19.12.16

a música veio sem a esperar, como que predestinada ao momento. esqueci as folhas castanhas na relva, as árvores esbeltas e as linhas direitas da pedra branca, que durante anos foram minhas, e fugiu-me o pensamento para o meu pai. o meu pai, o argentino, chamou-lhe um dia o meu avô, com desdém, obrigando-o a minha presença a conter-se na linguagem. e foi com o meu pai, belíssimo no seu fato impecável de domingo, botões de punho em prata, o relógio de corda do meu bisavô, bigode de galã, dançando  tão bonito com a minha mãe, que regressei àquele que agora é o meu presente.
que doce engano este, o da memória selectiva.

pelo meu pai, de quem aprendi cedo uma valiosa lição: o desamor fortalece.
se tiver de cair, que seja porque me tombei.