26.9.17

quando calha não haver batatas para apanhar, a enxada fica tombada a um canto e eu dedico me a lavar vidros nas lojas de lisboa. é raro alguém dar por mim, enquanto aplico a minha arte de ensaboar e limpar. Cirilo tem uma teoria para a minha suposta invisibilidade, as pessoas têm vergonha de olhar para quem limpa, porque se lembram que são umas porcas! não sei se será mesmo assim. Jasmim também contraria e insiste que a culpa está no tique snob dos citadinos, que constroem a sua hierarquia de sucesso baseada no uso profissional dado às mãos. portanto, conclui Jasmim, não é vergonha, Cirilo, é desprezo! seja o que for, não me interessa, respondo aos dois.
mas esta manhã, quando já tinha terminado a limpeza do pequeno espaço, bem no centro da cidade, e caminhava de mãos limpas para a rua, eis que uma senhora dos seus setenta prateados se me atravessa no caminho, em difíceis manobras com a porta de vidro. gentilmente, abro-lhe a porta, e, num sorriso genuíno, ofereço-lhe um bom dia. na sua toilete cuidada, onde nem as pérolas faltavam, olhou-me de alto a baixo e seguiu caminho. ui... pois que deve ter baixado em mim a gaja do cais do sodré em meias de rede e naifa no bolso, e sem me poder conter, atiro, e obrigada, também não sabe dizer, minha senhora?! aguardo. a madame, meio de esguelha, roda o torso esguio a quarenta e cinco graus e zinguerreia, sua mal-educada!
minha gente... a baiana rodou a saia toda nas minhas calças apertadas, um raio cegou-me os côncavos dos olhos logo ali -- e a velha máxima de não dar importância a quem não a tem foi aliviar a bexiga ao um silvado longe. em tom duas casas mais alto do que o razoável, dicção esmerada, respondo-lhe, mal-educada é a senhora, que sendo mais velha, devia dar o exemplo e nem agradece, nem cumprimenta. e já mais baixo, termino, pérolas a porcos, é o que é. e com este belíssimo acto de vida, abandono o local.
acabei por dar razão a ambos os rapazes...