4.12.16

perto de Niflheim, há uma pequena aldeia onde habitam não mais do que seis almas vivas, conhecida pela mudez das mesmas. contam as gentes de Niflheim, quando as longas noites de inverno, perto do lume, cabem dentro de uma garrafa de aguardente, que tudo aconteceu muito antes de Niflheim existir, sendo o vale naquela altura um refúgio de lobos e feiticeiras. no tempo em que as prímulas começavam a florir, recolhiam ali, em tocas forradas a musgo de turfeira, para longos períodos de retiro espiritual e orgias zoomórficas, invocando almas do outro mundo. as gentes das aldeias vizinhas não se atreviam a incomodá-las, temendo os feitiços que as transformariam em sapos-parteiros ou coisa pior, mas às vezes, embalados pela esperança de ver aquelas mulheres libidinosas banhando-se no rio, alguns homens escondiam-se durante dias nos canaviais. diziam os mais velhos que a nudez de uma feiticeira se colava aos olhos de tal forma, que não mais havia mulher no mundo capaz de cavalgar aquele homem. a sua carne não voltaria a enrijar-se, senão para rasgar as bocas da feiticeira.
tinham medo as mães, que recolhiam os petizes, nas noites de inverno, julgando castrar-lhes a iniciação; rezavam as mulheres casadas, temerosas, quando os homens saíam à noite para a taberna; choravam as raparigas solteiras, enquanto espreitavam as ruas desertas das janelas dos seus quartos, todas as noites julgando ter visto o seu a passar.