30.12.16

respiro os gases azuis dos combustíveis, sempre que vagueio pelas ruas estreitas do meu labirinto. nas sarjetas, misturam-se os dejectos dos cães citadinos com as águas pluviais, recolhidas na estação próxima dos comboios de velocidade veloz. aprendo a caminhar nestes passeios periféricos que nunca foram os meus, despindo o casaco arrogante, comprado nas avenidas. aos poucos, golpeando apenas as polpas dos dedos, que lambo, febril, vou mapeando o virar das esquinas, as vielas mais frias, os descampados onde nascem as lixeiras, as vias-rápidas onde atravesso pontes com vozes suicidas. 

não haverá lugar para balanços, neste ano bissexto que por agora finda. não creio em festejos pré-definidos e massivamente copiados, tão-pouco conheço o calendário dos planetas telúricos. repito os desejos do ano passado, - intemporais -, alguns cada vez mais distantes das minhas mãos:

para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. um ano feliz, ana!

      «São tão largas as noites
      para a concisão de um corpo.
      Tão escuro o sorriso que as pernas abrem
      ao mundo.
      E no entanto animal que passe
      aloira-se nas águas e geme
      de uma alegria que tem flores e frutos.»

      Catarina Nunes de Almeida

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  2. vi ontem um melro, jazia na beira do passeio

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    1. «O melro, eu conheci-o:
      Era negro, vibrante, luzidio,
      Madrugador, jovial;
      Logo de manhã cedo
      Começava a soltar, dentre o arvoredo,
      Verdadeiras risadas de cristal.
      E assim que o padre-cura abria a porta
      Que dá para o passal,
      Repicando umas finas ironias,
      O melro; dentre a horta,
      Dizia-lhe: "Bons dias!"
      E o velho padre-cura
      não gostava daquelas cortesias.»
      (cont.)

      Guerra Junqueiro

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