30.1.17

às vezes, vejo navios de prata,

não a reconheci, agachada em frente à maquina do tabaco, mostrando o inicio de umas cuecas generosas, ponteadas de largas estrelas. quando mais tarde abandonei o espaço, a cabeça ainda longe, pensando no muro de pedra, prenhe, que esta manhã gritava a sua iminência de ruir, vi-a, entregando um cigarro ao sem-abrigo das muletas. cumprimentei os dois e segui o meu caminho. não pude deixar de sorrir, sempre engracei com aquela rapariga.

29.1.17

entrou na drogaria, escondida pelo casaco grosso de fazenda, cor de caramelo. duzentos gramas de amor concentrado, pediu. o homem da bata branca tossicou duas vezes para o lado, ajeitou as lunetas de aros finos e pediu licença, dirigindo-se aos aposentos traseiros. a mulher esperou alguns minutos quieta, até que a impaciência lhe saltou da écharpe de musseline para a boquinha crispada e bufou ruidosamente. ao terceiro assopro, voltou o homem da bata com uma pipeta de cristal, três quartos de líquido púrpura, translúcido; chamou-lhe a alquimia do coração. tenha cuidado, recomendou em voz baixa, deve tomar em doses muito reduzidas, diluídas em vários copos de água ao longo da vida. o excesso de amor vicia. ela anuiu e ele continuou. pior, pode estrangular-lhe as artérias principais, roubar-lhe a razão, asfixiá-la, deixá-la desfalecer em êxtase místico, do qual não mais se recupera. a mulher guardou o invólucro em silêncio, pagou e saiu. nunca mais ninguém a viu.
hoje já ninguém acredita, substituiu-se a poesia pelo placebo, morrer de amor, convenhamos, é coisa esquisita.

22.1.17

Em torno da pequena mesa, onde as canecas de café fumegavam, cada um deles tinha de contar um dos seus furtos mais estóicos. Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, jurava a pés juntos, olhar escancarado e braços abertos, que uma vez tinha roubado um cavalo mágico, má-gi-co, repete, num circo em Lyon. No momento em que montou o cavalo, sentiu uma corrente eléctrica, que o colou ao dorso do animal, exclama, excitado. Alguns metros a galope depois, o cavalo descolou os cascos do chão e ambos voaram em direcção às nuvens cinzentas do sul. Acordou numa sarjeta em Sainte-Croix-en-Jarez, dois dias mais tarde, o corpo todo maçado de nódoas, não se lembra de mais nada. O Bando entra em algazarra, alguns riem-se, chama-lhe bêbado, outros dizem que não acreditam, nem pensar, que parvoíce, impossível. Petra fica calada. Jasmim continua a jurar, que sim senhor, que já roubou um cavalo-alado, todo branco, lembra-se bem, os outros têm é inveja, cambada de míseros ladrões de galinhas. e ri-se.
do outro lado da sala, Bartolomeu pede a palavra.

16.1.17



li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?

14.1.17

está cada vez mais difícil preencher esta página vazia
e não é por falta de tentativas

sugestões temáticas para curtas dissertações, choro zen de palavras, procura do equilibro linguístico-emocional são bem-vindas. 

12.1.17

os dias têm sido curtos, talvez as horas tenham decidido brincar comigo, correndo, velozes, no velhinho swatch com mostrador azul de prata. nada do que tenho feito me satisfaz o palato da alma, mas a vida leva-se caminhando. aproveitei há pouco, enquanto o computador me pedia uma reinicialização, para levar os olhos ao Fernando. na verdade, hoje não me apetecia o Fernando, nem o Bernardo, tão-pouco o Raul, cujo húmus sustenta o livro do desassossego. hoje apetecia-me trincar poemas repletos de líquidos doces, abraçar um coração de caxemira e ficar sem palavras.

10.1.17

Niflheim acordou melancolicamente primaveril. nos campos, o verde inteiro, pássaros de asas longas junto ao rio, gente caminhando. as nuvens, cinzentas como eu, passam velozes. vejo agora que algumas laranjas estão tombadas na terra lavrada, não há, como sempre, quem as apanhe.
com o tanque do submarino a mais de três quartos, ócio meu, este de me parar à janela, vendo o mundo da passar, tenho de ir. é urgente.

8.1.17

sopro os meus beijos mais atrevidos
em bolas de sabão
azul


Anne Soline

o homem deu a terra ao cultivo alheio. procuro avidamente por um almanaque agrícola que me ajude a matar a curiosidade. quero saber o que poderá vir a nascer, onde antes ondulava um mar de cereais.

7.1.17

fez-me chegar a breve nota em missiva electrónica, bona fide evidente, "não se melindre a cara amiga". pois então, diz o leitor, parente próximo na certa de Napoleão Mendes de Almeida, que me repito nas conjunções em início de frase, praticadas em simultâneo com o exercício patusco de minusculização da letra que se quer grande. também abuso das mesmas em corpo interno, intoxicando o texto com as constantes paragens, conduzindo-o à pequenez da simplificação. o que se quer é o substantivo moderno, limpo de apêndices e floreados, desconstruindo a relação, prendendo a atenção.
meu "caro amigo", eis-me nada melindrada com obséquias observações. continuarei a repetir, repisar, reiterar, reforçar a gramática e a grafia da minha redundante arte caseira, como se quer de quem tem na teimosia a sua força maior. e quanto à ideia do seu parente, o carrancudo obstrutor, de que saber escrever a própria língua devia fazer parte dos deveres cívicos de cada um ou coisa assim, eu opto por Pessoa, o poeta multiplicador, e respondo-lhe que eu não escrevo em português, eu escrevo eu mesma, ganjenta de mim.
enquanto avanço e recuo nas páginas repletas de vestidos, malas e sapatos, experimento uma sensação absoluta de tranquilidade (ia escrever paz, mas não quero parecer exagerada). se a ignorância é meio caminho andado para alcançar este pequeno nirvana matinal, a futilidade encarrega-se de me fazer alcançar a meta. quase tenho vontade de prosseguir com um sonoro foda-se a vida dos outros, mas tal é o zen na ponta dos dedos, que mantenho firme a linguagem polida. em vez do jovem casal de grunhos que ontem apanhei no metro, ela com voz de carroceira, ele zumbindo como uma abelha, empanturrando o bebé de alcofa com pedaços de kit kat... /sim, deus que me perdoe, mas tive vontade de lhes agarrar nas cabeças sebosas e de lhes dar com elas na porta do metro, felizmente, sou apenas uma justiceira mental, ou estaria agora na esquadra a prestar declarações, sujeita a queixa-crime/; recuo: em vez do casal de grunhos de ontem, prefiro apascentar as vistas naquele grupo de homens, que desde cedo semeia a terra em frente. ou nos outros, perto, que continuam curvados, podando as videiras. isto, obviamente, enquanto vou namorando vestidos cintados, lingerie sem almofadas - abraçando o meu tamanho small -, e sapatos daqueles que não servem para os passeios de lisboa.

6.1.17

vejo-os, desde ontem, curvados, podando as vides e lembrei-me do meu avô. mas a memória foi cruel e trouxe-me não o homem soberbo, mas o velho magro, sofrendo durante semanas na cama do hospital. fecunda nessa imagem, veio a do meu pai, em igual sofrimento, morrendo num outro hospital. e finalmente, como que num trio divino, a dúvida quanto ao sofrimento do meu irmão. terá sofrido? terá tido tempo para ter medo? e eu, terei medo da minha morte, se a vir a chegar?
quando deitei fora os chapéus que já não uso, nem por segundos tive a amabilidade de me despedir de mim. só tive pena, sem o drama do diz que se matou, de não caber inteira no saco preto do lixo. 
Atropelamento e Fuga

Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!

4.1.17

Melissa Honey, esse vegetal amarelo, gravita à minha volta, lembrando-me de todas as tarefas em atraso. urgente! urgente! repete em voz enjoada. Melissa, querida, estou a trabalhar há* doze horas seguidas, pelo amor à santa dos azulejos, cala-te um bocadinho. Melissa não se azeda nos meus azeites, oferece-me um caramelo. mando-a sentar, sossegar a passarinha. doem-me as costas, dói-me a cabeça, em breve há de soltar-se um espirro. estendo a mão ao Fernando e peço-lhe ajuda: poeta, ou absinto ou poesia.
Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo, e tudo o que fomos — lixo de estrelas e de almas — será varrido para fora da casa, para que o que há recomece, responde baixinho.

*obrigada, Blue
Amália, a menina que me espreita pela sebe, sempre abraçada ao seu chorão, perguntou-me há dias se podia ficar com o gatinho às cores. ri-me à ideia. Ramirez, o espanhol, contrabandista encartado, esquivo por natureza, o melhor caçador do vale, ronronando às mãos de uma menina, como dama de companhia. posso? insistiu ela.

3.1.17





There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day
A lucky day he passed my way
Then we spoke of many things
Fools and kings
Then he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
is to love and be loved in return"
talvez esta noite, em vidas paralelas de que não me lembro, me tenha sentado em frente das cartas. desde que acordei e me deixei ficar a ver as águas castanhas do rio, que a sensação se transforma em ideia, 2017 vai me trazer muita tristeza. terei visto o cinco de espadas?

2.1.17

o vestido, que despi com a lentidão de quem já não espera, continua tombado no mesmo sítio, junto ao par de sapatos esguios. queria-me nas estepes de Orkhon, onde as mulheres se entregam ao vento e invocam os espíritos com as suas próprias mãos.

1.1.17

01.01.17