31.12.17

2017

foi o ano em que matei Vendredi, uma rapariga feia de bom coração, frustrada, refém, como milhares, a um sistema podre, em constantes remoinhos de esterco. a morte de Vendredi, um tiro no escuro profundo, um salto longo fora da caixa onde se deixou empacotar por amor à arte, foi - e será sempre - um dos acontecimentos maiores da minha vida. não se mata alguém sem sentir a lâmina da navalha cravada ao que foi e ao que podia ter sido, mas principalmente ao que será. carrego um cadáver ainda, que não sei esconder.

foi também o ano em que perdi Sr. Gato, o Velho, que tentei manter vivo até à exaustão das suas forças - e como era forte o meu Gato. foi ele que pediu para o deixar partir, recusando toda a boa vontade, e eu chorei e cedi. depois, arrastei-me até onde repousa Malaquias, o grande cão preto, e cavei, debaixo de chuva, a pequena cova onde entreguei o seu corpo à terra. tombei então como uma criança e solucei em total abandono.

com a morte de Vendredi e do Sr. Gato, foi-se também uma boa parte de mim. não deixei de saber andar, mas piso ainda as ervas altas e os arbustos, de onde terei de fazer novos caminhos. estranhamente, ou não, é do Sr. Gato que mais me lembro, confesso que às vezes ainda o ouço miar. jamais voltei ao local onde conheci Vendredi.