23.4.17

era um homenzinho horrendo, atarraxado dentro das camisas suadas, que se lhe abriam na curva balofa do umbigo. tinha um pequeno minimercado, perto da zona dos comboios, onde a mulher, mirrada dentro da bata, passava os dias presa à caixa registadora, e alugava quartos a raparigas na parte velha da cidade. o apartamento, um quinto esquerdo, cinzento sujo do tempo e da falta de quem o esfregasse, era o seu harém. armado do molho de cópias de cada chave, depois de estudados os horários, deleitava-se a entrar em cada quarto, procurando segredos e roupa interior, que acariciava com a fome de vários anos sem tocar numa mulher. quando tinha a sorte de encontrar algumas cuecas usadas, cheirava-as o mais que podia, em delírio, e lambia-lhes o sumo ressequido, enquanto se masturbava com cuidado para um lenço de papel, que trazia sempre no bolso. 
nunca trocava a botija do gás, que levava do minimercado, antes de terceira reclamação. costumava dar grandes sermões sobre os desperdícios e gostava de lembrar às raparigas que a casa devia estar asseada. a ironia sempre foi puta fina, já que o sr. Silva preferia esfregar o caralhito de merda, como mais tarde se lhe referiu uma das raparigas, nas cuecas mais sujas que encontrava.