25.3.17

encontrei o irmão do pastor, não lhe sei o nome, nem ele o meu, pouco importa para a conversa de circunstância, ele dizendo que tenho os terrenos cheios de ervinha boa, eu respondendo que falta me fazem as ovelhas do irmão. saiu-me a frase sem pensamento, afinal a vida é como é e a morte calha a todos. baixou a cabeça, o irmão do pastor, e durante alguns segundos -- que me pareceram horas, dando tempo ao meu estômago de gerar um nó demasiado apertado -- nada mais fez do que pontapear as pedras do caminho. fazem muita falta, menina, estão as terras todas ao abandono, a comida a estragar-se. antigamente os campos estavam todos tratados e o gado ajudava a limpar o mato. nem havia tantos fogos. concordei prontamente. aquela enxurrada de palavras tinha-me salvado de aperto maior. da minha exagerada sensibilidade interior, infantil até, já sabia há muito, o que me apanhou de surpresa em tão estranho episódio foi mesmo a falta dela.