29.1.17

entrou na drogaria, escondida pelo casaco grosso de fazenda, cor de caramelo. duzentos gramas de amor concentrado, pediu. o homem da bata branca tossicou duas vezes para o lado, ajeitou as lunetas de aros finos e pediu licença, dirigindo-se aos aposentos traseiros. a mulher esperou alguns minutos quieta, até que a impaciência lhe saltou da écharpe de musseline para a boquinha crispada e bufou ruidosamente. ao terceiro assopro, voltou o homem da bata com uma pipeta de cristal, três quartos de líquido púrpura, translúcido; chamou-lhe a alquimia do coração. tenha cuidado, recomendou em voz baixa, deve tomar em doses muito reduzidas, diluídas em vários copos de água ao longo da vida. o excesso de amor vicia. ela anuiu e ele continuou. pior, pode estrangular-lhe as artérias principais, roubar-lhe a razão, asfixiá-la, deixá-la desfalecer em êxtase místico, do qual não mais se recupera. a mulher guardou o invólucro em silêncio, pagou e saiu. nunca mais ninguém a viu.
hoje já ninguém acredita, substituiu-se a poesia pelo placebo, morrer de amor, convenhamos, é coisa esquisita.