10.12.17

o vento que faz bailar os canaviais amarelos é o mesmo que baloiça, traquinas, nas orelhas de taeko e yukiko. gosto de ver as nuvens passar, maratona de baleias cinzentas, rumo ao norte. atraso o mais que posso a chegada do carnaval natalício, enquanto me enamoro pelo branco das garças ali perto, que acompanham o veio da terra acabada de rasgar.

ia só buscar umas latinhas para os gatos, quando dei por mim com ela nas mãos.
a culpa? então, a culpa é dos sapatos da Palmier.


dispensaria os brilhantes de boa vontade

8.12.17

tão cinzenta quanto o chão e o céu, quase me esquecia de grafar um pequeno apontamento, que para muitos seria motivo de suicídio social. a passos largos do espaço a limpar, balde e esfregona às costas, deparo-me com uma cara conhecida que me obriga a parar. desempregada, porque isto está tão mau e não andámos a estudar para agora aceitarmos qualquer coisa, pergunta-me se ainda estou na torre de marfim. simplifico o que não me apetece sequer começar, não, agora lavo janelas.
pudesse eu fotografar o espanto enojado daquela cara enfezada, ou descrever o trejeito da boca escancarando-se, o par de olhos de igual maneira, enquanto o nariz se encolhia sozinho. despedi-me da cara ainda em choque sem mais palavras, virando-lhe as costas. começo a perceber as vantagens imediatas de lavar janelas.
não sei se foi esta manhã, enquanto lavava sozinha os vidros daquele abrigo em pleno coração da cidade, lá fora o som da chuva entrecortado pelo rolar dos carros, vozes apressadas nos passeios; se foi já depois do almoço, aqueles grupos que abomino, gentes comendo juntas pela época, alegria contabilizada em beijos e presentes-surpresa. repito: não sei. não sei se foi no ninho forrado a sofás de veludo, camas de um branco libidinoso, bancadas de pedra-mármore onde as ondas ganhariam impulso, espelhos despindo paredes, corpos, uma vida inteira ali; se foi no barulho metálico do almoço, onde a mulher-objecto criticava em guinchos loiros o homem-basófia, ela enjoativamente mimada, ele enjoativamente ostentador, não sei, o que sei - porque o sinto no centro de mim - é que o inverno chegou-me hoje por inteiro, sob o peso frio da chuva.
pudesse eu hibernar.

4.12.17

Algures no céu, ou no raio que o parta, o diabo que o leve, há um pequeno deus, estupidamente cínico, cuja masturbação celestial deve ser, nada mais, nada menos do que trocar me as voltas à vida. Uma semana tão cheia de nadas e obrigações e o corpo clamando por tudo, de livre vontade. 
acordei em Niflheim com a temperatura abaixo de zero, catástrofe natural da madrasta natureza. o frio faz-te bater o coração, rapariga, anda, levanta-te! -- credo, que gente é esta? estes nativos não conhecem o sistema de aquecimento central? -- do pijama polar faço a indumentária de andar por casa, atitude reprovada por todos à mesa do pequeno-almoço [enquanto espero as famosas panquecas da simpática nativa adolescente, dou por mim a comer um prato de sopa... /?!?/...]. daqui a pouco, informa-me o nativo ancião, vamos levar a azeitona. agasalhe-se bem. o quê?! exclamo citadinamente. está-se bem na cozinha, com o fogão a lenha a todo o vapor e o cheiro dos marmelos assados. vamos só ao lagar, é perto, tranquiliza-me o mesmo ancião, de quem gosto particularmente. mas vamos a pé?!!, temo pela minha vida. ri-se e acena-me que não. ólhamesta angélica, parece que nem nasceu cá!, goza o nativo com olhos iguais aos meus. congela-se-me o discernimento. nasci?! duvido.

nevou?...
não, rapariga! é geada!
...meu deus!

1.12.17

ao abrigo do artigo primeiro da próxima convenção dos desacorçoados, que se há-de realizar logo que a data seja marcada e combinado o espaço, vistoso, onde caibam a pompa e a circunstância, o mestre de cerimónias, o tocador espanhol e o cobrador do fraque, declaro-me humildemente seca de palavras para semear nesta terra.

26.11.17

"julgo-me oculta no lugar mais obscuro e escondido desta cozinha, e gozo o esplendor da luz do fogão que é o espelho humano de uma estrela: -- que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?"


/Um Beijo dado mais tarde, de Maria Gabriela Llansol/
Há noites em que ainda acordo com o som da madeira do armário a crepitar, a roupa em labaredas, os livros da biblioteca. Estou dentro de um mar de chamas, enfeitiçada, o fogo circundando-me, e não consigo gritar. 

25.11.17

Quando finalmente deixou o corpo afundar-se na água quente, os braços já não lhe doíam do peso da terra cavada à força.

18.11.17

como nos homens,
encontra-se às vezes nos gatos velhos
uma infância luminosa, 
guardada no brilho
do olhar
e no recolher de cada garra.
a vida não é só isso, Alicinha. ouve o que te digo. as baleias cantam no fundo dos mares, há peixes que voam e aves que mergulham, há um mar vivo que está morto e há mortos que vivem em nós, há a aurora boreal e o arco-íris, os fiordes, os corais e as grutas, os beija-flores e as tartarugas. há as papoilas e as rosas mosqueta. e há o sexo, Alicinha, corpos que se entregam, enquanto recebem, almas que se desejam, o universo em suspensão. não vês tu tudo isso? estarás cega? estarás viva?
Petra decidiu outra vez que perguntar a cada um de nós qual o presente que deseja para o natal é a melhor forma de nos fazer felizes. todos, menos Petra, odiamos o natal e ouvir falar dele ainda em novembro deixa-nos irritados e carrancudos. mas Petra é a nossa mãe adoptiva e nós somos o seu filho morto. ninguém nega uma palavra a Petra. fechamos os olhos por um momento e iniciamos o rol: algodão-doce! o perfume da avó! o rádio do avô! maçãs caramelizadas! chuva! sim, chuva! um escape para a mota! um corta unhas! não, antes uma motoserra! papel prensado com urzes e rosmaninho! ou então umas luvas de lã de alpaca. ou um poema abstracto. cerveja! mel! pão! hibisco! uma máquina voadora! tomate holandês! um papagaio! uma cabeça nova! uma vida nova! esquecer! recomeçar.

16.11.17

Lucky Blue, moi-même, estacionou Jolly Jumper no parque adjacente, afagou o pelo eriçado de Milu, sempre atenta, e prepara-se agora para cavalgar as ondas marinhas deste novembro aquecido.

não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Milu, a intrépida, na orelha de Jolly Jumper.

a aranha do meu destino

15.11.17

eu, Lucky Blue, galgando no meu Jolly, a caminho do nono andar. por esta altura, já Milu, a aranha mais sábia do oeste e do mundo inteiro, deglutia o terceiro morcão com asas.


São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

sou uma espécie de Lucky Luke das limpezas de janelas, no meu Jolly Jumper de quatro rodas, levando Milu em vez de Rantanplan. uma cavaleira solitária, erguendo-se com a madrugada.


o passado é um país distante



12.11.17

talvez as minhas mãos sejam de fada, alguma fada desaparecida no tempo, escondida numa gruta de musgo, já muito velha, e que agora me empresta as suas mãos, envoltas em mil movimentos de magia. uma fada cuidadora, que pacifica, acalma e prepara as almas para o destino.
desta vez, pratico também os procedimentos da ciência, desobstruo cateteres, aplico dosagens no soro, meço temperaturas e tudo o mais que for surgindo. mãos de fada, confirma-me o cuidador dos corpos, e eu, de corpo e alma, agradeço à natureza. 

10.11.17

coragem? coragem é mais do que isso, respondo eu. coragem é andar na montanha-russa, para quem sofre de vertigens, terminar uma relação com alguém que tem uma arma em cima da mesa, ditar o fim da linha dos que amamos. o resto não é coragem, é a vida, empurrada como se pode.


preciso urgentemente de não morrer.

6.11.17


#és um hipócrita, Paddy €€@@@€€
se pudesse - como se num conceito pós-moderno de férias -, ficaria durante uns tempos em Niflheim, observadora atenta e discreta, apreciando a cumplicidade e a ternura daqueles dois. faria com eles os caminhos dourados do outono, ora subindo à serra, ora rumando à vila, bebendo chá, ouvindo a poesia das suas palavras simples e comendo dos seus cachos de uvas.
preciso de aquecer o coração.

5.11.17

regresso a casa, mãos dadas com Gógol, e encontro Velho, o gato, pela primeira vez desde que nos conhecemos, recusando-se a comer, prostrado, urinando-se na cama. neste círculo natural da vida, sei que mais tarde hei-de acreditar de que lhe dei uma boa segunda vida e a melhor velhice que pude, mas por agora, que assisto à decadência do corpo magro do meu querido gato, fico à mercê desta sombra pesada que me nasce por dentro, envolta na mortalha da morte.  

2.11.17

mais do que a mão, que entretanto inchou, o que me me dói é o peito de já não poder mais.

1.11.17


-- e nós, porque é que temos de continuar a trabalhar tantas horas todos os dias?...

-- porque queremos ser livres.
será, espero, a última carta dirigida à Dr.ª Vendredi -- os Senhores Doutores mantêm o formalismo até com os defuntos; não me admiro: ninguém muda, no que à conduta diz respeito. pedem à pobre que se manifeste, desconhecendo do poiso de onde se empoleiram que a pobre morreu sem dar cavaco a ninguém. por respeito à amizade que nos uniu durante tantos anos, repletos de sonhos, planos, enganos e desenganos à paulada, decidi hoje - dia dos mortos - entregar a alma de Vendredi à paz que a pobre merece e responder aos Senhores Doutores:

Caríssimos,
Ilustres Senhores Doutores,
Incapaz de alcançar a vossa magnificência, de entender a vossa sabedoria e, sobretudo, de servir às vossas necessidades e imitar a vossa postura, a Dr.ª Vendredi suicidou-se.

29.10.17

até lá, vou discutindo a agenda da semana difícil que aí vem com o sr. Caraças.


a oliveira da Eurídice

Eurídice tinha uma oliveira com quem podia conversar sobre o que lhe apetecesse - até da vontade exótica de criar uma osga em cativeiro. invejei a ideia (não a da osga, que já tenho práqui osgas às dúzias e não preciso de mais nenhuma, nem que venha treinada) e a oliveira de Eurídice, desde o primeiro momento em que, procurando uma imagem na teia digital, as encontrei. falar sozinha, como eu faço, é coisa dos maluquinhos comuns, já a raposa mo tinha dito, mas as plantas de vaso que me adornam a secretária são flora sensível de estufa, que não conhecendo os rigores do frio de inverno, como conseguiriam acompanhar-me nos mistérios da vida? quanto muito, tagarelar deste ou daquela, que vão surgindo no ecrã. dos livros, falo sempre com quem lá mora e o assunto fica arrumado.
com desejos de imitar Eurídice, em busca da minha oliveira, dei por mim à procura de uma árvore da vida, dessas que sabem das fissuras da alma, dos líquenes foliosos e dos bichos da madeira. já tomada a oliveira por Eurídice, procurei na minha infância a nogueira gigante do avô alberto. magistral, imponente - demasiado grande, concluí, não dá para trazer para o quintal. a tília bonita da minha mãe, o cedro do meu irmão, as minhas framboeseiras, a cerejeira onde caí, mas nada me pareceu ter filosofia linguística suficiente.
Eurídice há muito que se ausentou para local incerto, tendo levado a oliveira consigo, agora nem a oliveira da Eurídice, nem uma árvore só minha. continuo em demanda.

28.10.17

Si, quiero imágenes bellas pero no busco una postal y dentro de todo esto me interesa el paisaje. Además tengo mucha influencia del idealismo alemán buscando la relación que hay entre hombre y entorno. Por esto me gustan los paisajes desolados y silenciosos sin ningún estímulo externo que los contamine. La búsqueda de silencio, ese concepto que describía Kant: la contemplación. Elemento base para llegar al instante pleno, al lugar donde se expande la conciencia. (***)

Carla Fernández Andrade


22.10.17

yukiko é sempre a primeira a levantar-se para regressar, só depois de a ver percorrer alguns metros é que taeko se ergue da cama improvisada nas ervas. conheço-lhes o caminho, tenho cerca de três minutos para acabar este texto, se vierem sempre a direito. três minutos para dizer alguma coisa que valha, antes que yukiko e taeko entrem pela porta de serviço. enquanto procuro as palavras certas, - ou certeiras, dir-me-ia o Damas, se tivesse dormido comigo esta noite, mas faz tempo que não vem -, para limpar a névoa densa que se instalou no meu sorriso. a manhã está fresca, mas cá dentro, com o sol a lamber-me as pernas e o cheiro do café por beber, só a alma se mantém agasalhada. caminham lentamente, as minhas andorinhas gordas, vejo-as daqui e continuo a teclar. marlon brando, atrevido, aproveitou a porta aberta e passeia seguro pela casa inteira. sacana do gato: lá pra fora, marlon brando! podem vir cansadas, mas taeko não resistirá à infrutífera perseguição. marlon brando, na sua passada gingona, vai-se embora apenas porque quer. resta-me pouco tempo, melhor será que comece já a escrever alguma coisa do que quero dizer. não é fácil apalavrar a saudade do corpo que renasce na mão do outro. a distância corrói-nos as certezas, palavras do Damas, ámen. yukiko chegou, feliz na sua canseira, e pede-me todos os mimos a que tem direito. eram tres minutos -- sem acento, que teclo apenas com o indicador direito.

19.10.17

não chores em frente ao teu pai, minha filha.

lembrei-me delas hoje, quando vi a rapariga lavada em lágrimas, sozinha no corredor, tentando esconder-se entre o branco das paredes e o cinzento do chão. a dor de uma morte anunciada.

15.10.17

reconheço o voo de um morcego, no sopro quente da noite, enquanto taeko e yukiko descem a ladeira. chia, agitando atabalhoadamente as pequenas membranas. talvez depois da caça - e a noite promete - se junte a mim outra vez. que belo par de dança faríamos os dois.
é o bafo do diabo!, grita Cirilo, antes de tapar a boca e o nariz com o lenço vermelho. avançamos naquele deserto de terra fina que o vento levanta em remoinhos bravios. o ponteiro marca 34º. devem estar bonitas as avenidas da cidade grande, murmura Petra perto de mim, ajeitando o pano do rosto, com as folhas a dançar no asfalto. continuamos a caminhar, carregando o cansaço mudo às costas. sem nos darmos conta, arrastamos os pés pelo chão castanho, pequenas dunas intermináveis, numa busca sem propósito. alguns de nós, entre as rajadas de vento, começam a soletrar nomes estranhos de doenças, enquanto os restantes encolhem os ombros, gemendo que é só cansaço. ninguém se atreve a desejar a chuva em voz alta, temendo o peso da lama nas botas. é o bafo do diabo, grita outra vez Cirilo, anunciando a trovoada que está a caminho, temos que nos despachar!
é feroz o cansaço que me cavalga, depois de uma noite inteira deambulando pelos corredores deste labirinto sem fim.

13.10.17






...
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa

...

cereja, Beta, hoje é cereja! e um flute de champagne, se faz favor!
e a Beta ri-se, [e eu gosto de fazer rir a Beta, que é uma moça simpática,] e manda-me sentar na cadeira almofadada.
dizem-me que tenha calma, que cheguei cedo demais, que tenho de ensinar as pessoas -- logo eu, que chego sempre no final da festa. aceno ligeiramente a cabeça, para desviar o rumo da conversa, enquanto tacteio a garganta, tentando adivinhar quão perto estará a corda do nó.
eu, que de bom grado voava numa vassoura de casa para todo o lado, que adoro gatos em qualquer cor de pêlo e vejo nos cemitérios excelentes passeios culturais, nunca pensei poder vir a temer isto das sexta-feiras 13. vai mau o dia, hoje.

7.10.17

aos sábados à noite, o bando, grupo indefinido de esconjurados, junta-se para disfarçar a solidão. na urgência de uma desordem que os distraia, cada um procura o seu pecado pessoal. hoje, eu escolho hibernar.








...
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

...
plano b:

receando a putrefacção acelerada,
com trinta e três de máxima outonal,
basta alguma varejeira estropiada aparecer;
- não quero que me fotografem apenas o osso,
isso seria a ironia de uma vida inteira -,
talvez adie isto do suicídio para outra altura,
quem sabe no dia de natal,
e hoje vá trabalhar.
plano:

vou encher a banheira,
decorá-la com espumas termais,
a garrafa de krug gelada,
a carne depilada,
e afogar-me com estilo.
uma morte digna de ser televisionada,
partilhada nas redes sociais.

6.10.17

não vejo outra solução, tens de a matar, diz-me Tristan, quando terminou de ler. nunca findará.

5.10.17

trago Boris Vian e António Franco Alexandre na mala. as formigas e aracne. sinto-me afortunada com tão bela companhia.
Alimento a esperança de que um dia chegarei a casa com as mãos cheias de ventos. Para já, continua a escapar-me entre os dedos. 

                                                                                                                                      Tétisq


há duas noites que me deito com as almas de vento dançando nos canaviais. entrelaçam-se em correntes frenéticas que me assustam, bramindo como o vale lhes pertence. os cães, sentindo-lhes a presença, atiram-se de dentes afiados num ladrar continuo. o medo que se apodera das minhas pernas e do coração que dispara no peito não me impede de as procurar na escuridão da varanda. ouço-as, mas continuo sem lhes conseguir responder. o vento é a alma dos mortos.

3.10.17

se o outono fosse meu*, hoje passava a tarde na floresta - casaco de lã, botas calçadas, Taeko e Yukiko comigo -, saboreando o cheiro da resina e o verde dos fetos tacteados, ao som das ferreirinhas, e só voltava pela hora do lanche, scones mornos com manteiga e doce, chá de tília e marmelos assados, pelas mãos ternas da minha mãe.

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros







*movimento outonal iniciado pela Mia, seguido pelo Impontual e pelo Talqualmenteoutro

1.10.17

com a ideia de me convencer de que vale a pena ir votar  daqui a pouco - ou desenhar pilinhas falantes no boletim - num dos vários aldrabões cá do burgo, decidi manhã cedo ir lavar as latrinas do gatil. não podendo remover o estrume camarário, - espaço, garantidamente, com mais corrupção e compadrio por metro quadrado -, sempre limpo alguma merda.

29.9.17


para terminar, de uma vez por todas, com a ditadura mercantilista dos bloggers do costume, repetideiros enjoativos, plagiadores de segunda (quando não de terceira), supermamãs em fotocópia e donas de casa sem grande jeito,

nestas eleições, eu voto Palmier Encoberto


26.9.17

quando calha não haver batatas para apanhar, a enxada fica tombada a um canto e eu dedico me a lavar vidros nas lojas de lisboa. é raro alguém dar por mim, enquanto aplico a minha arte de ensaboar e limpar. Cirilo tem uma teoria para a minha suposta invisibilidade, as pessoas têm vergonha de olhar para quem limpa, porque se lembram que são umas porcas! não sei se será mesmo assim. Jasmim também contraria e insiste que a culpa está no tique snob dos citadinos, que constroem a sua hierarquia de sucesso baseada no uso profissional dado às mãos. portanto, conclui Jasmim, não é vergonha, Cirilo, é desprezo! seja o que for, não me interessa, respondo aos dois.
mas esta manhã, quando já tinha terminado a limpeza do pequeno espaço, bem no centro da cidade, e caminhava de mãos limpas para a rua, eis que uma senhora dos seus setenta prateados se me atravessa no caminho, em difíceis manobras com a porta de vidro. gentilmente, abro-lhe a porta, e, num sorriso genuíno, oferece-lhe um bom dia. na sua toilete cuidada, onde nem as pérolas faltavam, olhou-me de alto a baixo e seguiu caminho. ui... pois que deve ter baixado em mim a gaja do cais do sodré em meias de rede e naifa no bolso, e sem me poder conter, atiro, e obrigada, também não sabe dizer, minha senhora?! aguardo. a madame, meio de esguelha, roda o torso esguio a quarenta e cinco graus e zinguerreia, sua mal-educada!
minha gente... a baiana rodou a saia toda nas minhas calças apertadas, um raio cegou-me os côncavos dos olhos logo ali -- e a velha máxima de não dar importância a quem não a tem foi aliviar a bexiga ao um silvado longe. em tom duas casas mais alto do que o razoável, dicção esmerada, respondo-lhe, mal-educada é a senhora, que sendo mais velha, devia dar o exemplo e nem agradece, nem cumprimenta. e já mais baixo, termino, pérolas a porcos, é o que é. e com este belíssimo acto de vida, abandono o local.
acabei por dar razão a ambos os rapazes...

25.9.17

Milu, quieta no canto do costume, pede-me um poema do livro preto, aquele que Milu jura ter sido escrito pela sua prima Alexandrina, em compadrio com o grande poeta: Aracne.


Olhar dentro do espelho deu-me ideias
do que seria um animal perfeito;
já penso transformar-me, ter maneiras,
asas talvez, ou tromba vigorosa;
dizer adeus aos fios, e adquirir
o encanto popular de um percevejo
ou o hieratismo de uma louva-a-deus.

Ser outro é privilégio de quem tece
na face do destino um transparente
véu, e ao vão casulo
prefere a superfície de uma folha;
com muito estudo, poderei crescer
até figura de homem, se me der
para ser a ti mesmo semelhante.

Perder amigos e vizinhos, ver
à minha volta um assustado espanto,
posso aceitá-lo, se for esse o preço
de uma forma mais fina e elegante;
só me custa deixar, no chão da teia,
a arte de inventar que me conheço.

Melhor seria que mudasses tu; mas,
metaformoso como és, não vais
cair na esparrela de trocar
o teu corpo que sabe a mar e luz
pela velha virtude de um insecto.

Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.


/António Franco Alexandre, Aracne/
ah, grande tragédia hoje a minha, de passo corrido, a cestinha a dar a dar, que o poeta não se há de demorar na bancada dos enchidos, cem gramas de fiambre são segundos a fatiar, e eu perdida nos iogurtes, tanto queijo, que perdição, e elas todas, fêmeas de almas insensíveis, encharcadas de volúpia, a dificultar-me o caminho. quando cheguei, numa das mãos a caixa das uvas sem grainha para lhe oferecer, creio que ainda o vi, perdendo-se na multidão do frango assado com molho de limão e piripiri caseiro. foi então que a cigana se me chegou, menina, diz-me quanto custa este pão, que eu não sei ler?, e eu, tomada pela cara envergonhada da mulher, deixo escapar de vista o meu doce poeta e avanço para a prateleira.
Para trás ficaram portos,
ilhas,
lembranças,
cidades,
estações do ano.
à atenção do leitor inventado:

nestes dias, semanas já, de canseira e pó da terra,
nada de mais admirável há a registar,
para além do costume na apanha da batata,
miúdas p'ra um lado, grossas p'ró outro,
pegar com gentileza para não maçar,
lembro o voo nocturno de um morcego,
[tão pequenino, o morceguinho]
que há duas noites apareceu no meu quarto.

mamíferos os dois, ele de preto, eu tão nua
rodopiámos pela casa inteira,
até que, à porta aberta, no final da dança,
ele partiu,
eu fiquei.


bem-haja, amigo leitor, mesmo que inventado,
por estar desse lado,
e ainda se encantar.

17.9.17

POSTSCRIPTUM

vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo
Vivir consiste en ir perdiendo cosas:
el timón del aire en los cabellos, los amores,
los recuerdos, los remos de los días felices.

Al decirles adiós con la mano dejamos
en el aire la cáscara de la despedida,
vemos pasar sin nadie las bicicletas
camino del óxido, ardiendo sin sonido.

Otros inviernos han cegado las linternas,
apagado los prismáticos y nos hallamos más lejos.

La cerveza de jengibre la bebió el sol del ocaso
y el pastel de carne, como a la infancia,
se lo han comido las moscas.


/Última mirada a la isla de Kirrin/

12.9.17

o narrador abana a cabeça, desiludido. nada daquilo fazia sentido. ninguém se dignava a contar a verdade, enrolando a história em infames contradições.
talvez J. Eustáquio de Andrada ainda consiga pôr mão em tamanha embrulhada....




[não aceito notas negativas, azedumes e maus olhados, muito menos criticas construtivas, à troca de bola, passe curto, bem sei, que aqui fica. quem não gostar que venha apanhar batatas comigo!]

11.9.17

All animals are equal but some animals are more equal than others.

10.9.17

Toda a gente gosta dela, da Tamina. Porque sabe ouvir o que lhe contam.
Mas ouvirá realmente? Ou limita-se a olhar, tão atenta, tão silenciosa? Não sei, e não tem muita importância. O que interessa é que ela não interrompe. Sabem o que acontece quando duas pessoas conversam: uma fala e a outra corta-lhe a palavra -- É exactamente como eu, eu...

/O Livro do Riso e do Esquecimento/
um domingo livre de vez em quando, foi a única exigência a si própria. hoje calhou ser esse domingo.
dormiu.




obrigada, nativos.
admitiu que o isolamento em que procurava a paz podia ser tão perigoso como um abismo.

às vezes sou nada mais do que lodo
um nauseabundo lodo parado

9.9.17

aviso amarelo de vento no ecrã,
mais um dia para ter cuidado com os atiradores de facas

7.9.17


Gerda Taro e Robert Capa


To photo, to record meat lumps and war,
They advance as does his chance -- very yellow white flash.
A violent wrench grips mass, rips light, tears limbs like rags,
Burst so high finally Capa lands,
Mine is a watery pit. Painless with immense distance
From medic from colleague, friend, enemy,
foe, him five yards from his leg, From you Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
3:10 pm, Capa pends death, quivers, last rattles, last chokes
All colours and cares glaze to grey, shrivelled and stricken to dots,
Left hand grasps what the body grasps not -- le photographe est mort.
3.1415, alive no longer my amour, faded for home May of '54
Doors open like arms my love, Painless with a great closeness
To Capa, to Capa Capa dark after nothing,
re-united with his leg and with you, Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
Hey Taro!
ainda vinha a guerrear comigo, a tentar-me convencer-me de que o gatinho junto ao portão aberto, tinha mãe e donos, que com certeza haveriam de tomar conta dele, e voltar a trás e roubar o gato não seria um salvamento, seria sim estranho -- mas o pobre tão rente à estrada... --, quando o vejo, altivo, em cima do muro, à minha espera. corto gatês, o meu querido gato cinzento, pirata intrépido das searas, doce animal. é raro o dia em que chego a casa e corto gatês não está para me cumprimentar, mesmo chegando eu tão tarde, mesmo chegando já tão poucas vezes. 
invejo o homem a quem pago para vir todos os dias.
parabéns, Susana!






geometrical cake designs by dinara kasko

4.9.17

é simples, basta que te dispas, me abraces e te deites comigo.

2.9.17

daqui a pouco farei a mala para partir novamente. vale-me a roupa comprada à pressa na superfície comercial da vila, como quem compra um pacote de leite num domingo de manhã. na sala das máquinas, pode dizer-se que o monte atingiu proporções épicas. ainda preciso de ir ao supermercado no instante comprar comida para os animais, pondero um banho de chuveiro. em cima da mesa da cozinha, jazem já os cinquenta euros para pagar os serviços de pet sitting. se morrer na estrada, este blog ficará ao abandono, se voltar, será como se nada tivesse sido e a única preocupação há de ser lavar toda aquela roupa suja.

1.9.17

Sonhando, as árvores crescem ao contrário.

31.8.17




:)
Ah, o Algarve em agosto...

27.8.17

Sanda Vuckovic

as aves mais velhas eram mantidas num curral a duzentos metros da casa, debaixo da sobra das árvores. bastante mais dóceis do que as mais jovens, era apelidadas carinhosamente por avós. Tristan era responsável por mantê-las alimentadas, mudar-lhes as camas de palha e administrar-lhes a medicação semanal. Cirilo costumava brincar, dizendo que Tristan tratava das avós nos intervalos da sua correspondência com as netas. só quando bebia mais aguardente do que a conta, é que Tristan falava sobre o assunto. todas eram especiais, cada uma me dá algo diferente e eu dou a todas elas um pouco de mim, repetia, sorrindo. somos todos felizes e ninguém se magoa, rematava. apenas Bartolomeu franzia o sobreolho de desagrado, um dia, uma delas descobre e aparece aqui na quinta a pedir explicações, Tristan. quero ver o que fazes nessa altura. a tua vida vai transformar-se num inferno. as mulheres são ciumentas, está-lhes na condição. Tristan encolhia os ombros com indiferença, que venha, logo se verá. era um jovem intenso. nunca lhe conhecemos uma namorada, mas as cartas, envelopes perfumados de diferentes tamanhos, alguns arriscando o vermelho paixão, outros o rosa suave, a maioria o branco comum, chegavam todas as semanas à caixa de metal, colocada na extremidade do terreno, junto à estrada nacional. Petra era a que mais se emocionava com a forma diferente de amar de Tristan, e às vezes, quando o via batendo as teclas da máquina num bailado de sorrisos, suspenso no tempo sem se aperceber das horas, saía discretamente e ia ela mesma encher as manjedouras das avós. Tristan, quando dava conta do seu atraso, enfurecia-se e ripava violentamente a folha da máquina, juntando-a às restantes, presas entre as folhas rabiscadas do seu velho moleskine, que fazia de capa, e corria para o curral. 

26.8.17

quando ela me contou que ele tinha procurado ajuda e falava de mim nas consultas, senti a lâmina a trespassar-me as entranhas quentes, como se do íntimo partilhado se pudesse declarar culpa a terceiros e administrar receita por via oral -- a roupa suja lava-se em casa, dizia a vovó Carmela, cheia de razão. já satisfeita do meu rosto apreensivo, visivelmente incomodada pela notícia, que me assegura a meia-voz, é confidencial, conclui o ataque num volte-face perverso, sossegando-me com palavras mansas de calhandreira, deixa lá, tudo passa...

25.8.17

no desejo da chuva porvir, ninguém do bando se espanta com a minha caneca de chá fumegante e a mão cheia de biscoitos de limão. talvez já nem se lembrem de que comi o primeiro gelado de verão ontem mesmo, depois de mais um dia no deserto caçando alacraus. a verdade é que estamos todos cansados e ansiosos pelas nuvens carregadas, que hão de vir em breve e chover toda a nossa tristeza escondida, varrendo a poeira dos dias em que nenhum de nós dormiu.

5.8.17

sob o signo da figueira, taeko, a bondosa, observa a manada. dezenas de antílopes voadores atrevem-se, por estes dias, a pousar nas margens do rio.


4.8.17

sexta-feira à noite
felizmente estou exausta, dorida, desorientada,
espero tombar na cama e dormir
sem sequer
me entreter
a ter pena
de mim

amanhã serei guerreira
outra vez
e pois que sim, que é agosto, e cá estamos na paz do senhor, que também deve ter ido de férias, e dos pelintras do costume. e diz que hoje a temperatura vai escaldar - excelente para torrar essas peles xóninhas de massa assalariada de escritório - e assim sendo, esta flor que aqui vos tecla aventurou-se num vestidinho de estação todo suavezinho e numas belíssimas meias brancas...
a raposa olha-me de esguelha, numa careta torcida, quando finjo que me esqueci do saco de areia, junto à porta dos fundos. amanhã bem cedo, diz-me com a sua voz de monge tibetano, a primeira coisa que deves fazer é mudar a areia da caixa do gato. não tugi, nem mugi -- olhei para o relógio: 00:59h!, e percebi que o melhor era rumar ao vale dos lençóis. 
nas escassas horas que permaneci em Niflheim, o assunto voltou ao centro da mesa, onde jazia a carne grelhada. o nativo, por quem nunca tive grande apreço, detentor de uma voz pastosa de tinto caseiro, insiste na tecla. e eu, sorrindo, olha que não, olha que não. mas o nativo não dá espaço às minhas refutações, ó, atão mas eu não sei? como poderá ele saber, é algo que me intriga, estando tão longe da situação. 
pela manutenção da tranquilidade caseira, e na demanda da paz regional, nada mais adiantei, rumando a conversa para o futebol. aquilo é que foi!, baba-se agora, de sorriso escancarado. e eu, segurando a peça em assunto boçal, aceno-lhe que sim e dou-lhe os parabéns.
todas as discussões valem a pena, mas nem todas as pessoas valem uma discussão. digo eu.
"Há uma época na vida em que esperamos que o mundo esteja sempre cheio de coisas novas. E depois chega o dia em que nos damos conta de que não vai ser assim. Percebemos que a vida vai ser uma coisa cheia de buracos. De ausências. De perdas. De coisas que existiram e desapareceram. E também nos apercebemos de que temos de crescer à volta e entre as lacunas, embora possamos estender a mão na direcção das coisas e sentir esse entorpecimento tenso e luminoso do espaço onde se encontram as recordações."

/A de Açor, Helen Macdonald/

3.8.17

a insónia é o pesadelo dos que não dormem.

2.8.17

o sentimento de ser de vidro e quebrável, 

um medo, 
recados para uma Pirata que vai ficar com Milu alguns dias em agosto.


• Milu não come mosquitos. Diz que fica enjoada. Ainda não percebi bem de onde vem isso, pensei que fosse do glúten, mas ela só come mosquitos sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de melga. (nem bebe run, nem gin, nem aguardente, nem cachaça, nem whisky - apenas absinto e apenas para desmoer a digestão mais pesada.)

• Deixei um saco com comida para a Milu. Moscas sem glúten, libelinhas sem gordura, abelhas sem açúcar, larvas desidratada, nacos mirandeses na pedra e quinoa dos Andes (para ti).

• Não lhe dês bolos de pastelaria, a menos que sejam palmiers encobertos esfoliados. Nem sumos de pacote, que não tenham sido espremidos manualmente. Nem leite de vaca que não seja de origem controlada dos açores. Nem chocolates com menos de 80% de cacau, torrado em horário matinal. Nem leite com chocolate, que tem iva mais caro. (parece óbvio, mas tenho de ter em conta de que és Pirata)

• Se ela insistir muito para comer doces, dá-lhe uma peça de fruta biológica, pode estar podre. Ou deixa-a brincar com o teu órgão electrónico, piano ou lá o que é. Ou fazer tranças indianas na barba - desde que higienizada - do guedelhudo do teu cozinheiro. Ou um abraço.

• A Milu pode brincar com o iPad dela antes de ir para a cama (atenção ao acesso à pornografia! e aos vídeos sobre extraterrestres e aos sites de gastronomia chinesa). Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.

• Se ela ensaiar uma fita por causa disso, não a contraries. Não lhes tires o iPad das patas à força. Dialoga com ela. Convença-a. Quero que a Milu tenha capacidade de argumentação e não quero contrariá-la demasiado, para não ser castrada na construção da sua personalidade. No fim, dá-lhe um abraço. Ela precisa de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não te esqueças isso. E se puderes (sei que podes ou terás notícias do meu advogado), dá-lhe abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz, a peçonha também.



Paulo Farinha, daqui, visto por aí 

"- O senhor, pelos vistos, está à procura de alguém - disse - mas, a propósito, parece-me que daqui a pouco o seu fato vai arder.
O desconhecido olhou para trás, afastou-se um pouco da lareira e, depois de olhar com atenção para Runévski, respondeu:
-- Não, não procuro ninguém; estou apenas surpreendido por ver neste baile tantos upires!
-- Upires - repetiu Runévski. - Como é isso, upires?
-- Upires - respondeu imperturbavelmente o desconhecido. -- Vocês, só Deus sabe porquê, chamam-lhes «vampiros», mas acredite que a sua verdadeira denominação em russo é «upir». Ora, como são de origem puramente eslava, embora se encontrem por toda a Europa e mesmo na Ásia, é infundado utilizar um nome que é uma deturpação feita por monges húngaros; estes lembraram-se de modificar tudo à moda latina, pelo que transformaram «upir» em «vampiro». Vampiro, vampiro! - repetiu com desprezo. -- É a mesma coisa que dizermos, em vez de fantasma, fantôme ou revenant!
-- Está bem... mas diga-me lá - perguntou-lhe Runévski -, como é que os vampiros, perdão, os upires, podiam vir parar aqui?
À laia de resposta, o desconhecido estendeu a mão e apontou para [...]
Runévski ouvia e não queria acreditar nos seus ouvidos.
-- Tem dúvidas? - continuou o interlocutor. Contudo, ninguém melhor do que eu pode provar que Sugróbina é upir, porque assisti ao seu funeral. Se me dessem ouvidos ter-lhe-iam espetado uma estaca de álamo no peito, por precaução; mas foi impossível! Os herdeiros não estavam presentes, ora os estranhos... querem lá saber!

/O Vampiro e a Família do Vampiro - Aleksei K. Tostói/



estamos sozinhos, eu e Aleksei. nesta brancura imaculada, serei um festim nas mãos de qualquer um dos seus upires. ele abana a cabeça, negando tal ousadia - tudo não passa de uma história, garanto-lhe! -, mas as mãos tremem-lhe, enquanto afaga a barba comprida, na antecipação do sorvo libidinoso. provoco Aleksei um pouco mais, despindo-me devagar à sua frente. seguro de si, mantém as páginas abertas, insistindo que o leve para a cama, na mais pura das intenções. pois que seja, meu caro. esta noite, serei o seu punhal.

22.7.17

Malaquias morreu entretanto, libertando a alma do sofrimento, numa última golfada de sangue. hoje, rumo sozinha para norte. no baú de Blimunda, levo o silêncio das matas queimadas, cinzas cadáveres que esperam por mim. felizmente, já estou morta, não poderei morrer outra vez.
do abraço de despedida, guardo o olhar macio oferecido no cais.

18.7.17

náusea.

17.7.17

pensei que seria poético
voltar ao sítio onde a matei,
mas alguém já lavou as manchas de sangue
da pedra da entrada
e o cão mal se levanta.

15.7.17

escreve-me o estimado leitor, quiçá no intervalo de alguma tarefa mais exigente, para me inquirir da razão de tão baixa produtividade. a flor já não tem mão para escrever com a faca no fogo? apanhada de surpresa, - serão poucos os farrapos, não nego, mas ainda assim por cá derivam -, lanço-me à lâmina de imediato, que julgo morna, tentando provar-lhe de como estava enganado. subestimei o poder do maldito ar condicionado.
um dia, menina, estiquei-me às cerejas, em cima de um caixote de madeira. o caixote, a pino, balançou e eu caí de costas, num estrondo maciço, todo o corpo um peso-morto de mim. lembro-me dos minutos que pareceram dias e no alto as folhas verdes da cerejeira, estremecendo à brisa, sob o céu claro da manhã. quis pedir ajuda e nem um fio de voz. sem ninguém que se preocupasse em saber de mim, lembro-me das lágrimas quentes escorrendo pelo canto dos olhos e da angustia de me sentir presa num corpo imóvel. a voz voltou, trémula, antes de me conseguir mexer, mas não chamei ninguém. percebi, naquele dia, que por mais dolorosa que seja a queda, - e se foi -, o melhor era aprender a levantar-me sozinha.
esta manhã, sensível à falta e contida ainda nas réstias azedas da semana que ontem devia ter terminado, escondi-me entre as almofadas e o lençol e deixei os olhos marejarem. desisti, por alguns minutos, de mim e de tudo. depois, felizmente, aquela menina apareceu.
passamos metade da vida a tentar transformar-nos em pessoas diferentes, almejando versões melhoradas, corrigindo tiques e posições, para mais tarde, os mesmos opinadores sociológicos de outrora, nos garantirem que a felicidade está - e sempre esteve, afinal - na aceitação de nós próprios, inteiros, com os nossos defeitos e feitios.

8.7.17

No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.

«A distância que havia entre ele e a luz da fogueira não era tão importante como a sua certeza de que nunca revelaria a sua presença.»

/A Vida e o Tempo de Michael K, p. 117/
onde se lê vazio, deve ler-se uma vida inteira.

6.7.17

na minha rua só havia eu,
toda a rua era dos meus pais e
eu brincava nela sozinha.
brincava triste,
mas ainda não o sabia,
inventando nomes para brincarem comigo.

hoje eu já não invento amigos,
continuo deambulando sozinha pela rua,
como quando era menina.























Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo

e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas

ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.

Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;

uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer

anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,

com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida

por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade

habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,

recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,

estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos

pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,

perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.


Giánnis Ritsos (1972) | Antologia | Fora do Texto | 1993


daqui: (em)quanto vivo o nome

5.7.17

Não era um trabalho fácil, correr atrás das aves, que tinham o dobro da nossa altura, quando a manhã já ia longa e o calor começava a apertar. Petra ficava no posto da vigia, pendurada na cancela mais alta, e ia gritando instruções, à direita, Jasmim!, Cuidado, Bartolomeu!, atenção à Cotovia! Nós tentávamos seguir a sua voz, enquanto rodopiávamos como bailarinas bêbedas, dentro das botas velhas de couro, que nos ficavam largas. Cirilo, gracioso na sua habilidade de fintar os adversários, era o único que se divertia. Quando a última ave entrava na galinheiro, também ela já exausta, caímos todos, menos Cirilo, de joelhos no chão. Petra ajudava-nos a levantar e obrigava-nos a beber o chá de urtigas ainda quente. Sabe a mijo!, gozava Jasmim. Urina de alpaca, corrigia Petra, com um sorriso.
1. Espero uma chegada, um regresso, um sinal prometido. Pode ser fútil ou terrivelmente patético: em Erwartung (Espera, Schönberg), uma mulher espera o amante, de noite, na floresta; eu não espero senão um toque do telefone, mas a angustia é a mesma. Tudo é solene: não tenho o sentido das proporções.

/Fragmentos de um Discurso Amoroso/

2.7.17

I


A guerra é a mãe e a rainha de todos.
A alguns transforma em deuses, a outros em homens.
De alguns faz escravos, de outros homens livres.



   A primeira coisa que a parteira notou em Michael K, ao tirá-lo do ventre da mãe, foi que ele tinha um lábio leporino e a narina esquerda dilatada. Segurou o bebé, por instantes, abriu-lhe a boquinha e ficou aliviada ao descobrir que o céu da boca estava intacto.
   Voltando-se para a mãe, exclamou:

   —Deve sentir-se feliz! Traz sorte à  casa!

   Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.


/A Vida e o Tempo de Michael K/
13 de Maio

Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.

Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.

 — Acuso! Acuso! Acuso! (...)

/Húmus/
sei que estou morta, quando as minhas mãos querem calar os gritos das crianças que correm perto.
não é difícil esconder-me dos outros, difícil - doloroso, às vezes - tem sido esconder-me de mim.
(...), poetry gives words to the heart.


agradeço ao (maravilhoso) arquivo de cabeceira por me recordar de Lawrence Ferlinghetti e da sua (a) poesia como arte insurgente.

1.7.17

secretamente, ansiava um vendaval para esta manhã, chuva torrencial, ventos ciclónicos, qualquer desculpa que me limpasse a vergonha de cancelar o compromisso. bem cedo, deambulei até ao jardim, onde me deixei ficar a remoer o destino. com agenda tão apertada e os pneus dianteiros carecas, dar a volta à serra não é brincadeira que me apeteça.

28.6.17

5-4-1930

O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.

Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.

Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.

O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.


/livro do desassossego - tinta da china

27.6.17

if all you have is a hammer, everything looks like a nail.


26.6.17

«uns tiveram o azar de serem apanhados pelo fogo, outros morreram por inalação de fumo quando observavam o fogo.»



não sejais abutres, ou hienas, ou qualquer outro animal sem compaixão, que faz das vítimas agonizadas, outras cadáveres, o seu repasto palavroso. aplaudi a competência em tempos extremos, demonstrai a compaixão num minuto de silêncio e acima de tudo não vos enganeis,  não é deus que não é amigo, é a natureza. e bem diz Jorge Gomes, não fosse a mania voyeurista do tuga e só tinham morrido os azarados. este homem é um Senhor, um verdadeiro humanista de mão cheia a comandar uma enorme equipa da proteção civil e da investigação.

tende vergonha, vós, corja da direitalha, que é o que deveis ser todos, de dedo em riste, pior, faca afiada, catando nas cinzas, cuspindo fel, ousando pedir cabeças em bandejas! ora, ora, ora, concidadãos, que mania essa de julgardes tudo e todos, aproveitando a corrente da tragédia, é um tique boçal. se até Guerreiro já veio ensinar-vos como acontecem as coisas, nisto da biopolítica das catástrofes, por que vos deixais cair que nem pategos, exigindo explicações do que não pode ser explicado. acontece, meus filhos, é a vida. aceitai. e  para que quereis vós a demissão dos líderes? acaso Constança fez-vos algum mal? não sabeis que o verão ainda agora começou e há muita serra para arder? quem fará os relatórios depois?

parai com isso, porque insistis em fazer perguntas sobre o "negócio" do SIRESP, não sabeis ficar quietos no vosso canto, sem chafurdar na lama, como pessoas de bem? se até o bandido do Passos Coelho veio pedir que não se cacem as bruxas, não vá alguma estar no momento a conduzir a sua vassourinha laranja. sorte a dele, que já não está no governo, caso contrário ainda ouviria da boca dos que agora são mudos, qualquer coisa assim: incompetência do governo não pode encontrar justificação na meteorologia...


Viva Portugal! Viva a classe política! Vivam os tolerantes do infortúnio!




................................

Adenda à Comédia.


436.

      [PAISAGEM DE] CHUVA

      E por fim — vejo-o por memória —, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre o dia, a vida, a utilidade fictícia, a actividade sem remédio. É outra vez a minha personalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as frinchas das portas das janelas — longe de herméticas, meu Deus! —, vou sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um desconhecimento, salvo de conforto, existência do meu corpo. Vou sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que estou gozando da minha consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato ao sol, os movimentos da lógica da minha imaginação desprendida. Vou sentindo sumirem-se-me os privilégios penumbra, e os rios lentos sob as árvores das pestanas entrevistas, e o sussurro das cascatas perdidas entre o som do sangue lento nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me perdendo até vivo. 


/livro do desassossego - tinta da china/

24.6.17

a inveja impele o mundo, não diz o poeta mas digo eu. 
várias frentes, vários inimigos; antes que apareça a romãzeira do Pipoco -- que, lutando pelo primeiro lugar, não terá qualquer pudor em subornar o público leitor -- fica mais uma das minhas maravilhas: abrunhos!

peleja pela hora do calor, V. Ex.ª, com certeza fazendo-se acompanhar de algum Ambrósio e um ar condicionado portátil...

mas vamos ao que interessa, onde estão as flores da sua orquídea de duas cabeças hibernadas e uma cabeça moribunda (que de tão amarela, até dá peninha)? como pensa vir a ser alvo de inveja, com esse periquito floral escarafunchado? mas afinal quem é o general que lhe coordena as tropas? (estaria o horto fechado, à hora que a sua consierge chegou?)


abstenho-me de continuar esta guerra, por caridade à sua plantinha. pode recolher os seus mortos e tratar dos seus feridos e que tenha aprendido a lição, a inveja quer-se florida!

Declaração de Guerra à Artista Palmier


Artista Palmier,

Serve a presente missiva, teclada em QWERTY debruado a branco sobre pvc azul petróleo, para convocar V. Ex.ª à peleja mais silenciosa de que haverá memória, durante todos os séculos que hão-de vir, neste mundo virtual: a Guerra da Invídia. Enquanto a Capitã do Purpurinas não terminar a época da apanha dos reumáticos, sem braços que se encarreguem dos sabres e dos canhões, teremos de nos gladiar com o mais comum dos sentimentos, mas o mais nobre entre as gentes que são maiores (não sendo baixa, já calcei as botas de salto, que tu parece que levaste adubo no berço).

Inicio eu, que tive a ideia (absolutamente original) de te atingir com o ferrão do ódio pelo possuidor e investi num fotógrafo profissional e no aluguer de um estúdio próprio para a captação de imagens tão belas e tão raras. 

Primeiro disparo (e único, suspeito), Artista Palmier: A Fartura de Violeta -- A ORQUÍDEA MAIS BELA DA BLOGOSFERA.


de frente


de costas


já faleces nesse chão de mosaicos brancos, aposto, tal foi a pontaria do disparo.


23.6.17


s/ legenda (3 de 3)

22.6.17

como te atreves, Daniel Jonas, a dizer que a poesia não é evasão?!?
Colibri

Imagem relacionada

Entre os Astecas, as almas dos guerreiros mortos voltavam à terra sob a forma de colibris ou borboletas. (...) os índios Tucanos da Colômbia acredit(a)m que o colibri ou «pássaro-mosca» copula com as flores, representando assim o pénis, a virilidade radiosa. De resto, no Brasil, também se lhe dá o nome de beija-flor.


/in Dicionário dos Símbolos, J. Chevalier e A. Gheerbrant, teorema/ 
Marlon Brando, o sedutor, enfeitiçando-me entre a luz e a sombra.

o meu arrasa-corações
Corto Gatês, o magnifico, tem passado largas temporadas em terra. suspeito que não lhe agrade o calor em mar de palha.

Corto Gatês, namorando-me

20.6.17

vidro azul, a tocar
enquanto ouço os grilos, que começam sempre depois das rãs, o teclado molhado, o copo perigosamente entre a mão e a mesinha de cabeceira, onde perto de duas dezenas de livros se amontoam, um avião que passa, um carro ao fundo, o gato que continua a miar -- penso como seria tão bom se esta noite chovesse.  
o anoitecer na varanda, duas cadelas arfando o calor, um gin de refeição, um gato que mia, outros três esperando que o gato que mia me toque ao sentimento e lhes toque a eles uma latinha, uma cama desfeita onde me aninho sozinha, um noitibó perto, o coaxar das rãs, o telemóvel que toca e nada de novo. o enxotar das pequenas traças que buscam a luz do monitor. talvez seja esta monotonia que me agrada, esta paz fictícia que me mantém.
fique, disse-me ele, quando entrei no consultório fora de horas, ambos sabendo que não.
há demasiada raiva dentro de mim, que nasci e cresci pertos dos pinheiros e das gentes do campo. acumula-se todos os anos mais um pouco deste fel. hoje, se não fosse pela réstia de bom-senso que a experiência de vida me trouxe, mandava aqueles imbecis, corruptos e incompetentes - que não agem, reagem: tarde demais - todos prá puta que os pariu. não mandando, porque de nada me vale, senão acender um rastilho nesta selva virtual, onde as pessoas de bem - especialmente aquelas que se acham com piada ou verve no teclado- vêm dar lições do politicamente correcto e agradável, resta-me, a mim e a vós, continuar a assistir de bancada à destruição e à morte  daquilo e daqueles que neste país sempre tiverem o menor valor, |os d|o interior rural.

18.6.17

ajuda, precisa-se!

Carlos Pedrosa


saiam de casa e ajudem. há voluntários perto dos hipermercados pedindo água, leite, fruta e bolachas para os bombeiros /e vítimas/ que combatem as chamas em Pedrógão. ajudem.


CONTA SOLIDÁRIA CAIXA

IBAN: PT50 0035 0001 00100000 330 42