28.2.17

ninguém se feriu esta noite.
sozinhos, cada um com os seus pensamentos, fizemos chover.


26.2.17

num domingo ventoso e frio do terrível mês de janeiro, os três anjos, aborrecidos, fartos de atirar pedrinhas no charco, desafiaram-se entre si a saltar o muro do paraíso. dados como desaparecidos, passadas as quarenta e oito horas da praxe, nunca mais ninguém os viu, tão-pouco há relatos de que alguma vez tentassem regressar. no céu, os companheiros invejaram-lhes a audácia, mas, amolecidos pelos copinhos de leite quente e as bastas fatias de pão com mel, deixaram-se ficar.
os três anjos foram avistados hoje, um quase dia de primavera, por esta que aqui vos tecla. andavam todos, cada um à sua moda, disfarçados de diabo.

votos de um entrudo feliz.
percebo, com o passar do tempo em mim, que, àqueles que nunca conseguiram caminhar simplesmente a direito, não faz sentido procurar o sentido da vida. a estrada larga, que os mais velhos nos aconselharam a procurar, é a estrada da manada, onde a natureza mantém os fluxos migratórios intactos e a vida corre simples, na segurança dos costumes e da tradição. para nós os outros, párias, inadaptados, diferentes porque não nascemos com cascos de alcatrão, sobram os trilhos pelo meio do mato, entre pedras e giestas, onde a liberdade da escolha, tantas vezes somente definida pelo cheiro da urze ou pelo assobio do vento, traz vinculada a possibilidade constante de queda iminente.
tenho consciência de que nunca chegarei ao bem-aventurado pasto celestial, onde repousam os que acreditam, felizes, na plenitude de um destino alcançado.
pontapeou-lhe a barriga várias vezes, perto da boca do estômago, até conseguir que vomitasse a verdade. vinha suja de um suco alaranjado e viscoso, alguns pedaços de comida ainda por digerir.
arrependeu-se, não procurava verdades tão nauseabundas.

25.2.17




22.2.17

da lixeira a céu aberto, onde cadáveres apodrecem entre os detritos artificiais, guardei a beleza do voo circular do bando de grifos. 
troco-me, por uma mancheia de seixos amarelos
troco-me, por um sopro de poeira interestelar

19.2.17

Se eu quisesse, enlouquecia.

Oscar Droege

é um desejo cavalar!, relincha, pronto para cobrir.
aroma a pêssego branco e chá de rosas...

foi uma infusão de flor no submarino.

18.2.17

por onde andas tu, meu Damas Afonsino, rico menino de sua mãe, poeta moderno e activista snob da poetry slam de Monfortinho?
tinha combinado comigo mesma, se amanhã não trabalhasse, hoje jantava qualquer coisa com dois baldes de gin. o demónio, velhaco, rindo-se do meu desejo simplório, atiça-me mais um tremelique na pálpebra esquerda, enquanto me sussurra, xoninhas, hoje bebes água.
ela bate palmas, entusiasmada, dizendo-me que adora trabalhar com o Excel e eu penso na garça-boieira que esta manhã, sozinha, pousou perto do laranjal. quando se despede, sumariando as tarefas concluídas, numa alegria sincera, ainda eu caminho por entre os pessegueiros em flor, bebendo o verde da erva macia, taeko e yukiko perto, as três subindo a ladeira.

15.2.17

recordo o desconforto, as bocas demasiado próximas, a respiração quente no meu rosto, enquanto, com a máquina, me penetrava a íris da alma. a consulta mais invasiva de que me lembro, não foi com o homem que me tocou no interior do sexo, tão-pouco com o que me escancarou a boca procurando um siso, ou com o que me observou o ânus com larga atenção. estranhamente, ou talvez não, a pior, foi uma simples consulta de oftalmologia.
as janelas do sexto andar não abrem. quem vier para se suicidar, é favor fazê-lo de outra forma: a saber, repete-se, que nunca é demais lembrar, a forma escolhida não pode interferir com o fluxo diário habitual daqueles que nos rodeiam. se deseja matar-se, faça-o no sossego da sua casa, em hora mais solitária. as janelas do sexto andar não abrem, repete-se, as janelas do sexto andar não abrem. a fila agita-se, desfaz-se e o caos instala-se no acesso à porta de serviço. alguém se lembrou do poço das escadas. os gritos, entrecortados pelos embates secos, não demoraram a chegar. a consagração da libertação.
o homem da camisa azul baixou os braços, escondendo as manchas de suor e voltou à mesa de trabalho.

14.2.17

a costureira triste já não costura, foi sol de pouca dura, mas tem por lá coisas bonitas e outras assim-assim.

/e fico muito feliz quando dou conta que ainda por lá passa alguém/

12.2.17

Emílio tem de morrer. Cassandra deixa cair a cavaca das mãos e repete baixo o pensamento: Emílio tem de morrer e tem de ser antes de santa rosa de viterbo. Apanha a cavaca do chão e encaixa-a na cova do braço, onde irá levar uma braçada inteira. No fim, agarra algumas pinhas da saca velha de sarapilheira e enfia-as nos bolsos largos do casaco. Emílio tem de morrer, mas por agora Cassandra precisa de acender o lume e fazer o jantar. Tranca a porta do cabanal, enquanto enxota o gato,  e encaminha-se para casa.
os campos estão alagados, não precisava de ter calçado as botas de borracha, manhã cedo, e percorrido o pântano verde, para constatar o que tão facilmente se vê da janela. o laranjal, pérola constante do meu horizonte onírico, parece suspenso num lago de lama. no cume do vale, o nevoeiro compõe a manhã de domingo.
este é o meu dia santo, negociado há várias semanas com o mercador do destino. hoje todas as horas serão minhas e delas farei o ócio mais prazeroso que conseguir. tomado o pequeno-almoço, um luxo comprado na loja de conveniência, onde normalmente só me lembro dos gatos, há-de seguir-se o mergulho no tanque, várias horas de contemplação da chuva e a nobre arte da ornitologia.
havia os que escolhiam esmagar os dedos, inutilizando-os em bolas de carne escura. gozavam a dor em urros lancinantes. eu sempre preferi cortar a carne em finos golpes de lâmina afiada, numa dosagem silenciosa. não lhe chamaria arte, mas havia um jeito próprio, um traçado meticuloso na forma de talhar o golpe.
com o tempo, os drogados começaram a invejar-me a intimidade com as agulhas e os pirómanos tremiam, excitados, vendo as labaredas lamber-me as palmas das mãos.
conduzia em círculos apertados até vomitar o álcool da manhã. julguei que morria, olhando-me cadáver ao espelho.
nunca fui tão forte, como naqueles dias.

11.2.17

10.2.17

passam os dias, as noites, os navios azuis repletos de memórias.
perco as horas e as palavras não voltam.


5.2.17

grata.


4.2.17

para a Palmy,


Violeta, 04.02.17

(sim, o fundo é uma caixa de biscoitos chineses. não, não tinha nada mais bonito à mão.)

foi quando as vi juntas, tantas, nas suas perninhas finas de saltimbanco, por entre os tufos de erva, perto da berma da estrada, que desejei ser guardadora de garças-brancas.

3.2.17

para a Rita bonita.


«Nova Iorque estava horrível nessa altura. Às nove da manhã, a frescura aparente que de algum modo invadia a cidade durante a noite, desvanecia-se como o fim de um sonho agradável. As ruas serpenteavam ao sol como miragens cinzentas no fundo dos desfiladeiros graníticos, os tejadilhos dos automóveis brilhavam e estalavam, e o pó seco como cinza invadia-me os olhos e a garganta.
A toda a hora ouvia falar dos Rosenberg. Era na rádio, era no escritório. Cheguei a um ponto em que já não os conseguia tirar do pensamento. Tal como a primeira vez que vi um cadáver. Durante semanas consecutivas, ao pequeno-almoço, a cabeça do cadáver, ou o que dela restava, flutuava por cima dos meus ovos com bacon, e também por trás da cara de Buddy Willard que fora, aliás, responsável por eu o ter visto. Em breve me senti como se arrastasse comigo a cabeça do cadáver presa por um cordel como um balão negro e sem nariz, lançando um cheiro nauseabundo a vinagre.»


/Sylvia Plath - A Campânula de Vidro - Assírio&Alvim/
posso voltar às minhas fotografias desenquadradas e mal-amanhadas.

Yukiko e eu, da série: patinhas

palpitações no olho esquerdo

procura-se profissional de medicina oftalmológica, com sensibilidade para a poesia da pálpebra.
e se quiserem continuar a navegar pela beleza do mundo, afectos e dúvidas, da mz.
querem mais fotografia, daquela que tem poesia dentro?
à esquina da tecla

- e a luisa também escreve bonito -

2.2.17

tenho a Sylvia, numa das suas capas escuras, edição esgotada, pedindo para ser lida, mas estou demasiado cansada e temo quebrar o vidro da campânula, quando, daqui a pouco, regressar a casa.

«Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
Deve ser a pior coisa do mundo

e não passei daqui.
meus amigos, querem ver fotografia da boa? daquela que nos sussurra poemas aos sentidos? querem mesmo? então ponham-se a andar daqui para fora!!!
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.


para o leitor desocupado, que teve a lata de me enviar um email, queixando-se da urticária que lhe causava "o chão" da fotografia anterior...

eis um céu, devidamente enquadrado

1.2.17

[sim, por agora e até ver, /ou colapso total da autora/, este blog sobreviverá de más fotografias, uma ou outra vez, acompanhadas por versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados...
 invento para ti a música, a loucura
e o mar.


comunicando em silêncio.









(Milu, porta-te bem)