30.3.17

«Satisfaz-me a derrota, porque é um fim e eu estou muito cansado.»

Jorge Luis Borges, in Deutsches Requiem, O Aleph

26.3.17

e Campo Maior? já vos mostrei a minha fotografia de Campo Maior?

a bem dizer, é mais a partida de Campo Maior. que gente tão bonita lá conheci

surripiam uma hora ao domingo porque na cabeça destes bandidos, canalhas ociosos, ninguém trabalha no dia santo. hoje, em vez de contemplar o verde do vale, sentada no janelão com taeko, apresso-me a vestir a farpela e botar-me a caminho das pedras. por causa  daqueles energúmenos, bandulhos brochados a arrotos krug brut e chauffeur de plantão à porta do terreiro, já estou atrasada.
alguém* devia por mão nisto.


[alguém que não o Arnaldo Matos, que fique claro]
a odisseia re(re)começa.

25.3.17

um gato dormindo no xadrez
de caramelo variado

a minha mais antiga paixão, Sr. Gato - o Velho

não vejo Milu há várias semanas e decido acreditar que navega, intrépida, no ombro da Capitã, tendo enxotado com sedas armadilhadas o louro já velho. sempre que encho o tanque do submarino, penso em Milu, a pequena aranha, e de como tão bem me aninhava os pensamentos na sua teia silenciosa. se não regressar até à Páscoa, preparo uma incursão ao cacilheiro pirata, o tal das purpurinas.
encontrei o irmão do pastor, não lhe sei o nome, nem ele o meu, pouco importa para a conversa de circunstância, ele dizendo que tenho os terrenos cheios de ervinha boa, eu respondendo que falta me fazem as ovelhas do irmão. saiu-me a frase sem pensamento, afinal a vida é como é e a morte calha a todos. baixou a cabeça, o irmão do pastor, e durante alguns segundos -- que me pareceram horas, dando tempo ao meu estômago de gerar um nó demasiado apertado -- nada mais fez do que pontapear as pedras do caminho. fazem muita falta, menina, estão as terras todas ao abandono, a comida a estragar-se. antigamente os campos estavam todos tratados e o gado ajudava a limpar o mato. nem havia tantos fogos. concordei prontamente. aquela enxurrada de palavras tinha-me salvado de aperto maior. da minha exagerada sensibilidade interior, infantil até, já sabia há muito, o que me apanhou de surpresa em tão estranho episódio foi mesmo a falta dela.
chegaram! e para as receber encontram este frio siberiano. volteiam no ar, eléctricas, quase imitando a felicidade dos tolos, [o que afinal não serão mais do que inteligentes manobras de aquecimento ou - quem sabe? - crises agudas de raiva pelo infortúnio destino.]

ainda tentei tirar o retrato a uma das quinhentas mil andorinhas que povoam já o céu inteiro, mas fica mais fácil com as flores: a gente diz: olhó passarinho!, e elas limitam-se a sorrir.

18.3.17

...
passo-a-passo voltamos desses futuros
negociando a dor e o prazer atropelados no caminho


o absurdo é compreensível
a lei da gravidade é conhecida
– é a maçã que dói

14.3.17

é à noite que encontro o que resta da minha humanidade, aquela que acredito ser e reconheço em mim desde sempre. alimento os animais, limpo-lhes as caixas, acarinho-os e observo-lhes a felicidade sincera de nada mais viverem para além do momento. todos eles, de uma maneira ou de outra, foram abandonados à sua sorte, alguns em condições execráveis. salvando-os, salvo-me a mim própria. sei-o e não o escondo. vale o que vale.
não deixarei descendentes, pequenos eus que me perpetuem o sangue e as maneiras. findarei em mim própria. salvam-me os bichos, conservando-me alguma humanidade.

13.3.17

Niina Vatanen - Roses, I’ll write you soon

12.3.17

...
— A festa não é para nós, meu filho —, disse ele.
— Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
— Não me interessa; quero um carneiro.
— Somos pobres —, repetiu Chaktour.
— Somos pobres porquê? —, perguntou a criança.
O homem reflectiu antes de responder. Depois de tantos anos de indigência tenaz, ele próprio não se lembrava porque eram pobres. Era uma coisa que vinha de muito longe, de tão longe que Chaktour já não se lembrava como tinha começado. Dizia para si próprio que a miséria que se prolongava para além dos homens. Apanhara-o desde a nascença e ele logo lhe pertencera, sem a menor resistência, visto que lhe estava destinada muito antes de ter nascido, ainda na barriga da mãe.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem porque eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
— Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixa-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
— Deus! —, exclamou a criança. — E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
— Quando Deus esquece alguém, é para sempre.
...

Albert Cossery, Os Homens Esquecidos de Deus, Antígona

[livros que me escapam das mãos, roubados pela escassez de tempo-próprio]


--excerto roubado aqui: voar fora da asa--
escritores que me estão vedados presentemente, por razões óbvias.
é manter a máquina a bombear e seguir o rasto dos sapatos.


«Gostaria que depois de me lerem, as pessoas não fossem trabalhar no dia seguinte.»

                                                                                                         Albert Cossery

10.3.17

na ideia de tirar o bolor do corpo, veio um vestido azul - que me parece ter encurtado na lavagem, uns sapatos novos que, deliciosos mistérios da natureza, me ondulam na anca, e o sorriso. 
é aproveitar, que amanhã volta a chuva.

8.3.17

troco-me, por uma inextinguível
inexprimível
noite.
Estas ravinas de osso e de pele
por onde começam as trevas
do absoluto,
e cá está ela, "a" flor do dia, que à minha pronta recusa, veio acompanhada de um olhar reprovador do género ólhamesta.
agora sim, já me sinto mulher.


7.3.17

saudades do tempo do pão com tulicreme.
da minha janela (ii),



6.3.17

da minha janela,


sem filtros e sem pequeno-almoço.


5.3.17

[...]

Uno de los hábitos de la mente es la invención de imaginaciones horribles.

Ha inventado el Infierno, ha inventado la predestinación al Infierno, ha imaginado las ideas platónicas, la quimera, la esfinge, los anormales números transfinitos (donde la parte no es menos copiosa que el todo), las máscaras, los espejos, las óperas, la teratológica Trinidad: el Padre, el Hijo y el Espectro insoluble, articulados en un solo organismo… Yo he procurado rescatar del olvido un horror subalterno: la vasta Biblioteca contradictoria, cuyos desiertos verticales de libros corren el incesante albur de cambiarse en otros y que todo lo afirman, lo niegan y lo confunden como una divinidad que delira.


/La biblioteca total, JLB/


deixei Camões na chuva miudinha da manhã de domingo e desci ao parque subterrâneo. ainda não era hora de almoço e já o dia me levava seis horas da vida.

4.3.17

republico o post de Vital Moreira pela mensagem, sempre urgente, mas também pela imagem que a tantos parece dar prazer. não é a morte* que aqui me incomoda. um dia, creio, também nós fomos presas de um caçador maior, -- hoje, à falta desse elemento agregador da espécie, matamo-nos uns aos outros --, o que me incomoda, o que verdadeiramente me entristece, é saber que há seres humanos que nos seus momentos de lazer - pais e filhos - vão assistir a este espetáculo de sofrimento e crueldade, chamando ao que é bárbaro, a nobre arte de tourear. em casa dão festas ao tareco, nas bancadas da praça aplaudem a tortura aos touros.

habituada à hipocrisia de um país de aparências, ainda assim, não entendo o porquê de tamanha contradição. à falta da desculpa das políticas da direita, o que falta à esquerda para fazer agora o que já devia ter sido feito? valerá assim tanto o PCP?




*aceito a discussão sobre a forma, também bárbara, de como criamos e matamos os animais para comer, mas tendo essa morte propósitos diferentes, não creio que se deva confundir os assuntos.

3.3.17

a frase, como muitas outras, apareceu-me sem avisar: todos os dias tristes, são dias de chuva; mas não, hoje não vi nenhum caixão descer à terra escura, sete palmos abaixo, onde, antes do pó, somos larvas gordas e brancas rapando a carne dos próprios ossos. hoje vejo apenas um lugar vazio, mas ninguém morreu. 

2.3.17

Blue, Green and Brown

descalça, espirro, quando os pés me arrefecem
Todas as noites
Junto as cadeiras da vizinhança,
As disponíveis,
E leio-lhes versos.

As cadeiras são muito receptivas
À poesia
Se soubermos como as dispor.

Por isso
Fico emocionado,
E durante algumas horas
Conto-lhes
A morte maravilhosa da minha alma
Ao longo do dia.
[...]


/Marin Sorescu - Simetria/

1.3.17

é pouco mais do que nada, um vestido azul apenas,
e no entanto, o meu corpo ondula e balança,
como o de uma criança,
feliz.