, golpeando apenas as polpas dos dedos, que lambo, febril, vou mapeando o virar das esquinas, as vielas mais frias, os descampados onde nascem as lixeiras, as vias-rápidas onde atravesso pontes com vozes suicidas. 

não haverá lugar para balanços, neste ano bissexto que por agora finda. não creio em festejos pré-definidos e massivamente copiados, tão-pouco conheço o calendário dos planetas telúricos. repito os desejos do ano passado, - intemporais -, alguns cada vez mais distantes das minhas mãos:

para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.

28.12.16

volto já.
fui só fazer bolas de neve com a geada.

26.12.16

Andrew Wyeth

ponto de fuga
insondáveis são os caminhos da vida, mistérios da natureza, minha mãe, doce vizinha, novinha, belas carnes, ó José, tinha a moça do café, não me incomode agora, senhor, tenho a sopa a ferver, a morcela é da boa, corte rente, por favor, nunca fui muito de beber, mau vinho, má ocasião, Deus ma deu, Deus ma levou, minha querida Alzira, mãe de cinco, costureira de profissão, esconde, esconde, um, dois, três, corre, malandro, que te apanho, corre, que te deito a mão, senhor, uma esmolinha, por favor, tenho fome, quero comer, a meu ver, senhor engenheiro, temos aqui confusão, veja este vazamento, nunca se viu coisa assim, maquinaria avariada, é chamar-se o homem, e que traga o irmão, o do camião. cão? cão, meu grande cão, canídeo amarelo, mijador profissional, castrado pelo ti, Jaquim, em tarde de bebedeira, bate, bate, o pão na eira, canta a dona Chitas, carpideira, adufe ao alto, Maria, vamos à feira, chamava o regedor, ai minha mãe, ai minha mãe, gritava a Laurinda na hora de parir, Paris aqui vou eu, que fujo da guarda, alcoviteira que se bufou, certamente, não nasce aqui nada, não plante, senhor Clemente, assuma que foi você, que me disse que lhe deitava o dente, jeitosa, a viúva, ai se não, corro para apanhar o vinte e oito, braço em riste, carteira no bolso interior, boas tardes, menina, boas tardes, senhor Prior, sabes se os cucos já partiram este ano?, venha cá, meu mandrião, deixe que a mamã lhe componha a camisa, no Tamisa é que era, eu e tu, num barquinho, a vogar, os cucos não partem, avó, vieram para ficar, lagartas verdes nas couves, minha mãe, não as consigo matar, o coveiro já lá está, a terra está dura, não há ninguém que a vá lavrar, Maria, olhà blusa, filha, que hoje não te podes sujar, chega o teu pai, vem da guerra do ultramar, minha mãe, meu pai morreu e eu vou me casar.

meu querido George, quantas vezes adormecemos juntos...


25.12.16

VLADIMIR
 Amanhã enforcamo-nos. (Pausa) A não ser que venha o Godot.

ESTRAGON
E se vier?

VLADIMIR
Estamos salvos.


/ed. Cotovia/


24.12.16

/ajudando a Cuca a procurar o espírito natalício, que fugiu de casa da Palmier, onde se encontrava em cativeiro há vários anos, num sótão escuro, partido em várias caixas de papelão. (apenas porque a Própria dará alvíssaras e eu, esse doce, nunca provei/



VLADIMIR
 Também deves estar contente, lá no fundo, se ao menos soubesses.

ESTRAGON
 Contente com quê?

VLADIMIR
 Por estares outra vez comigo.

ESTRAGON
 Achas que estou?

VLADIMIR
 Diz que estás, mesmo que não seja verdade.

ESTRAGON
 O que é que eu digo?

VLADIMIR
 Diz, Eu estou contente.

ESTRAGON
 Eu estou contente.

VLADIMIR
 Também eu.

ESTRAGON
 Também eu.

VLADIMIR
 Nós estamos contentes.

ESTRAGON
 Nós estamos contentes. (Silêncio.) O que é que fazemos agora, agora que estamos contentes?

VLADIMIR
Esperamos pelo Godot.

ESTRAGON
 Ah, pois é.
 Silêncio.

VLADIMIR
 As coisas mudaram desde ontem.

ESTRAGON
 E se ele não vier?

VLADIMIR (após uma pausa de incompreensão) Logo se vê. (Pausa.) Eu disse que aqui as coisas mudaram desde ontem.

ESTRAGON
 Tudo escorre.

VLADIMIR
 Repara na árvore.

ESTRAGON
 Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo pus.

VLADIMIR
 Na árvore, repara na árvore.
 Estragon olha para a árvore.

ESTRAGON
 Não estava ali ontem?

VLADIMIR
 Estava, claro que estava. Não te lembras? Quase nos enforcávamos nela. Mas tu não
quiseste. Não te lembras?

ESTRAGON
 Sonhaste.

VLADIMIR
 Será possível que já te tenhas esquecido?

ESTRAGON
Eu sou assim. Ou me esqueço logo ou então nunca mais me esqueço.


/ed. Cotovia/


Adenda: Onde se Lê: GODOT, Leia-se: espírito de natal em fuga.

onde há gatos à janela há
mulheres de mãos nas coisas
pousadas como se esperassem por
algo mais precioso do que a vida


/Bénédicte Houart, Vida: Variações II/

23.12.16

Lila, outrora encantadora de borboletas de silfos nos planaltos da aldeia, navega agora pelo grande oceano, no baleeiro do tio Micá.  no rosto, o sal e o sol fizeram nascer estrelinhas sardentas e o vento transformou-lhe os cabelos em ondas impossíveis de domar. nunca houve no mundo animal tão grande, nem nos tempos dos dinossauros, exclama o tio Micá, de olhos postos na lua, enquanto fuma o seu cachimbo. Lila perscruta o infindável oceano em brilhos de prata, perguntando-se onde estarão as grandes borboletas do mar. em breve será natal e terão de voltar a Akureyri. assobia baixinho, mais uma vez.
a pedido de Milu, a única aranha de Niflheim a circular pela blogosfera, deixo votos de boas festas em filigrana de orvalho de vinte e quatro quilates.



22.12.16

os meus flocos de neve,
para todos vós.

mas não posso, como poderia chorar-me aqui, se ali mesmo, a dois passos, perto de vinte, com mais de quarenta, ficaram sem o emprego de uma vida e lá em baixo o pobre mendiga, pedindo lume para a beata, como? não posso. apenas do pés me queixo agora, que de tão gelados, parecem queimar.
sei que foi do chá, o maldito chá de cidreira - tivesse eu bebido um copo de vinho e jamais esta triste melancolia se aninharia tão pesada no peito.
e os pés sempre tão frios.

21.12.16

acordei cedo, neste que dizem ser o dia mais curto do ano. da secretária, ladeada pelas três magnificas: Rosácea, Violeta e D. Poinsétia Verde (Bruno de Carvalho haveria de gostar), vi o nascer do sol, como vejo quase todos os dias, enquanto marfava mais duas fatias do bolo-rainha do lidl: 5 estrelas, sem hesitar, e enchia o bandulho de café com leite, que, a bem dizer, era leite com café. Taeko e Yukiko já voltaram do campo, ainda não foi desta que chegaram à China, tal vai a fundura do buraco. o Sr. Gato continua na despensa, a latinhas, que o pobre já não tem dentes, areia limpa de dois em dois dias, tal é a quantidade de urina, e saquinhos de água quente, electricamente aquecidos de manhã e à noite. está velhinho, mas mantém-se estável. continua a ronronar como um jovem, quando lhe faço festas. não que o tenha conhecido jovem, mas aquele cerrar de olhos e esticar de fronte diz tudo. o submarino já se encontra na temperatura perfeita e o tanque central vai agora ser preenchido a três quartos de água quente. levo o meu poeta azul pela mão, para que me beije, enquanto navego.
parece-me, pelo menos por agora, que estou no bom caminho para a melhor celebração do solstício de inverno em Niflheim.

19.12.16

o meu pinheiro

cumpri, mansamente, animal da mesma manada que vilipendio, a obrigação de adquirir pechisbeques, chocolates e garrafas de vinho. com a idade, confesso, deixei de me importar. este natal nada me diz, e se, para que não me incomodem com olhares tortos e meias palavras, é preciso encher-lhes as mãos, pois que seja.
num final de tarde de dezembro, o frio da montanha galopando no vazio dos raios de sol, a mãe manda-os ajoelhar de frente para a campa de mármore. nenhum se atreve a falar. sem saber porquê, sobe um pouco a saia de fazenda e pousa os joelhos nus rente à pedra irregular. devagar, esfrega-os, procurando as pequenas arestas aguçadas, para que a pele se rasgue. a dor, fina, ataca-lhe o corpo, obrigando-a a trincar os lábios por dentro. as lágrimas mantêm-se no limbo dos olhos grandes. está sozinha, os outros nada vêem, rezam alto um pai-nosso. 
a música veio sem a esperar, como que predestinada ao momento. esqueci as folhas castanhas na relva, as árvores esbeltas e as linhas direitas da pedra branca, que durante anos foram minhas, e fugiu-me o pensamento para o meu pai. o meu pai, o argentino, chamou-lhe um dia o meu avô, com desdém, obrigando-o a minha presença a conter-se na linguagem. e foi com o meu pai, belíssimo no seu fato impecável de domingo, botões de punho em prata, o relógio de corda do meu bisavô, bigode de galã, dançando  tão bonito com a minha mãe, que regressei àquele que agora é o meu presente.
que doce engano este, o da memória selectiva.

pelo meu pai, de quem aprendi cedo uma valiosa lição: o desamor fortalece.
se tiver de cair, que seja porque me tombei.

18.12.16

após sete dias, em que apenas o criador se encarregou de manter o universo intacto das tempestades celestiais, incumbindo-me da tarefa de vagabundear pelas ruas da cidade, tomando o gosto às chuvas de inverno, regresso a esta casa, que me parece cada vez mais fria e anacrónica. foram sete longos dias, por vezes curtos demais, em que tantas vezes tive de me socorrer da apneia auditiva, do gesto preso e do olhar vazio, para conter a vontade de destruir todas as montras de natal e fazer uma grande fogueira de livros-massapão e papéis de embrulho.
nestes sete dias, apenas uma vez fui feliz ao som da realidade. obrigada, Patti.

A Hard Rain’s A-Gonna Fall, esta sim, talvez uma canção de natal.

10.12.16

A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo. A emoção resulta de um duplo contacto: por um lado, toda uma actividade de discurso vem acentuar discretamente, indirectamente, um significado único, que é «eu desejo-te», e liberta-o, alimenta-o, ramifica-o, fá-lo explodir (a linguagem tem prazer em tocar-se a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, toco-lhe, mantenho este contacto,

/Fragmentos de um Discurso Amoroso/

9.12.16

If you could say it in words there would be no reason to paint.

Edward Hopper

passámos, há muito, o tempo dos ímpetos arrojados, nascidos do início feroz de todas as coisas maiores, vontade férrea de transformar; agora, mais do que empunhar bandeiras e palavras de ordem, exibir a verve de palanque, urge-nos pisar um chão que não nos afunde no lodo disfarçado de mundo, pela berma da estrada.

/Godot espera-se na berma, perto do chorão que não chora mais, mas a vida segue, sempre, para lá da próxima curva./

8.12.16

meu querido Cesariny, transladam-te os restos mortais, esquecem-te a alma grafada.


voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
«a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma»
nada está escrito afinal        

Mário Cesariny
in Pena Capital
hoje, e corrijam-me se estiver errada, que me faltou a catequese, é o dia em que se comemora a procriação divinamente assistida.

Melissa Honey é séria candidata ao lugar abandonado por Vendredi. não fosse aquela cicatriz profunda que me faz temer pela sua longevidade e catalogava-lhe já as propriedades. talvez Melissa Honey não seja a minha salvação, - porque há pessoas que nasceram para não serem salvas -, mas, por agora, espero apenas que se esforce na sua principal tarefa de me manter à superfície de mim.
Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.


Maria do Rosário Pedreira

roubado na Rua das Pretas

7.12.16

do teu azul
poeta
brotei alva a minha flor*


Unknown


*da colecção Haiku Pirata

6.12.16

e já que abri as portas ao queixume, aproveito para recordar o quanto detesto o natal, os centros comerciais e as multidões em geral.

telefonei à madrinha, que bem melhor do que eu finge tão completamente, que chega a fingir que é boa-disposição, o azedume que deveras sente, e perguntei-lhe, esperançada, 'tão, madrinha... e este natal, bebemos as pêras ou não?! não demorou nem dois segundos a responder, mais oui, bien sûr, ma jolie fille, já comprei a garrafa! não bebo sozinha!!
ah, a falta que me faz a madrinha nos outros 364 dias do ano...
servir-me-á de metáfora para tanta coisa na vida, esta ideia de que, para aquecer os pés (sempre) gelados, o melhor é calçar meias mais grossas, quando na verdade, - experiência já comprovada -, a única forma possível é descalçar meias e sapatos e submergir a carne na água quente.
é nesta ideia feliz - o submarino em silêncio, a meio tanque de água quente - que me refugio deste dia amargo, que teima em se alargar.

4.12.16

o sol que vi nascer foi abalroado por um grupo de nuvens escuras que agora se vazam nas minhas janelas. haverá beleza na chuva forte que cai, pois ela existe em todas as coisas, mas a felicidade que me deram aqueles raios amarelos, antecipando um bom dia para secar a roupa e pôr o gato ao sol, abalroou-se também.
el deber de todas las cosas es ser una felicidad, diz Borges, o profícuo, si no son una felicidad son inútiles o perjudiciales.

ora pois muito bem, alguém vá dizer a Nanã que já chega. 
perto de Niflheim, há uma pequena aldeia onde habitam não mais do que seis almas vivas, conhecida pela mudez das mesmas. contam as gentes de Niflheim, quando as longas noites de inverno, perto do lume, cabem dentro de uma garrafa de aguardente, que tudo aconteceu muito antes de Niflheim existir, sendo o vale naquela altura um refúgio de lobos e feiticeiras. no tempo em que as prímulas começavam a florir, recolhiam ali, em tocas forradas a musgo de turfeira, para longos períodos de retiro espiritual e orgias zoomórficas, invocando almas do outro mundo. as gentes das aldeias vizinhas não se atreviam a incomodá-las, temendo os feitiços que as transformariam em sapos-parteiros ou coisa pior, mas às vezes, embalados pela esperança de ver aquelas mulheres libidinosas banhando-se no rio, alguns homens escondiam-se durante dias nos canaviais. diziam os mais velhos que a nudez de uma feiticeira se colava aos olhos de tal forma, que não mais havia mulher no mundo capaz de cavalgar aquele homem. a sua carne não voltaria a enrijar-se, senão para rasgar as bocas da feiticeira.
tinham medo as mães, que recolhiam os petizes, nas noites de inverno, julgando castrar-lhes a iniciação; rezavam as mulheres casadas, temerosas, quando os homens saíam à noite para a taberna; choravam as raparigas solteiras, enquanto espreitavam as ruas desertas das janelas dos seus quartos, todas as noites julgando ter visto o seu a passar.

«...felizes descobertas precoces (as carícias na pequena concavidade que ela tinha na base da espinha, a exploração dele com a ponta da língua dos bordos das narinas dela, o seu lento sugar dos olhos fechados dela, a cabeça do seu pénis pressionando o umbigo dela, o seu dedo desenhando o períneo dela, as pernas dela à volta do pescoço dele, as nádegas dela esfregando-se contra o sexo dele, a sua boca generosa, e sobretudo a descoberta que ela fez da extrema sensibilidade, rara num homem, dos mamilos dele...»


os detalhes da desfloração de Vina Apsara por Ormus Cama, in O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie

3.12.16

a chuva, caindo em urgência no beiral, abafa o primeiro jorro de urina.
é novamente segunda-feira.

2.12.16

esta semana, quis o destino que me calhasse desalojar (uma) Milu, da porta do carro velho. insensível às suas longas pernas trémulas, larguei a pobre junto à zona dos aspiradores do elefante azul. nunca faria tal coisa a um mamífero |se até o rato transportei para a segurança do mato cerrado|, tão-pouco o fiz com a Carlota, por que diabos cometi tal infâmia com o pequeno aranhiço, tantas vezes sinédoque do meu pensar?