28.12.17

tenho pelas osgas especial carinho. é verdade, não se espante o leitor se um dia destes lhe repetir, encantada, o salvamento caseiro que em tempos proporcionei a uma família tradicional e numerosa, que habitava, tranquila, um pequeno barracão de madeira abandonado, destinado ao fogo da lareira. muito antes do Sr. Palomar me contar que todas as noites ele e [a senhora Palomar acabam por afastar os cadeirões da televisão, colocando-os ao pé do escaparate; sentados no interior da sala, ficam a contemplar a silhueta esbranquiçada do réptil sobre o fundo escuro. A opção entre a televisão e a osga nem sempre é feita sem incertezas; cada um dos espectáculos fornece informações que o outro não dá: a televisão move-se pelos continentes, recolhendo impulsos luminosos que descrevem a face visível das coisas; a osga, por sua vez, representa a concentração imóvel e os aspectos escondidos, o outro lado daquilo que aparece à vista], já eu me encantava com tão rugoso réptil.
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.


fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:

«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»


/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/


{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}