22.10.17

yukiko é sempre a primeira a levantar-se para regressar, só depois de a ver percorrer alguns metros é que taeko se ergue da cama improvisada nas ervas. conheço-lhes o caminho, tenho cerca de três minutos para acabar este texto, se vierem sempre a direito. três minutos para dizer alguma coisa que valha, antes que yukiko e taeko entrem pela porta de serviço. enquanto procuro as palavras certas, - ou certeiras, dir-me-ia o Damas, se tivesse dormido comigo esta noite, mas faz tempo que não vem -, para limpar a névoa densa que se instalou no meu sorriso. a manhã está fresca, mas cá dentro, com o sol a lamber-me as pernas e o cheiro do café por beber, só a alma se mantém agasalhada. caminham lentamente, as minhas andorinhas gordas, vejo-as daqui e continuo a teclar. marlon brando, atrevido, aproveitou a porta aberta e passeia seguro pela casa inteira. sacana do gato: lá pra fora, marlon brando! podem vir cansadas, mas taeko não resistirá à infrutífera perseguição. marlon brando, na sua passada gingona, vai-se embora apenas porque quer. resta-me pouco tempo, melhor será que comece já a escrever alguma coisa do que quero dizer. não é fácil apalavrar a saudade do corpo que renasce na mão do outro. a distância corrói-nos as certezas, palavras do Damas, ámen. yukiko chegou, feliz na sua canseira, e pede-me todos os mimos a que tem direito. eram tres minutos -- sem acento, que teclo apenas com o indicador direito.