29.9.17


para terminar, de uma vez por todas, com a ditadura mercantilista dos bloggers do costume, repetideiros enjoativos, plagiadores de segunda (quando não de terceira), supermamãs em fotocópia e donas de casa sem grande jeito,

nestas eleições, eu voto Palmier Encoberto


26.9.17

quando calha não haver batatas para apanhar, a enxada fica tombada a um canto e eu dedico me a lavar vidros nas lojas de lisboa. é raro alguém dar por mim, enquanto aplico a minha arte de ensaboar e limpar. Cirilo tem uma teoria para a minha suposta invisibilidade, as pessoas têm vergonha de olhar para quem limpa, porque se lembram que são umas porcas! não sei se será mesmo assim. Jasmim também contraria e insiste que a culpa está no tique snob dos citadinos, que constroem a sua hierarquia de sucesso baseada no uso profissional dado às mãos. portanto, conclui Jasmim, não é vergonha, Cirilo, é desprezo! seja o que for, não me interessa, respondo aos dois.
mas esta manhã, quando já tinha terminado a limpeza do pequeno espaço, bem no centro da cidade, e caminhava de mãos limpas para a rua, eis que uma senhora dos seus setenta prateados se me atravessa no caminho, em difíceis manobras com a porta de vidro. gentilmente, abro-lhe a porta, e, num sorriso genuíno, ofereço-lhe um bom dia. na sua toilete cuidada, onde nem as pérolas faltavam, olhou-me de alto a baixo e seguiu caminho. ui... pois que deve ter baixado em mim a gaja do cais do sodré em meias de rede e naifa no bolso, e sem me poder conter, atiro, e obrigada, também não sabe dizer, minha senhora?! aguardo. a madame, meio de esguelha, roda o torso esguio a quarenta e cinco graus e zinguerreia, sua mal-educada!
minha gente... a baiana rodou a saia toda nas minhas calças apertadas, um raio cegou-me os côncavos dos olhos logo ali -- e a velha máxima de não dar importância a quem não a tem foi aliviar a bexiga ao um silvado longe. em tom duas casas mais alto do que o razoável, dicção esmerada, respondo-lhe, mal-educada é a senhora, que sendo mais velha, devia dar o exemplo e nem agradece, nem cumprimenta. e já mais baixo, termino, pérolas a porcos, é o que é. e com este belíssimo acto de vida, abandono o local.
acabei por dar razão a ambos os rapazes...

25.9.17

Milu, quieta no canto do costume, pede-me um poema do livro preto, aquele que Milu jura ter sido escrito pela sua prima Alexandrina, em compadrio com o grande poeta: Aracne.


Olhar dentro do espelho deu-me ideias
do que seria um animal perfeito;
já penso transformar-me, ter maneiras,
asas talvez, ou tromba vigorosa;
dizer adeus aos fios, e adquirir
o encanto popular de um percevejo
ou o hieratismo de uma louva-a-deus.

Ser outro é privilégio de quem tece
na face do destino um transparente
véu, e ao vão casulo
prefere a superfície de uma folha;
com muito estudo, poderei crescer
até figura de homem, se me der
para ser a ti mesmo semelhante.

Perder amigos e vizinhos, ver
à minha volta um assustado espanto,
posso aceitá-lo, se for esse o preço
de uma forma mais fina e elegante;
só me custa deixar, no chão da teia,
a arte de inventar que me conheço.

Melhor seria que mudasses tu; mas,
metaformoso como és, não vais
cair na esparrela de trocar
o teu corpo que sabe a mar e luz
pela velha virtude de um insecto.

Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.


/António Franco Alexandre, Aracne/
ah, grande tragédia hoje a minha, de passo corrido, a cestinha a dar a dar, que o poeta não se há de demorar na bancada dos enchidos, cem gramas de fiambre são segundos a fatiar, e eu perdida nos iogurtes, tanto queijo, que perdição, e elas todas, fêmeas de almas insensíveis, encharcadas de volúpia, a dificultar-me o caminho. quando cheguei, numa das mãos a caixa das uvas sem grainha para lhe oferecer, creio que ainda o vi, perdendo-se na multidão do frango assado com molho de limão e piripiri caseiro. foi então que a cigana se me chegou, menina, diz-me quanto custa este pão, que eu não sei ler?, e eu, tomada pela cara envergonhada da mulher, deixo escapar de vista o meu doce poeta e avanço para a prateleira.
Para trás ficaram portos,
ilhas,
lembranças,
cidades,
estações do ano.
à atenção do leitor inventado:

nestes dias, semanas já, de canseira e pó da terra,
nada de mais admirável há a registar,
para além do costume na apanha da batata,
miúdas p'ra um lado, grossas p'ró outro,
pegar com gentileza para não maçar,
lembro o voo nocturno de um morcego,
[tão pequenino, o morceguinho]
que há duas noites apareceu no meu quarto.

mamíferos os dois, ele de preto, eu tão nua
rodopiámos pela casa inteira,
até que, à porta aberta, no final da dança,
ele partiu,
eu fiquei.


bem-haja, amigo leitor, mesmo que inventado,
por estar desse lado,
e ainda se encantar.

17.9.17

POSTSCRIPTUM

vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo
Vivir consiste en ir perdiendo cosas:
el timón del aire en los cabellos, los amores,
los recuerdos, los remos de los días felices.

Al decirles adiós con la mano dejamos
en el aire la cáscara de la despedida,
vemos pasar sin nadie las bicicletas
camino del óxido, ardiendo sin sonido.

Otros inviernos han cegado las linternas,
apagado los prismáticos y nos hallamos más lejos.

La cerveza de jengibre la bebió el sol del ocaso
y el pastel de carne, como a la infancia,
se lo han comido las moscas.


/Última mirada a la isla de Kirrin/

12.9.17

o narrador abana a cabeça, desiludido. nada daquilo fazia sentido. ninguém se dignava a contar a verdade, enrolando a história em infames contradições.
talvez J. Eustáquio de Andrada ainda consiga pôr mão em tamanha embrulhada....




[não aceito notas negativas, azedumes e maus olhados, muito menos criticas construtivas, à troca de bola, passe curto, bem sei, que aqui fica. quem não gostar que venha apanhar batatas comigo!]

11.9.17

All animals are equal but some animals are more equal than others.

10.9.17

Toda a gente gosta dela, da Tamina. Porque sabe ouvir o que lhe contam.
Mas ouvirá realmente? Ou limita-se a olhar, tão atenta, tão silenciosa? Não sei, e não tem muita importância. O que interessa é que ela não interrompe. Sabem o que acontece quando duas pessoas conversam: uma fala e a outra corta-lhe a palavra -- É exactamente como eu, eu...

/O Livro do Riso e do Esquecimento/
um domingo livre de vez em quando, foi a única exigência a si própria. hoje calhou ser esse domingo.
dormiu.




obrigada, nativos.
admitiu que o isolamento em que procurava a paz podia ser tão perigoso como um abismo.

às vezes sou nada mais do que lodo
um nauseabundo lodo parado

9.9.17

aviso amarelo de vento no ecrã,
mais um dia para ter cuidado com os atiradores de facas

7.9.17


Gerda Taro e Robert Capa


To photo, to record meat lumps and war,
They advance as does his chance -- very yellow white flash.
A violent wrench grips mass, rips light, tears limbs like rags,
Burst so high finally Capa lands,
Mine is a watery pit. Painless with immense distance
From medic from colleague, friend, enemy,
foe, him five yards from his leg, From you Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
3:10 pm, Capa pends death, quivers, last rattles, last chokes
All colours and cares glaze to grey, shrivelled and stricken to dots,
Left hand grasps what the body grasps not -- le photographe est mort.
3.1415, alive no longer my amour, faded for home May of '54
Doors open like arms my love, Painless with a great closeness
To Capa, to Capa Capa dark after nothing,
re-united with his leg and with you, Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
Hey Taro!
ainda vinha a guerrear comigo, a tentar-me convencer-me de que o gatinho junto ao portão aberto, tinha mãe e donos, que com certeza haveriam de tomar conta dele, e voltar a trás e roubar o gato não seria um salvamento, seria sim estranho -- mas o pobre tão rente à estrada... --, quando o vejo, altivo, em cima do muro, à minha espera. corto gatês, o meu querido gato cinzento, pirata intrépido das searas, doce animal. é raro o dia em que chego a casa e corto gatês não está para me cumprimentar, mesmo chegando eu tão tarde, mesmo chegando já tão poucas vezes. 
invejo o homem a quem pago para vir todos os dias.

4.9.17

é simples, basta que te dispas, me abraces e te deites comigo.

2.9.17

daqui a pouco farei a mala para partir novamente. vale-me a roupa comprada à pressa na superfície comercial da vila, como quem compra um pacote de leite num domingo de manhã. na sala das máquinas, pode dizer-se que o monte atingiu proporções épicas. ainda preciso de ir ao supermercado no instante comprar comida para os animais, pondero um banho de chuveiro. em cima da mesa da cozinha, jazem já os cinquenta euros para pagar os serviços de pet sitting. se morrer na estrada, este blog ficará ao abandono, se voltar, será como se nada tivesse sido e a única preocupação há de ser lavar toda aquela roupa suja.

1.9.17

Sonhando, as árvores crescem ao contrário.