6.6.17

leite e mel, de Rupi Kaur, parece feito de vidro prensado. mal começamos a mastigar as palavras e o sangue escorre pelos cantos da boca. fere. rasga. crava.



ele devia ter sido
o primeiro amor da tua vida
continuas à procura dele
por todo o lado

- pai



***


o primeiro rapaz que me deu um beijo
empurrou os meus ombros para baixo
segurando-os como se fossem o guiador
da primeira bicicleta em que andou
eu tinha cinco anos

os lábios dele traziam o cheiro
da fome que herdou do pai
quando se satisfazia em cima da mãe às 4 da manhã

ele foi o primeiro a mostrar-me que o meu corpo era
para servir aqueles que queriam
que eu me sentisse
tudo menos inteira

e meu deus
não me senti eu tão vazia
como a mãe dele às 4h25 da manhã


***


pai. quando telefonas não tens nada de especial para dizer. perguntas o que estou a fazer e onde estou e quando o silêncio se alonga como se houvesse uma vida inteira de distância entre nós eu trato de arranjar coisas para te perguntar. o que eu gostava de te dizer é isto. percebo que este mundo tenha arrasado contigo. não tem sido nada fácil para ti. não te culpo por não saberes ser carinhoso comigo. às vezes fico a pensar em todos os sítios onde te dói e que nunca contarás. eu venho do mesmo sangue dorido. do mesmo corpo tão desesperado por atenção que perco as forças. sou tua filha. sei que a conversa de circunstância é a única maneira que tens de me dizer que me amas. porque é a única maneira que tenho de te dizer.


***

os nossos joelhos
afastados à força
por primos
e tios
e homens
o nosso corpo tocado
por todas as pessoas erradas
que até numa cama segura
temos medo