26.11.17

"julgo-me oculta no lugar mais obscuro e escondido desta cozinha, e gozo o esplendor da luz do fogão que é o espelho humano de uma estrela: -- que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?"


/Um Beijo dado mais tarde, de Maria Gabriela Llansol/
Há noites em que ainda acordo com o som da madeira do armário a crepitar, a roupa em labaredas, os livros da biblioteca. Estou dentro de um mar de chamas, enfeitiçada, o fogo circundando-me, e não consigo gritar. 

25.11.17

Quando finalmente deixou o corpo afundar-se na água quente, os braços já não lhe doíam do peso da terra cavada à força.

18.11.17

como nos homens,
encontra-se às vezes nos gatos velhos
uma infância luminosa, 
guardada no brilho
do olhar
e no recolher de cada garra.
a vida não é só isso, Alicinha. ouve o que te digo. as baleias cantam no fundo dos mares, há peixes que voam e aves que mergulham, há um mar vivo que está morto e há mortos que vivem em nós, há a aurora boreal e o arco-íris, os fiordes, os corais e as grutas, os beija-flores e as tartarugas. há as papoilas e as rosas mosqueta. e há o sexo, Alicinha, corpos que se entregam, enquanto recebem, almas que se desejam, o universo em suspensão. não vês tu tudo isso? estarás cega? estarás viva?
Petra decidiu outra vez que perguntar a cada um de nós qual o presente que deseja para o natal é a melhor forma de nos fazer felizes. todos, menos Petra, odiamos o natal e ouvir falar dele ainda em novembro deixa-nos irritados e carrancudos. mas Petra é a nossa mãe adoptiva e nós somos o seu filho morto. ninguém nega uma palavra a Petra. fechamos os olhos por um momento e iniciamos o rol: algodão-doce! o perfume da avó! o rádio do avô! maçãs caramelizadas! chuva! sim, chuva! um escape para a mota! um corta unhas! não, antes uma motoserra! papel prensado com urzes e rosmaninho! ou então umas luvas de lã de alpaca. ou um poema abstracto. cerveja! mel! pão! hibisco! uma máquina voadora! tomate holandês! um papagaio! uma cabeça nova! uma vida nova! esquecer! recomeçar.

16.11.17

Lucky Blue, moi-même, estacionou Jolly Jumper no parque adjacente, afagou o pelo eriçado de Milu, sempre atenta, e prepara-se agora para cavalgar as ondas marinhas deste novembro aquecido.

não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Milu, a intrépida, na orelha de Jolly Jumper.

a aranha do meu destino

15.11.17

eu, Lucky Blue, galgando no meu Jolly, a caminho do nono andar. por esta altura, já Milu, a aranha mais sábia do oeste e do mundo inteiro, deglutia o terceiro morcão com asas.


São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

sou uma espécie de Lucky Luke das limpezas de janelas, no meu Jolly Jumper de quatro rodas, levando Milu em vez de Rantanplan. uma cavaleira solitária, erguendo-se com a madrugada.


o passado é um país distante



12.11.17

talvez as minhas mãos sejam de fada, alguma fada desaparecida no tempo, escondida numa gruta de musgo, já muito velha, e que agora me empresta as suas mãos, envoltas em mil movimentos de magia. uma fada cuidadora, que pacifica, acalma e prepara as almas para o destino.
desta vez, pratico também os procedimentos da ciência, desobstruo cateteres, aplico dosagens no soro, meço temperaturas e tudo o mais que for surgindo. mãos de fada, confirma-me o cuidador dos corpos, e eu, de corpo e alma, agradeço à natureza. 

10.11.17

coragem? coragem é mais do que isso, respondo eu. coragem é andar na montanha-russa, para quem sofre de vertigens, terminar uma relação com alguém que tem uma arma em cima da mesa, ditar o fim da linha dos que amamos. o resto não é coragem, é a vida, empurrada como se pode.


preciso urgentemente de não morrer.

6.11.17


#és um hipócrita, Paddy €€@@@€€
se pudesse - como se num conceito pós-moderno de férias -, ficaria durante uns tempos em Niflheim, observadora atenta e discreta, apreciando a cumplicidade e a ternura daqueles dois. faria com eles os caminhos dourados do outono, ora subindo à serra, ora rumando à vila, bebendo chá, ouvindo a poesia das suas palavras simples e comendo dos seus cachos de uvas.
preciso de aquecer o coração.

5.11.17

regresso a casa, mãos dadas com Gógol, e encontro Velho, o gato, pela primeira vez desde que nos conhecemos, recusando-se a comer, prostrado, urinando-se na cama. neste círculo natural da vida, sei que mais tarde hei-de acreditar de que lhe dei uma boa segunda vida e a melhor velhice que pude, mas por agora, que assisto à decadência do corpo magro do meu querido gato, fico à mercê desta sombra pesada que me nasce por dentro, envolta na mortalha da morte.  

2.11.17

mais do que a mão, que entretanto inchou, o que me me dói é o peito de já não poder mais.

1.11.17


-- e nós, porque é que temos de continuar a trabalhar tantas horas todos os dias?...

-- porque queremos ser livres.
será, espero, a última carta dirigida à Dr.ª Vendredi -- os Senhores Doutores mantêm o formalismo até com os defuntos; não me admiro: ninguém muda, no que à conduta diz respeito. pedem à pobre que se manifeste, desconhecendo do poiso de onde se empoleiram que a pobre morreu sem dar cavaco a ninguém. por respeito à amizade que nos uniu durante tantos anos, repletos de sonhos, planos, enganos e desenganos à paulada, decidi hoje - dia dos mortos - entregar a alma de Vendredi à paz que a pobre merece e responder aos Senhores Doutores:

Caríssimos,
Ilustres Senhores Doutores,
Incapaz de alcançar a vossa magnificência, de entender a vossa sabedoria e, sobretudo, de servir às vossas necessidades e imitar a vossa postura, a Dr.ª Vendredi suicidou-se.