22.7.17

Malaquias morreu entretanto, libertando a alma do sofrimento, numa última golfada de sangue. hoje, rumo sozinha para norte. no baú de Blimunda, levo o silêncio das matas queimadas, cinzas cadáveres que esperam por mim. felizmente, já estou morta, não poderei morrer outra vez.
do abraço de despedida, guardo o olhar macio oferecido no cais.

18.7.17

náusea.

17.7.17

pensei que seria poético
voltar ao sítio onde a matei,
mas alguém já lavou as manchas de sangue
da pedra da entrada
e o cão mal se levanta.

15.7.17

escreve-me o estimado leitor, quiçá no intervalo de alguma tarefa mais exigente, para me inquirir da razão de tão baixa produtividade. a flor já não tem mão para escrever com a faca no fogo? apanhada de surpresa, - serão poucos os farrapos, não nego, mas ainda assim por cá derivam -, lanço-me à lâmina de imediato, que julgo morna, tentando provar-lhe de como estava enganado. subestimei o poder do maldito ar condicionado.
um dia, menina, estiquei-me às cerejas, em cima de um caixote de madeira. o caixote, a pino, balançou e eu caí de costas, num estrondo maciço, todo o corpo um peso-morto de mim. lembro-me dos minutos que pareceram dias e no alto as folhas verdes da cerejeira, estremecendo à brisa, sob o céu claro da manhã. quis pedir ajuda e nem um fio de voz. sem ninguém que se preocupasse em saber de mim, lembro-me das lágrimas quentes escorrendo pelo canto dos olhos e da angustia de me sentir presa num corpo imóvel. a voz voltou, trémula, antes de me conseguir mexer, mas não chamei ninguém. percebi, naquele dia, que por mais dolorosa que seja a queda, - e se foi -, o melhor era aprender a levantar-me sozinha.
esta manhã, sensível à falta e contida ainda nas réstias azedas da semana que ontem devia ter terminado, escondi-me entre as almofadas e o lençol e deixei os olhos marejarem. desisti, por alguns minutos, de mim e de tudo. depois, felizmente, aquela menina apareceu.
passamos metade da vida a tentar transformar-nos em pessoas diferentes, almejando versões melhoradas, corrigindo tiques e posições, para mais tarde, os mesmos opinadores sociológicos de outrora, nos garantirem que a felicidade está - e sempre esteve, afinal - na aceitação de nós próprios, inteiros, com os nossos defeitos e feitios.

8.7.17

No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.

«A distância que havia entre ele e a luz da fogueira não era tão importante como a sua certeza de que nunca revelaria a sua presença.»

/A Vida e o Tempo de Michael K, p. 117/
onde se lê vazio, deve ler-se uma vida inteira.

6.7.17

na minha rua só havia eu,
toda a rua era dos meus pais e
eu brincava nela sozinha.
brincava triste,
mas ainda não o sabia,
inventando nomes para brincarem comigo.

hoje eu já não invento amigos,
continuo deambulando sozinha pela rua,
como quando era menina.























Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo

e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas

ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.

Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;

uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer

anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,

com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida

por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade

habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,

recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,

estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos

pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,

perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.


Giánnis Ritsos (1972) | Antologia | Fora do Texto | 1993


daqui: (em)quanto vivo o nome

5.7.17

Não era um trabalho fácil, correr atrás das aves, que tinham o dobro da nossa altura, quando a manhã já ia longa e o calor começava a apertar. Petra ficava no posto da vigia, pendurada na cancela mais alta, e ia gritando instruções, à direita, Jasmim!, Cuidado, Bartolomeu!, atenção à Cotovia! Nós tentávamos seguir a sua voz, enquanto rodopiávamos como bailarinas bêbedas, dentro das botas velhas de couro, que nos ficavam largas. Cirilo, gracioso na sua habilidade de fintar os adversários, era o único que se divertia. Quando a última ave entrava na galinheiro, também ela já exausta, caímos todos, menos Cirilo, de joelhos no chão. Petra ajudava-nos a levantar e obrigava-nos a beber o chá de urtigas ainda quente. Sabe a mijo!, gozava Jasmim. Urina de alpaca, corrigia Petra, com um sorriso.
1. Espero uma chegada, um regresso, um sinal prometido. Pode ser fútil ou terrivelmente patético: em Erwartung (Espera, Schönberg), uma mulher espera o amante, de noite, na floresta; eu não espero senão um toque do telefone, mas a angustia é a mesma. Tudo é solene: não tenho o sentido das proporções.

/Fragmentos de um Discurso Amoroso/

2.7.17

I


A guerra é a mãe e a rainha de todos.
A alguns transforma em deuses, a outros em homens.
De alguns faz escravos, de outros homens livres.



   A primeira coisa que a parteira notou em Michael K, ao tirá-lo do ventre da mãe, foi que ele tinha um lábio leporino e a narina esquerda dilatada. Segurou o bebé, por instantes, abriu-lhe a boquinha e ficou aliviada ao descobrir que o céu da boca estava intacto.
   Voltando-se para a mãe, exclamou:

   —Deve sentir-se feliz! Traz sorte à  casa!

   Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.


/A Vida e o Tempo de Michael K/
13 de Maio

Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.

Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.

 — Acuso! Acuso! Acuso! (...)

/Húmus/
sei que estou morta, quando as minhas mãos querem calar os gritos das crianças que correm perto.
não é difícil esconder-me dos outros, difícil - doloroso, às vezes - tem sido esconder-me de mim.
(...), poetry gives words to the heart.


agradeço ao (maravilhoso) arquivo de cabeceira por me recordar de Lawrence Ferlinghetti e da sua (a) poesia como arte insurgente.

1.7.17

secretamente, ansiava um vendaval para esta manhã, chuva torrencial, ventos ciclónicos, qualquer desculpa que me limpasse a vergonha de cancelar o compromisso. bem cedo, deambulei até ao jardim, onde me deixei ficar a remoer o destino. com agenda tão apertada e os pneus dianteiros carecas, dar a volta à serra não é brincadeira que me apeteça.

28.6.17

5-4-1930

O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.

Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.

Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.

O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.


/livro do desassossego - tinta da china

27.6.17

if all you have is a hammer, everything looks like a nail.


26.6.17

«uns tiveram o azar de serem apanhados pelo fogo, outros morreram por inalação de fumo quando observavam o fogo.»



não sejais abutres, ou hienas, ou qualquer outro animal sem compaixão, que faz das vítimas agonizadas, outras cadáveres, o seu repasto palavroso. aplaudi a competência em tempos extremos, demonstrai a compaixão num minuto de silêncio e acima de tudo não vos enganeis,  não é deus que não é amigo, é a natureza. e bem diz Jorge Gomes, não fosse a mania voyeurista do tuga e só tinham morrido os azarados. este homem é um Senhor, um verdadeiro humanista de mão cheia a comandar uma enorme equipa da proteção civil e da investigação.

tende vergonha, vós, corja da direitalha, que é o que deveis ser todos, de dedo em riste, pior, faca afiada, catando nas cinzas, cuspindo fel, ousando pedir cabeças em bandejas! ora, ora, ora, concidadãos, que mania essa de julgardes tudo e todos, aproveitando a corrente da tragédia, é um tique boçal. se até Guerreiro já veio ensinar-vos como acontecem as coisas, nisto da biopolítica das catástrofes, por que vos deixais cair que nem pategos, exigindo explicações do que não pode ser explicado. acontece, meus filhos, é a vida. aceitai. e  para que quereis vós a demissão dos líderes? acaso Constança fez-vos algum mal? não sabeis que o verão ainda agora começou e há muita serra para arder? quem fará os relatórios depois?

parai com isso, porque insistis em fazer perguntas sobre o "negócio" do SIRESP, não sabeis ficar quietos no vosso canto, sem chafurdar na lama, como pessoas de bem? se até o bandido do Passos Coelho veio pedir que não se cacem as bruxas, não vá alguma estar no momento a conduzir a sua vassourinha laranja. sorte a dele, que já não está no governo, caso contrário ainda ouviria da boca dos que agora são mudos, qualquer coisa assim: incompetência do governo não pode encontrar justificação na meteorologia...


Viva Portugal! Viva a classe política! Vivam os tolerantes do infortúnio!




................................

Adenda à Comédia.


436.

      [PAISAGEM DE] CHUVA

      E por fim — vejo-o por memória —, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre o dia, a vida, a utilidade fictícia, a actividade sem remédio. É outra vez a minha personalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as frinchas das portas das janelas — longe de herméticas, meu Deus! —, vou sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um desconhecimento, salvo de conforto, existência do meu corpo. Vou sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que estou gozando da minha consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato ao sol, os movimentos da lógica da minha imaginação desprendida. Vou sentindo sumirem-se-me os privilégios penumbra, e os rios lentos sob as árvores das pestanas entrevistas, e o sussurro das cascatas perdidas entre o som do sangue lento nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me perdendo até vivo. 


/livro do desassossego - tinta da china/

24.6.17

a inveja impele o mundo, não diz o poeta mas digo eu. 
várias frentes, vários inimigos; antes que apareça a romãzeira do Pipoco -- que, lutando pelo primeiro lugar, não terá qualquer pudor em subornar o público leitor -- fica mais uma das minhas maravilhas: abrunhos!

peleja pela hora do calor, V. Ex.ª, com certeza fazendo-se acompanhar de algum Ambrósio e um ar condicionado portátil...

mas vamos ao que interessa, onde estão as flores da sua orquídea de duas cabeças hibernadas e uma cabeça moribunda (que de tão amarela, até dá peninha)? como pensa vir a ser alvo de inveja, com esse periquito floral escarafunchado? mas afinal quem é o general que lhe coordena as tropas? (estaria o horto fechado, à hora que a sua consierge chegou?)


abstenho-me de continuar esta guerra, por caridade à sua plantinha. pode recolher os seus mortos e tratar dos seus feridos e que tenha aprendido a lição, a inveja quer-se florida!

Declaração de Guerra à Artista Palmier


Artista Palmier,

Serve a presente missiva, teclada em QWERTY debruado a branco sobre pvc azul petróleo, para convocar V. Ex.ª à peleja mais silenciosa de que haverá memória, durante todos os séculos que hão-de vir, neste mundo virtual: a Guerra da Invídia. Enquanto a Capitã do Purpurinas não terminar a época da apanha dos reumáticos, sem braços que se encarreguem dos sabres e dos canhões, teremos de nos gladiar com o mais comum dos sentimentos, mas o mais nobre entre as gentes que são maiores (não sendo baixa, já calcei as botas de salto, que tu parece que levaste adubo no berço).

Inicio eu, que tive a ideia (absolutamente original) de te atingir com o ferrão do ódio pelo possuidor e investi num fotógrafo profissional e no aluguer de um estúdio próprio para a captação de imagens tão belas e tão raras. 

Primeiro disparo (e único, suspeito), Artista Palmier: A Fartura de Violeta -- A ORQUÍDEA MAIS BELA DA BLOGOSFERA.


de frente


de costas


já faleces nesse chão de mosaicos brancos, aposto, tal foi a pontaria do disparo.


23.6.17


s/ legenda (3 de 3)

22.6.17

como te atreves, Daniel Jonas, a dizer que a poesia não é evasão?!?
Colibri

Imagem relacionada

Entre os Astecas, as almas dos guerreiros mortos voltavam à terra sob a forma de colibris ou borboletas. (...) os índios Tucanos da Colômbia acredit(a)m que o colibri ou «pássaro-mosca» copula com as flores, representando assim o pénis, a virilidade radiosa. De resto, no Brasil, também se lhe dá o nome de beija-flor.


/in Dicionário dos Símbolos, J. Chevalier e A. Gheerbrant, teorema/ 
Marlon Brando, o sedutor, enfeitiçando-me entre a luz e a sombra.

o meu arrasa-corações
Corto Gatês, o magnifico, tem passado largas temporadas em terra. suspeito que não lhe agrade o calor em mar de palha.

Corto Gatês, namorando-me

20.6.17

vidro azul, a tocar
enquanto ouço os grilos, que começam sempre depois das rãs, o teclado molhado, o copo perigosamente entre a mão e a mesinha de cabeceira, onde perto de duas dezenas de livros se amontoam, um avião que passa, um carro ao fundo, o gato que continua a miar -- penso como seria tão bom se esta noite chovesse.  
o anoitecer na varanda, duas cadelas arfando o calor, um gin de refeição, um gato que mia, outros três esperando que o gato que mia me toque ao sentimento e lhes toque a eles uma latinha, uma cama desfeita onde me aninho sozinha, um noitibó perto, o coaxar das rãs, o telemóvel que toca e nada de novo. o enxotar das pequenas traças que buscam a luz do monitor. talvez seja esta monotonia que me agrada, esta paz fictícia que me mantém.
fique, disse-me ele, quando entrei no consultório fora de horas, ambos sabendo que não.
há demasiada raiva dentro de mim, que nasci e cresci pertos dos pinheiros e das gentes do campo. acumula-se todos os anos mais um pouco deste fel. hoje, se não fosse pela réstia de bom-senso que a experiência de vida me trouxe, mandava aqueles imbecis, corruptos e incompetentes - que não agem, reagem: tarde demais - todos prá puta que os pariu. não mandando, porque de nada me vale, senão acender um rastilho nesta selva virtual, onde as pessoas de bem - especialmente aquelas que se acham com piada ou verve no teclado- vêm dar lições do politicamente correcto e agradável, resta-me, a mim e a vós, continuar a assistir de bancada à destruição e à morte  daquilo e daqueles que neste país sempre tiverem o menor valor, |os d|o interior rural.

18.6.17

ajuda, precisa-se!

Carlos Pedrosa


saiam de casa e ajudem. há voluntários perto dos hipermercados pedindo água, leite, fruta e bolachas para os bombeiros /e vítimas/ que combatem as chamas em Pedrógão. ajudem.


CONTA SOLIDÁRIA CAIXA

IBAN: PT50 0035 0001 00100000 330 42

17.6.17



Maud Le Fort by Alex Bramall 

não consegui pedir mais do que um sumo de melancia e uma daquelas taças misturadas de gelatina, fruta e iogurte natural. vais ter fome só com isso, grunhia a vozinha dentro da cabeça, sentido o cheiro da carne grelhada. impossível!, respondi-lhe com firmeza, sabendo da falta de força para mastigar. e por ali fiquei, sentada numa sala fresca do centro da cidade, à espera que o rapaz simpático me lavasse o automóvel e a livraria se movesse milagrosamente até mim.
eu, que sou basicamente uma porcelana*, sentia os raios em brasa a queimarem-me a carne e só pensava, catano, vou parecer um camionista! o senhor pereira, refugiado debaixo do ar condicionado da sala, gritava, veja se a piscina lhe agrada, menina, é à direita! e eu, por deus, homem, não me obrigue a esta aflição -- já lá vou, sr. pereira, já lá vou, arrastando-me pelo empedrado a arder, enquanto um diabinho invisível me atazanava o cérebro em papa, com que então tinhas inveja do jardineiro?...


/* argila, quartzo, caulim e feldspato, uma beleza/

16.6.17

percebi o engano, não sou vítima, mas o meu próprio carrasco. se levei tanto tempo a saber algo tão óbvio de mim, quão ingénua seria se acreditasse que conheço a profundidade de alguém.
quanto do que encontramos nos outros será fruto da nossa construção?
o homem veio na hora de maior calor, tentei demovê-lo, que o trabalho não fugia, que podíamos remarcar, mas ele insistiu, que eu já tinha alterado a vida, que ele noutra altura não podia, e assim foi, a tarde inteira a máquina roçou o mato. eu, impossibilitada de fugir à vida, invejei a língua de fogo que lambia o corpo do homem, a secura da boca, as tonturas azuis.

13.6.17

já mais tarde, juntos na cama, deitados os dois, olhámo-nos com calma. tactei-lhe a capa rija em busca de algum relevo e toquei-lhe nas primeiras páginas devagar. suspeitava da nota inútil, mas não esperava que herberto ficasse connosco tantas linhas. foi com ele que dormi nessa noite.
o Forte veio comigo, foi tudo por acaso, nenhum de nós esperava cruzar-se com o outro naquele dia. eu entrei para comprar uma revista, cheia de pressa, que alguém me tinha pedido. ele, em ângulo indefinido - acalmem-se os matemáticos, que na escrita tudo se pode -, escondido da multidão pelas agendas de lisboa, em laranja néon, com uma faca nos dentes. António!, juro que exclamei, abraçando-o com as duas mãos.


Ao nível do mar

como o nome da flor do vinho


murmurado entre relógios de carvão


escrito devagar na cal do silêncio


como o lençol de púrpura


no peito dos amantes


de costas para a morte

ao nível do mar


como um cardume de palavras cintilantes


no horizonte de cinza e de pavor


como um cavalo branco toda a noite


de estrela para estrela


ao nível do mar


como a flor que se abre na boca dos suicidas


um homem


ferido de morte


vai falar


devagar, muito devagar, tão devagar que terminei o sumo de laranja, ainda com eles no meu campo de visão. as mãos encaixavam, como duas bocas que se conhecem de outras vidas. pela mão, ela seguia o homem da sua vida. ele atrasava o passo, para esperar pelo dela. e assim seguiam juntos pelo corredor. que coisa bonita, lembro-me de ter pensado, enquanto a rapariga da caixa gritava: TOSTA MISTA!
olho as mulheres, nas suas leggings pretas a bambolear as carnes, os chinelos de meter nos dedos, as unhas em formato de garras e fico descansada por não sentir mais do que um leve repúdio. não me atrai a insolência de quem se julga superior, porque lê meia dúzia de livros.

11.6.17


em flor (2 de 3)
findo o tríptico,



Rachmaninoff plays Mozart K. 331 Rondo alla Turca

pela boca de Maximilien Que, um ex oficial das SS alemão, contando as suas memórias,






As benevolentes, de Jonathan Littell
entrevista a Jonathan Littell, no courrier de maio, a propósito do seu documentário Wrong Elements,


Qual a razão de ter escolhido música clássica para acompanhar as imagens?

Fiz o possível por não cair naquilo a que chamo o "kitsch National Geographic" - cores sumptuosas, o nascer do sol na savana com o som de tambores ao longe... queria fazer um filme que fosse exatamente o contrário dessa estética. Para mim, a música clássica tem a vantagem de marcar a distância e, de certa forma, a minha posição como observador externo. Sou um branco ocidental em África. Não tenho os mesmos referentes culturais nem a mesma história que as pessoas que filmo. A música clássica simboliza séculos de tradições, parte das quais foram importadas para Africa através do colonialismo e da religião cristã. É com esta bagagem que nós, eu, cineasta e você, espectador, olhamos África.


[...]


Sentado na esplanada de um hotel em Gulu, Jonathan Littell fuma uma cigarrilha. Ouve-se o canto metálico dos insetos enquanto a escuridão vai caindo sobre a cidade. É a hora das dúvidas. "Sabemos o que procuramos, mas não sabemos o que vamos encontrar", conclui Littell. "Afinal, o meu documentário não passa de mais um filme de brancos sobre Africa."

10.6.17

trago a alma em cinzas
um punhado de mim em pó

quando foi que morri?
finalmente dei-me ao trabalho e fui comprar a água tónica. da melhor, pedi ao bartender invisível. voltei com quatro garrafinhas, quinino natural.
agora, de copo na mão, o dia despido a um canto e o poeta azul aninhado nos lençóis lavados, esperando o meu corpo macio, namoro a lua e deixo-me ir. procuro o lugar mágico onde o tempo congela e a incógnita do amanhã vazio dista de igual maneira das ausências que o ontem me deixou. a cada gole, uma tentativa.

9.6.17

todas as tardes de sexta-feira são iguais, mas a felicidade instantânea dos que têm uma vida para além desta vida deixou de me incomodar. agora observo o bêbado apoiado nas muletas velhas, tentando gestos de arrumador, as raparigas do salão, rindo, de cara cansada, e as do café, quase sempre amuadas, o velho das chaves, que raramente se encontra, a rapariga que rói as unhas e ao fim de semana reveza o tio na sapataria, a senhora da farmácia, tão simpática e perfumada, o rapaz manco que trabalha na loja do chinês e baixa a cara sempre que o cumprimento, como fazem os rapazes tímidos da aldeia, e percebo quão pequeno era o meu mundo antigo, nas distantes avenidas.

7.6.17

a boa aranha à casa torna e Milu é o exemplo. dona de uma obstinação muito peculiar, é vê-la repousar suave entre as pétalas da Violeta, quem sabe, recordando os altos mares de outrora.



6.6.17

leite e mel, de Rupi Kaur, parece feito de vidro prensado. mal começamos a mastigar as palavras e o sangue escorre pelos cantos da boca. fere. rasga. crava.



ele devia ter sido
o primeiro amor da tua vida
continuas à procura dele
por todo o lado

- pai



***


o primeiro rapaz que me deu um beijo
empurrou os meus ombros para baixo
segurando-os como se fossem o guiador
da primeira bicicleta em que andou
eu tinha cinco anos

os lábios dele traziam o cheiro
da fome que herdou do pai
quando se satisfazia em cima da mãe às 4 da manhã

ele foi o primeiro a mostrar-me que o meu corpo era
para servir aqueles que queriam
que eu me sentisse
tudo menos inteira

e meu deus
não me senti eu tão vazia
como a mãe dele às 4h25 da manhã


***


pai. quando telefonas não tens nada de especial para dizer. perguntas o que estou a fazer e onde estou e quando o silêncio se alonga como se houvesse uma vida inteira de distância entre nós eu trato de arranjar coisas para te perguntar. o que eu gostava de te dizer é isto. percebo que este mundo tenha arrasado contigo. não tem sido nada fácil para ti. não te culpo por não saberes ser carinhoso comigo. às vezes fico a pensar em todos os sítios onde te dói e que nunca contarás. eu venho do mesmo sangue dorido. do mesmo corpo tão desesperado por atenção que perco as forças. sou tua filha. sei que a conversa de circunstância é a única maneira que tens de me dizer que me amas. porque é a única maneira que tenho de te dizer.


***

os nossos joelhos
afastados à força
por primos
e tios
e homens
o nosso corpo tocado
por todas as pessoas erradas
que até numa cama segura
temos medo

5.6.17

grandes leoas!

mais tempo de antena para o futebol feminino, sff!

4.6.17

nada, nem uma erva cortada, nem uma máquina de roupa, nem qualquer arrumação em lado nenhum. nesta poucas horas que às vezes roubo ao trabalho, vegeto, ao sabor da brisa - que sopra forte, fazendo com que as searas baldias me soem à ondulação do mar.



das minhas combinações


[tivesse eu vida e fazia do tasco um Pinterest]

3.6.17

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.



[confesso, cheguei tarde demais a Armando Silva Carvalho]
você é uma mulher do inverno, não é? apanhada a meio do meu segundo cochilo, fico sem saber o que responder. talvez a mulher pergunte porque me vê de casaco de malha escuro. anda toda a gente de manga curta no salão. acha?, respondo finalmente. ai é, é. escolhe sempre as mesmas cores escuras, ou é sangue ou é cereja. gracejo, então mas as cerejas não são de agora?, enquanto fito as minhas mãos. que sou uma mulher do inverno já o sabia, o que me surpreendeu foi ver-me despida pela unhas.


Daniel Martin - in Zupi

2.6.17

então vamos lá a isso do 'selinho'.

graças à minha amiga Be (sim, Dr.ª Palmier, esta alfinetada é para si!), o meu espaço cinzento amarelado e enjoativamente depressivo foi acarinhado (é o termo) com um 'selinho' de Blog em Bom, seja lá o que isso for. sei que se cortar a corrente (coisa que normalmente aprecio sobremaneira), um panda bebé será morto pelo Pipoco Mais Salgado. assim sendo, e por respeito à Be, que é linda (és mesmo), e aos milhares de leitores que por aqui passam diariamente (só ontem tive 169 visualizações!), ainda que com imenso desagrado e arrogância de pessoa que lê imprensa internacional e não perde tempo com brincadeiritas domésticas, darei seguimento à estrelícia do selinho.


Se o meu blog fosse um blog em bom, seria O mundo da G, (mas apenas) pelos mundos incríveis (vossos) que por lá reúne e que fazem parte do meu quotidiano.


-- e um abraço especial aos comentadores sem blog, anónimos, onónimos, alguns, soberbos --




[a Be diz que não leu as instruções de participação até ao fim. é provável que o prémio acabe por ser impugnado pelas vilãs do costume e eu tenha de voltar ao palco entregar o oscar à concorrência...]




31.5.17

de volta a Lisboa, ignoro a rota passada e procuro a estrada azul. do que aumenta em quilómetros, dará conta o acelerador. no momento em que lhe escrevo, amigo leitor, já a manhã me parece um dia qualquer de um passado longínquo. poderia entretanto falar-lhe da apresentadora da tvi ou do jornalista da rtp, vistos em locais tão distintos e feições a condizer, dos preparos para a feira do livro, evento a que me recuso há mais de uma década, nem sei explicar bem o porquê, ou do telefone que me massacra com o mesmo número, gritando-me por uma resposta. mas não o aborrecerei com futilidades barrocas. o que importa salientar, estimado leitor, é a belíssima posta de atum, mal passado, em cama de legumes, e o verde da casa, que agora me pedem a sesta. 
escolheu a tua casa para morrer, agoira a velha em voz baixa, toda vestida de preto, enquanto embrulho a coruja das torres numa toalha branca. de madrugada, a ave, um exemplar adulto magnífico, de penugem suave, embateu violentamente numa das portas de vidro do quarto. estava condenada, penso -- quero acreditar. taeko ter-lhe-á dado, talvez, o golpe final, mas não vejo sangue. abro mais os olhos, o pequeno diabo aloja-se nas pálpebras, aproveitando a cadência lenta da estrada secundária, que parece nunca mais ter fim. coruja, agora eu, se embater, quem me recolherá o corpo à mortalha?

30.5.17

anda comigo ver as baleias, disseste-me tu, sabendo da minha paixão pelos cetáceos. e eu fui, descalça, sentada no pequeno barquinho a remos que roubamos no cais. nunca te cheguei a dizer que nem sabia nadar.

28.5.17

é quando se avolumam  os nós gomilosos na garganta, que a raposa me recorda de que é preciso varrer o chão da coelheira. é remédio santo, não há recolha de dejecto animal que não me alivie o pensamento. 
são difíceis as manhãs de domingo, vazias de gestos na cama. os fardos, deixados ao acaso pelo restolho, lembram-me um rebanho de ovelhas amarelas, imóveis na candura do fim de maio. nada me interessa verdadeiramente, vou matando o tempo ao acaso, até que tu chegues e me venhas dar a mão.

26.5.17

o vento enrola-se nas ervas altas que ainda não foram cortadas e galopa o vale inteiro, exibindo-se. sinto o frio acariciar-me a pele suada e recolho-me ao quarto para me cobrir. respiro o silêncio da cama vazia, a brancura espessa das paredes, o metal rente ao chão. seria perfeito, se esta noite chovesse.

25.5.17

sim, sou a procrastinadora-mor cá do burgo e qualquer assunto me serve para empurrar a manhã com a barriga. além disso, tenho um berbequim dois pisos acima, que me está a deixar perigosamente irritada. é um daqueles bichos que pensa que berbicando mais devagar não incomoda tanto...
pois então, palmilhando a blogosfera para limpar a cabeça das vibrações ruidosas, encontrei este post da maria das palavras e bateu-me a nostalgia dos antigamentes. lembrei-me da primeira vez, na faculdade, que um cromo me tentou corrigir a natureza do calçado. ah, bons tempos aqueles, quando eu exibia a minha verve bocagiana, em resposta aos alcoviteiros tacanhos da capital.
depois a palavra embrenhou-se, as sapatilhas ficaram para o fim de semana, mais tarde já só nas férias, até que um dia, sem me dar conta (ai que raiva, o cabrão do berbequim!!!), me esqueci delas num canto qualquer. passei a ser, como tantos de vós, e já Socrates o grafitou na estação de metro, uma cidadã do mundo. na terra, gozam-me o sotaque de alface, em Lisboa, às vezes, ainda me vem o assobio à boca. faço parte da migração.
enquanto espero que o tanque do submarino se encha a três quartos, partilho consigo (está aí alguém, certo?) um blog da minha colecção de favoritos: EXTRAMUROS - A CHINA ALÉM DA CHINA
ainda sem um café que me valha, o telemóvel começa a tremelicar notificações -- dez tarefas em atraso! dez?! mas as cabras reproduzem-se de noite, esfregam-se umas nas outras? e o resto? como equilibrar os atrasos com o resto? adianto as atrasadas e atraso as demais? e o que tenho andando a esconder debaixo do tapete, enganando a assistente virtual? finjo que não está lá? porra, porra, porra!

/momento de pausa para respirar fundo, que ainda nem a remela lavei dos olhos/

23.5.17

em contemplação

Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.

/Húmus, Raul Brandão/

22.5.17

houvesse alguma coragem em mim
Truque Inoxidável

faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo, desenho faca no peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

- Hoje não matarás!


/al berto/

21.5.17

perder todo o tempo de que disponho.
penso praia, é suficiente para que o mar se esboce. penso cinza e surge um rosto de lume. penso vento e o sangue lateja. penso coração e voo com os pássaros. penso em ti e a noite é uma treva onde não me encontro. penso que não estou aqui e tenho-te até à exaustão dos sentidos.

/al berto, o medo/


da varanda chegam-me os pios das aves nocturnas.

20.5.17

do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes em claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.

“porque no fim se calam
as asas das borboletas, o irmão e as
          andorinhas
e é a minha vez de falar”


18.5.17

os astros todos alinhados, como dizem os entendidos da vida, eu ali, um quarteirão inteiro de tempo pela frente e um arrepio que julguei ser febre, do sol na cabeça. os deuses, possivelmente ofendidos com a minha falta de oferendas, arrastando os pés nus pela casa vazia, cuspiram-me na cara a vulnerabilidade de que sou feita. estava tudo ali, mas nada aconteceu. 
acordo de uma noite demasiado curta, cansada, quase perdida de mim. nem o café me resgata. o corpo mole desliza devagar, para que o desespero não se agite em demasia.
é a poesia que me salva.

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

17.5.17

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;


e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.



/o grito de MAP roubado daqui/

coisas simples, como tocar-te no braço, enquanto bebemos um café na esplanada.

14.5.17

...
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado


Carla Diacov
(in enfermaria 6)

13.5.17

parece-me entorpecida, esta blogosfera, arrastando os chinelos para o esquecimento -- morte de qualquer rede social. a blogosfera foi a sala de convívio dos que nasceram no século passado, ansiosos por falar, analisar, discutir, escrever. agora as conversas são outras, visuais e de poucas palavras. há bonecada que transmite mensagens como sinais de fumo, vidas inteiras contadas em álbuns, textos escassos. já ninguém lê.
a lapiseira morreu, viva a lapiseira.

já o poeta o tinha dito,
só morremos de nós mesmos.
Boris, o provocador, espera-me na cama. Boris não sabe ainda, mas não me deitarei com ele esta noite, não depois de ouvir de Zimmer. também não deitarei com Canetti, que me espera, amarelo, mesmo ao lado de Boris, tão-pouco me deitarei com a time out ou a courrier internacional. nem a Neruda, nem a Borges, nem a Ungaretti permitirei o meu leito.
esta noite, pela mão de Zimmer, deitar-me-ei, menina outra vez, com os meus demónios.

12.5.17

o
nosso
tempo
perdido


Afiar uma faca
é simples, tenho mais medo da memória.



/roubei a poeta, não o verso, aqui/
contou-me a raposa que, no mundo de onde vinha, a religião era vivida em silêncio, no recôndito profundo da alma, onde habitava o deus de cada um. 

4.5.17

sem filtros (1 de 3)

astuta, a raposa convenceu-me a deixar a toca e a levantar voo na Blimunda. diz-me que há um mundo onde o sol brilha mais azul e os pés namoram a areia. nunca duvido de animais com pêlo cor de fogo.
até já.

30.4.17

dando seguimento à corrente artística iniciada por Palmy Rego e Mirocassa.


chama-se a esta nova corrente, o imperfeccionismo...


estamos as três junto da janela grande do escritório. taeko marfando no pote - gulosa como só ela -, yukiko de vigia, perscrutando o verde do vale, em busca de algum movimento, e eu, confesso que surpreendida pela sintonia da chuva obliqua que teima, com a minha disposição. talvez o café me limpe o amargo da boca. engolir a verdade, quando não estamos sequer dispostos a ouvi-la, é coisa para nos roubar muito mais do que o sol de domingo. felizmente, o gato mia, berra-me que lhe acuda com comida. tudo o resto pode esperar.

29.4.17

A solidão é uma doença de pele

[...]

Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.


Jesús Jiménez Domínguez
daqui
lembrei-me de Vendredi, a sonsa, e daquela vez em que a música se lhe aninhou no sexo, as ancas sedentas, e a moça dançou, - sua excelência, o sr. embaixador presente na mesma sala -, dançou como quem faz amor, de olhos fechados.



É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.



/in Ofício Cantante/

28.4.17

Gotthard Schuh, Sunday Afternoon, Lake Maggiore, Italy, 1961

27.4.17

e agora? pensas, quando, por deslize, baixas a guarda de ti própria. escondes-te num canto só teu e esperas que as lágrimas te escoem a alma. mas nem isso consegues. ficas sozinha no escuro, os olhos ardendo de sono, o peito no aperto de sempre, e repetes em silêncio, e agora?
Egon Schiele, The Kiss, 1911

25.4.17

o gato amarelo acorda e boceja rente ao meu olhar, para que lhe sinta o cheiro a peixe de lata e o desdém de quem há muito observa a humanidade canina. no livro de poemas, que jaz sobre as pernas nuas da mulher, há um gato assim.
desconheço as regras de etiqueta, no que a orquídeas diz respeito, mas acredito que os puristas da coisa não irão gostar da minha Violeta actual. pensem nela como uma flor que engordou, uma flor de verdade.

para ti, Palmier Maria, patrôínha do meu coração.




(de costas :)


24.4.17

taeko, a flor canina



23.4.17

era um homenzinho horrendo, atarraxado dentro das camisas suadas, que se lhe abriam na curva balofa do umbigo. tinha um pequeno minimercado, perto da zona dos comboios, onde a mulher, mirrada dentro da bata, passava os dias presa à caixa registadora, e alugava quartos a raparigas na parte velha da cidade. o apartamento, um quinto esquerdo, cinzento sujo do tempo e da falta de quem o esfregasse, era o seu harém. armado do molho de cópias de cada chave, depois de estudados os horários, deleitava-se a entrar em cada quarto, procurando segredos e roupa interior, que acariciava com a fome de vários anos sem tocar numa mulher. quando tinha a sorte de encontrar algumas cuecas usadas, cheirava-as o mais que podia, em delírio, e lambia-lhes o sumo ressequido, enquanto se masturbava com cuidado para um lenço de papel, que trazia sempre no bolso. 
nunca trocava a botija do gás, que levava do minimercado, antes de terceira reclamação. costumava dar grandes sermões sobre os desperdícios e gostava de lembrar às raparigas que a casa devia estar asseada. a ironia sempre foi puta fina, já que o sr. Silva preferia esfregar o caralhito de merda, como mais tarde se lhe referiu uma das raparigas, nas cuecas mais sujas que encontrava.
com uma aspereza de que não gostei, perguntou-me como conseguia eu ser tão fria, não ter gosto pelas coisas, não me interessar por nada. quis explicar-lhe que não comungo do materialismo, mas a voz ficou-me presa nos subterrâneos da alma.
Under the water we can't breathe, we can't breathe
Under the water we die
Under the water there is no one watching
Under the water we are alone

Then why do we jump in?
Why do we jump in?




«Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe.»

/em nome da terra/
Ellen Auerbach, Robert Mann Gallery

22.4.17

deixei o espaço onde homens - e escassas mulheres - mediam o tamanho do ego pelo valor do símbolo e rumei à livraria*. no terreiro, dois miúdos faziam corridas velozes nas suas bicicletas com rodinhas, rindo à gargalhada. 


/*saudades, tantas, dos meus alfarrabistas e do silêncio da procura. nas livrarias, mulheres iguais, urbanas, cultas**, irritantes, falam alto, sem pudor, dos livros dos escaparates e de alguns dos seus autores***, com uma arrogância-ignorância que me dá vontade de as mandar calar. não saberão que ali, no meio dos livros, estamos em permanente oração?/


/**aquele tipo de mulher que faz do vestuário aborrecido, sapatos ortopédicos, cabelos nunca pintados ou arranjados  - nem olhos, lábios ou unhas -, o seu manifesto à primazia intelectual***./



/***diz uma delas: Ando há tanto tempo para ler este escritor, mas depois compro sempre outros livros, não sei porquê. Já leram? Tem aqui tantos livros. --- este escritor era Saramago...  --- não são mais cultas, alguém que lho diga com jeito, são apenas mais sem graça./


a senhora da bata às riscas diz-me que a banheira, meu pouso divino, lhe faz lembrar um caixão. deus a livre de tomar banho deitada! sorrio-lhe e asseguro-lhe que aquilo é do melhor que há. vira costas, de vassoura na mão, dizendo que nem pensar.
o formato será o de um caixão, não nego a evidência, mas aquele retângulo branco sempre se me assemelhou à barriga de uma boa mãe; outras vezes, o submarino onde navego. faltando-me no tecto a saudosa Milu, opto agora por me concentrar nos veios do mármore em frente, procurando novas geografias cartografadas, mundos onde as vontades possuam existência.
ouço o aspirador e lembro-me de que tenho de ir. também para mim hoje é dia de jorna.

17.4.17

«Os meus pés já não se deslocavam. A caverna já não era uma estrada sem fim a abrir-se na minha frente. Era um berço de madeira, forrado de peles, a baloiçar. Quando deixei de dar passadas firmes, de contar os passos, quando deixei de apalpar os muros à minha volta com dedos torcidos como raízes, de procurar alimento, o passeio labiríntico alargou-se, o silêncio tornou-se aéreo, as peles desintegraram-se, e entrei numa cidade branca.» 


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

16.4.17

«Caminhava presa com um alfinete a uma teia de aranha de fantasias fiadas durante a noite, obstinadamente seguidas durante o dia. Essa teia de aranha foi rompida por uma buzina do nevoeiro e pelo carrilhão das horas. Dei comigo a atravessar pontes levadiças, fossos, pranchas, se bem que ainda presa ao cabo pesado de um navio pronto a largar. Estava suspensa entre a terra e o mar, entre a terra e os planetas. A atravessá-los à pressa, angustiada por causa da sombra que ficava atrás, a marca dos passos, o eco. Todas as cordas facilmente desatadas, mas uma a prender-me àquilo que amava.

Mergulhei num labirinto de silêncio. Os meus pés cobertos de peles, a minha mão coberta de ouro, as minhas pernas embrulhadas em algodão plissado, atadas com chicotes de seda. Pele de rena no meu peito. Sem voz. Sabia que, tal como a rena, se nesse momento me enterrassem a faca, nem sequer suspirava.

Fragmentos dos sonhos explodiam aquando da minha passagem, através dos fossos, caíam como pedaços de planetas mortos, sem romperem as peles e o algodão desse silêncio. Os muros de carne e de pele respiravam e gotas de sangue branco tombavam com o som das pulsações.

Não queria avançar no silêncio, sentindo que podia perder para sempre a voz.»


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

14.4.17

se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria

13.4.17

é nela que penso, quando me sento na esplanada frente aos baixios com cheiro a mar e peço uma meia de leite e uma sandes de queijo e manteiga, ouvindo homens que falam de lebres e no tipo de cartuxos, namorados que partilham telemóveis e copos de água, mulheres gordas em licras justas fumando marlboros, gente que fala alto demais. na bebida.
quando me viu, envergonhou-se. ofereceu-me um sorriso de pirata cansado. na mão direita, o copo largo, dourado; na outra, a garrafa. pouco passava das dez, trazia nos olhos a noite longa de uma semana cheia de gente na rua. tivesse tido a coragem de trocar a oferta do café pela bebida e eu tê-la-ia aceitado.
conheço bem esta raiva que todo o dia se me aninhou no corpo bravio -- a comiseração muda de quem fica sozinha. juntas na cama, há-de reduzir-me ao vazio estreito de uma almofada, antes que a madrugada a recolha de mim.

9.4.17

quando fosse grande havia de ir aos temporais.


Aëla Labbé

Miguel Ángel Buonarroti duerme plácidamente. No, no está descansando; está creando. Por eso, al despertar, toma sus herramientas, se para frente al bloque de mármol y comienza a eliminar los pedazos de realidad que le sobran a su sueño.

Rafael García Z., El mago natural y otros abracadabras


eu sou o contrário de Buonarroti. mal me levanto e já todas as réstias de sonho - se as houve - se foram.

8.4.17

vi-o descer, sete palmos abaixo da terra, no dia em que não chorei. hoje, enquanto comia as folhas de alface, tão tristes, senti-lhe o riso de escárnio junto à orelha. agora paga-se para comer erva?, perguntou-me meu pai morto.

que queres que te diga, se não sei olhar a vida de outra maneira? falta-me a doçura de quem sonha com o amanhã. um navio encalhado no rio nunca trará os peixes do mar.

5.4.17


Aëla Labbé

2.4.17

dona Miquelina, tome nota, leitor, assim se chama uma das minhas vizinhas, velhinha amorosa a quem só falta a espingarda ao ombro. pois dona Miquelina abomina essa moda que agora prolifera de cavalgar montes e serras em cima das bicicletas. que lhe estragam o mantimento todo!, vocifera, cuspindo chispas. a rapaziada da câmara bem tentou, até a guarda lhe bateu à porta, mas dona Miquelina, sadia de tino e rija de língua, pô-los todos a correr - outra raça excomungada que também apoquenta as terras de dona Miquelina. fechadas as fronteiras, nada mais resta aos moços dos calções de licra, que ainda por ali tentam a sua sorte, senão voltar para trás. alguns excomungam a velha, outros ficam parados alguns minutos a tentar perceber o muro erguido. eu, cá de cima, nem sei bem o que pensar. não lhe comiam o carreiro de terra batida, bem de certo que não, mas é vê-los pisar as leiras plantadas, como quem pisa capim, e logo me dá vontade, a mim também, de ir procurar a pressão d'ar.
para a luisa, que gentilmente me recordou da bicharada que arrepia.

/mil vezes, meia dúzia de Milus, grandes e pretas, a treparem-me pelas pernas/
chegou o tempo das aflições. eu olho, escancaro mais a vista e olho de novo, cerro as pálpebras e olho outra vez, perscruto,  impaciente, a erva alta e não as vejo. desaparecidas no oceano de verde, resta-me aguardar pelo movimento excitado das antenas caudais, resultado de alguma toupeira em maus lençóis...
o meu sossego nasce daquela crueldade.



lembra-se o* caríssimo leitor da dúvida que se me assomou no tempo da plantação?

diabos me levem - com carinho e ternura, que ando tão definhada - se eu não tenho sangue de lavradores a correr-me neste corpo estupidamente citadino e ocioso!
alhos!! tal como previ, antevi, suspeitei, desconfiei e me cheirou:  alhos! essas stinking roses às portas do meu quintal. dizem que é plantação que dá dinheiro... quem sabe se não treino a colónia de toupeiras para a apanha.


/tome-se o* por indefinido plural. sonhe-se a multidão, filas duplas de ávidos leitores, fieis como pequenos póneis/

30.3.17

«Satisfaz-me a derrota, porque é um fim e eu estou muito cansado.»

Jorge Luis Borges, in Deutsches Requiem, O Aleph

26.3.17

e Campo Maior? já vos mostrei a minha fotografia de Campo Maior?

a bem dizer, é mais a partida de Campo Maior. que gente tão bonita lá conheci

surripiam uma hora ao domingo porque na cabeça destes bandidos, canalhas ociosos, ninguém trabalha no dia santo. hoje, em vez de contemplar o verde do vale, sentada no janelão com taeko, apresso-me a vestir a farpela e botar-me a caminho das pedras. por causa  daqueles energúmenos, bandulhos brochados a arrotos krug brut e chauffeur de plantão à porta do terreiro, já estou atrasada.
alguém* devia por mão nisto.


[alguém que não o Arnaldo Matos, que fique claro]
a odisseia re(re)começa.

25.3.17

um gato dormindo no xadrez
de caramelo variado

a minha mais antiga paixão, Sr. Gato - o Velho

não vejo Milu há várias semanas e decido acreditar que navega, intrépida, no ombro da Capitã, tendo enxotado com sedas armadilhadas o louro já velho. sempre que encho o tanque do submarino, penso em Milu, a pequena aranha, e de como tão bem me aninhava os pensamentos na sua teia silenciosa. se não regressar até à Páscoa, preparo uma incursão ao cacilheiro pirata, o tal das purpurinas.