31.5.17

de volta a Lisboa, ignoro a rota passada e procuro a estrada azul. do que aumenta em quilómetros, dará conta o acelerador. no momento em que lhe escrevo, amigo leitor, já a manhã me parece um dia qualquer de um passado longínquo. poderia entretanto falar-lhe da apresentadora da tvi ou do jornalista da rtp, vistos em locais tão distintos e feições a condizer, dos preparos para a feira do livro, evento a que me recuso há mais de uma década, nem sei explicar bem o porquê, ou do telefone que me massacra com o mesmo número, gritando-me por uma resposta. mas não o aborrecerei com futilidades barrocas. o que importa salientar, estimado leitor, é a belíssima posta de atum, mal passado, em cama de legumes, e o verde da casa, que agora me pedem a sesta. 
escolheu a tua casa para morrer, agoira a velha em voz baixa, toda vestida de preto, enquanto embrulho a coruja das torres numa toalha branca. de madrugada, a ave, um exemplar adulto magnífico, de penugem suave, embateu violentamente numa das portas de vidro do quarto. estava condenada, penso -- quero acreditar. taeko ter-lhe-á dado, talvez, o golpe final, mas não vejo sangue. abro mais os olhos, o pequeno diabo aloja-se nas pálpebras, aproveitando a cadência lenta da estrada secundária, que parece nunca mais ter fim. coruja, agora eu, se embater, quem me recolherá o corpo à mortalha?

30.5.17

anda comigo ver as baleias, disseste-me tu, sabendo da minha paixão pelos cetáceos. e eu fui, descalça, sentada no pequeno barquinho a remos que roubamos no cais. nunca te cheguei a dizer que nem sabia nadar.

28.5.17

é quando se avolumam  os nós gomilosos na garganta, que a raposa me recorda de que é preciso varrer o chão da coelheira. é remédio santo, não há recolha de dejecto animal que não me alivie o pensamento. 
são difíceis as manhãs de domingo, vazias de gestos na cama. os fardos, deixados ao acaso pelo restolho, lembram-me um rebanho de ovelhas amarelas, imóveis na candura do fim de maio. nada me interessa verdadeiramente, vou matando o tempo ao acaso, até que tu chegues e me venhas dar a mão.

26.5.17

o vento enrola-se nas ervas altas que ainda não foram cortadas e galopa o vale inteiro, exibindo-se. sinto o frio acariciar-me a pele suada e recolho-me ao quarto para me cobrir. respiro o silêncio da cama vazia, a brancura espessa das paredes, o metal rente ao chão. seria perfeito, se esta noite chovesse.

25.5.17

sim, sou a procrastinadora-mor cá do burgo e qualquer assunto me serve para empurrar a manhã com a barriga. além disso, tenho um berbequim dois pisos acima, que me está a deixar perigosamente irritada. é um daqueles bichos que pensa que berbicando mais devagar não incomoda tanto...
pois então, palmilhando a blogosfera para limpar a cabeça das vibrações ruidosas, encontrei este post da maria das palavras e bateu-me a nostalgia dos antigamentes. lembrei-me da primeira vez, na faculdade, que um cromo me tentou corrigir a natureza do calçado. ah, bons tempos aqueles, quando eu exibia a minha verve bocagiana, em resposta aos alcoviteiros tacanhos da capital.
depois a palavra embrenhou-se, as sapatilhas ficaram para o fim de semana, mais tarde já só nas férias, até que um dia, sem me dar conta (ai que raiva, o cabrão do berbequim!!!), me esqueci delas num canto qualquer. passei a ser, como tantos de vós, e já Socrates o grafitou na estação de metro, uma cidadã do mundo. na terra, gozam-me o sotaque de alface, em Lisboa, às vezes, ainda me vem o assobio à boca. faço parte da migração.
enquanto espero que o tanque do submarino se encha a três quartos, partilho consigo (está aí alguém, certo?) um blog da minha colecção de favoritos: EXTRAMUROS - A CHINA ALÉM DA CHINA
ainda sem um café que me valha, o telemóvel começa a tremelicar notificações -- dez tarefas em atraso! dez?! mas as cabras reproduzem-se de noite, esfregam-se umas nas outras? e o resto? como equilibrar os atrasos com o resto? adianto as atrasadas e atraso as demais? e o que tenho andando a esconder debaixo do tapete, enganando a assistente virtual? finjo que não está lá? porra, porra, porra!

/momento de pausa para respirar fundo, que ainda nem a remela lavei dos olhos/

23.5.17

em contemplação

Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.

/Húmus, Raul Brandão/

22.5.17

houvesse alguma coragem em mim
Truque Inoxidável

faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo, desenho faca no peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

- Hoje não matarás!


/al berto/

21.5.17

perder todo o tempo de que disponho.
penso praia, é suficiente para que o mar se esboce. penso cinza e surge um rosto de lume. penso vento e o sangue lateja. penso coração e voo com os pássaros. penso em ti e a noite é uma treva onde não me encontro. penso que não estou aqui e tenho-te até à exaustão dos sentidos.

/al berto, o medo/


da varanda chegam-me os pios das aves nocturnas.

20.5.17

do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes em claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.

“porque no fim se calam
as asas das borboletas, o irmão e as
          andorinhas
e é a minha vez de falar”


18.5.17

os astros todos alinhados, como dizem os entendidos da vida, eu ali, um quarteirão inteiro de tempo pela frente e um arrepio que julguei ser febre, do sol na cabeça. os deuses, possivelmente ofendidos com a minha falta de oferendas, arrastando os pés nus pela casa vazia, cuspiram-me na cara a vulnerabilidade de que sou feita. estava tudo ali, mas nada aconteceu. 
acordo de uma noite demasiado curta, cansada, quase perdida de mim. nem o café me resgata. o corpo mole desliza devagar, para que o desespero não se agite em demasia.
é a poesia que me salva.

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

17.5.17

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;


e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.



/o grito de MAP roubado daqui/

coisas simples, como tocar-te no braço, enquanto bebemos um café na esplanada.

14.5.17

...
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado


Carla Diacov
(in enfermaria 6)

13.5.17

parece-me entorpecida, esta blogosfera, arrastando os chinelos para o esquecimento -- morte de qualquer rede social. a blogosfera foi a sala de convívio dos que nasceram no século passado, ansiosos por falar, analisar, discutir, escrever. agora as conversas são outras, visuais e de poucas palavras. há bonecada que transmite mensagens como sinais de fumo, vidas inteiras contadas em álbuns, textos escassos. já ninguém lê.
a lapiseira morreu, viva a lapiseira.

já o poeta o tinha dito,
só morremos de nós mesmos.
Boris, o provocador, espera-me na cama. Boris não sabe ainda, mas não me deitarei com ele esta noite, não depois de ouvir de Zimmer. também não deitarei com Canetti, que me espera, amarelo, mesmo ao lado de Boris, tão-pouco me deitarei com a time out ou a courrier internacional. nem a Neruda, nem a Borges, nem a Ungaretti permitirei o meu leito.
esta noite, pela mão de Zimmer, deitar-me-ei, menina outra vez, com os meus demónios.

12.5.17

o
nosso
tempo
perdido


Afiar uma faca
é simples, tenho mais medo da memória.



/roubei a poeta, não o verso, aqui/
contou-me a raposa que no mundo de onde vinha, a religião era vivida em silêncio, no recôndito profundo da alma, onde habitava o deus de cada um. 

4.5.17

sem filtros (1 de 3)

astuta, a raposa convenceu-me a deixar a toca e a levantar voo na Blimunda. diz-me que há um mundo onde o sol brilha mais azul e os pés namoram a areia. nunca duvido de animais com pêlo cor de fogo.
até já.