23.5.17

em contemplação

Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.

/Húmus, Raul Brandão/

22.5.17

houvesse alguma coragem em mim
Truque Inoxidável

faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo, desenho faca no peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

- Hoje não matarás!


/al berto/

21.5.17

perder todo o tempo de que disponho.
penso praia, é suficiente para que o mar se esboce. penso cinza e surge um rosto de lume. penso vento e o sangue lateja. penso coração e voo com os pássaros. penso em ti e a noite é uma treva onde não me encontro. penso que não estou aqui e tenho-te até à exaustão dos sentidos.

/al berto, o medo/


da varanda chegam-me os pios das aves nocturnas.

20.5.17

do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes de claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.

“porque no fim se calam
as asas das borboletas, o irmão e as
          andorinhas
e é a minha vez de falar”


18.5.17

os astros todos alinhados, como dizem os entendidos da vida, eu ali, um quarteirão inteiro de tempo pela frente e um arrepio que julguei ser febre, do sol na cabeça. os deuses, possivelmente ofendidos com a minha falta de oferendas, arrastando os pés nus pela casa vazia, cuspiram-me na cara a vulnerabilidade de que sou feita. estava tudo ali, mas nada aconteceu. 
acordo de uma noite demasiado curta, cansada, quase perdida de mim. nem o café me resgata. o corpo mole desliza devagar, para que o desespero não se agite em demasia.
é a poesia que me salva.

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

17.5.17

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;


e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.



/o grito de MAP roubado daqui/

coisas simples, como tocar-te no braço, enquanto bebemos um café na esplanada.

14.5.17

...
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado


Carla Diacov
(in enfermaria 6)

13.5.17

parece-me entorpecida, esta blogosfera, arrastando os chinelos para o esquecimento -- morte de qualquer rede social. a blogosfera foi a sala de convívio dos que nasceram no século passado, ansiosos por falar, analisar, discutir, escrever. agora as conversas são outras, visuais e de poucas palavras. há bonecada que transmite mensagens como sinais de fumo, vidas inteiras contadas em álbuns, textos escassos. já ninguém lê.
a lapiseira morreu, viva a lapiseira.

já o poeta o tinha dito,
só morremos de nós mesmos.
Boris, o provocador, espera-me na cama. Boris não sabe ainda, mas não me deitarei com ele esta noite, não depois de ouvir de Zimmer. também não deitarei com Canetti, que me espera, amarelo, mesmo ao lado de Boris, tão-pouco me deitarei com a time out ou a courrier internacional. nem a Neruda, nem a Borges, nem a Ungaretti permitirei o meu leito.
esta noite, pela mão de Zimmer, deitar-me-ei, menina outra vez, com os meus demónios.

12.5.17

o
nosso
tempo
perdido


Afiar uma faca
é simples, tenho mais medo da memória.



/roubei a poeta, não o verso, aqui/
contou-me a raposa que, no mundo de onde vinha, a religião era vivida em silêncio, no recôndito profundo da alma, onde habitava o deus de cada um. 

4.5.17

sem filtros

astuta, a raposa convenceu-me a deixar a toca e a levantar voo na Blimunda. diz-me que há um mundo onde o sol brilha mais azul e os pés namoram a areia. nunca duvido de animais com pêlo cor de fogo.
até já.