28.12.18

Pierre Pellegrini




































o inverno
queima as feridas
de branco

27.12.18

entretanto, vamo-nos rindo das verdades embrulhadas em fake lies...
passámos então ao plano, era necessário defini-lo, fazê-lo ganhar corpo e arredondar-lhe as arestas, tinha de ser um plano tão fácil de engolir como qualquer outra mentira. Cirilo queria alterar as percentagens, argumentava que a falta de realidade, a demasia na expectativa só nos tem trazido problemas. Bartolomeu contrapunha, não pode ser, sem expectativas, não passamos de um bando de fazedores até ao dia em que não encontrarmos nada mais para fazer. temos de criar as oportunidades, mais do que apenas esperar por elas. o resto do bando permanecia calado. Petra e Tristan já não acreditam no sucesso do grupo, mas são incapazes de o abandonar. Jasmin é demasiado novo para se preocupar com o futuro. Sophia já raramente aparece. todos sabemos que o novo ano que se aproxima é um ano decisivo, uns esperam finalmente a morte e a ressurreição, longe deste lugar, outros, doentes talvez, ainda acreditam que a sorte virá montada num javali.

13.12.18

— fechàporta, urso!, e aplica-lhe um calduço sonoro. o outro foge, — porra, pá, que m'aleijaste! és doido?! — atão mas já vamos embora, tão cedo?, e olha para mim. 
encolho os ombros — tenho os pés gelados.
Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.

José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid 1927
Gulbenkian
|que bando de pândegos, os Orpheu: "Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas"|


vale mais um beijo na boca do que toda as histórias de encantar.
Milu




Milu, a aranha que tecia as minhas memórias no tecto do submarino em tempos idos, veio ter comigo à cozinha. arrastava debaixo das patitas arqueadas dois grandes pêlos caninos, resultado dos múltiplos pinotes, sôfregos por lambeduras, das ursas pardas. que contentamento foi, confesso, ver a pequena atravessar o grande deserto sob a mesa de pedra mármore. parei o exercício da vassoura e sentei-me à conversa com ela. Milu pareceu-me em excelente forma, redondinha, alimentada na penumbra das infinitas divisões do palácio. sem receio do telemóvel que lhe apontei ao traseiro para registar a imagem, Milu deixou-se ficar quieta, vaidosa da boa pose. e o que era feito de mim, perguntou-me em feixes de ondas telepáticas, que já não escrevia nada, nem sobre ela, nem sobre coisa nenhuma. e que sei eu, Milu, se a vida me escorre por entre os dedos, rotos de cansaço, e as palavras se findam na lamúria dos dias difíceis. tu bem sabes, querida Milu, que me enfastio de mim em demasia. 

mas Milu não é bicho para se deixar apiedar pela conversa tremelicada do costume e em aparente desagrado retoma a marcha ligeira, abeirando-se da catacumbas do frigorífico fantasma. não fosse Milu e a sua forma prática de se fazer ao chão da vida e ainda não teria sido hoje o dia em que aqui voltaria, obrigando-me a saber de mim.

13.11.18

é uma vontade de desistir, sim, desistir sem explicações, acabou, fui, não dá mais, mas não te preocupes, que não tenciono matar-me, e eu lá teria coragem para tanto, já me conheces, sou das que mirram, das que fogem, não, nada de dramas, era desaparecer da cidade, desta gente toda igual, falando merda, vendendo merda, parecendo merda, sendo merda; estou farta, sim, farta de andar todos os dias o mesmo caminho que não me leva a lado nenhum, apenas cimento e contas e imperativos, e eu nada, sem respostas, sem merda nenhuma, eu quero é o campo, o campo aberto, o mato, as ervas altas, a lama, o vento, os pássaros, os bichos todos e os livros, sim, os livros, pequenos livros de contos e de poesia, pouco mais, e quando os livros não forem fogo e mel, abandono-os ao pó, visto o casaco azul, calço as botas velhas e desço a ladeira com os cães. não tenho filhos, findarei em mim, louca, calcorreando os montes, sorrindo aos rebanhos, voando no voo do falcão, longe, à procura da minha mãe.
Preciso Me Encontrar



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
...

8.11.18


Nature Morte, 1931
sempre que vou abastecer Jolly Jumper de fardos de palha, peço ao homem simpático que me venda apenas o combustível e fique com o imposto. ele ri-se, mas eu insisto: a sério, já tentei, mas Jolly Jumper é um equídeo esquisito, não há meio de digerir essa porra. não sei se o expele em valentes bufas esverdeadas, mas galopar com isso é que ele não galopa, nem a trote, quanto mais. ora isto assim é uma estragação, mais de metade da palha que lhe estou a comprar não serve sequer para fazer esterco. um bocadinho até concordo, que é preciso ajudar a malta, mas assim, caramba!, é um assalto à mão armada! o homem, ainda de pistola na mão ri-se, mas olhe que não sou eu! diz que tem que atestar sempre primeiro com o imposto e só depois a palha. são ordens. mas você não vê que o bicho já está velho, a quinta ainda não dá quase nada e isto assim é morte certa, apelo-lhe ao coração. encolhe os ombros e responde-me baixinho: é tudo uma cambada de ladrões, fazer o quê? isto só lá ia com gente nova, mas a gente nova quando lá chega fica igual. é o mecanismo a girar, não tem fim, é uma coisa infinita. É um modo de funcionamento que se auto-alimenta, e expele, cospe o que não faz parte dele. O mecanismo está em tudo. Do governo federal ao seu João. No macro e no micro. É um padrão.



“Os combustíveis estão sobrecarregados há muitos anos. Mas de 60% do preço dos combustíveis são impostos. Um litro de gasóleo custa menos de 40 cêntimos, tudo o resto são impostos, ISP e IVA”

|29.10.2018|

5.11.18

«Aqueles pobre Monstros viviam em abrigos e cabanas, que estavam sempre cheias de lixo e cheiravam mal, porque tão simplesmente lhe faltava o jeito para os manter em ordem.»

A Fenda, Doris Lessing

[os Monstros, logicamente, são os homens, mais tarde apelidados de Esguichos]


 «Cada mulher tem em si a capacidade de ser quem cuida da casa.»

Padre José Rafael Espírito Santo, Opus Dei

1.11.18

enquanto vou recolhendo as fardas secas do estendal, lembro a história de cada uma delas. são as mais antigas que mais me emocionam. de um tecido barato e reles, foram compradas numa dessas lojas de origem espanhola numa altura em que eu tinha pouco dinheiro, pouquíssimo, se quisermos ser mais apurados. não que a situação se tenha invertido o suficiente que desejo para a minha estabilidade  financeira, mas, dentro das lojas de fast fashion, consegui subir um degrauzinho na qualidade. eu sabia que matar Vendredi me iria debilitar as posses económicas, as quais desde sempre defini como a base de sustentação da minha independência. mas, contrariamente aos que me julgam uma capitalista sanguinária, o dinheiro nunca foi o objectivo, antes a ferramenta. a farda velha, que ainda uso, sem que por isso me sinta constrangida, lembra-me do quanto lutei para chegar aqui de pé. felizmente, nunca me assustou não ter croissants, que adoro, o único receio é deixar de ter pão. enquanto isso, sobrevivo de cabeça mais limpa. 
por mais repulsa que lhes sinta - e sinto tanta! -, todas as manhãs em que me dirijo ao barracão, já sem nenhum espécime viscoso à vista, tento imaginar o rastejante cortejo na sua lenta debandada para o covil. a que horas começarão elas a deixar de engolir a comida seca dos gatos - ver uma lesma com uma bola dentro da boca é o expoente máximo da minha náusea - e darão meia volta iniciando o rastejo de regresso? presumo que o momento seja calculado com base no crescendo de luminosidade, mas a verdade é que, enquanto não dedicar uma das minhas noites à experiência, nunca o saberei. embora a curiosidade se tenha agarrado a mim com uma lapa, temo não ter sangue-frio suficiente para resistir à imagem de tanta viscosidade junta. 
não pensem mal de mim, não alimento este preconceito sem alguma mágoa, não esqueço que somos todos oriundos da mesma mãe natureza e já tentei por várias vezes ultrapassar este asco observando a mesma lesma durante muitos segundos, mas há algo demasiado entranhado no meu cérebro, quem sabe memórias ancestrais de lesmas pré-históricas do tamanho de dinossauros, que não me deixa superar este nojo continuo e profundo. 
as lesmas são o meu limite em termos de tolerância à viscosidade animal, mas também abomino os caracóis - só de pensar em comê-los, sinto um refluxo gástrico potente - e as minhocas. este problema com os invertebrados existe desde que me conheço. talvez a coisa, obscura, aceito, se curasse com algumas sessões de hipnoterapia, mas suspeito que uma vez aberta a caixa de pandora a minha repulsa doentia às lesmas seria um dos meus menores problemas, ainda assim gigante.
às vezes, quando vejo as lesmas pequenas, apelo ao meu instinto maternal, o mesmo que me faz enternecer quando vejo uma família de osgas com as suas osguinhas pequeninas, e chego a ter vergonha da minha frieza. também não gosto das lesminhas...

29.10.18

e tu, flor, o que fazes numa noite fria e chuvosa de segunda feira? pintas as unhas como a outra senhora na assembleia? vês netflix? passas a ferro os pijaminhas e as meinhas de lã?

....

aprendo a caçar lesmas no google.
não posso mais com esta praga de invertebrados hermafroditas viscosos! está me a dar cabo dos nervos!!
Sophia continua de cara fechada, justificando-se com a constipação que lhe ataca especialmente o nariz. sei que não será apenas isso, mas aceito a fuga. gosto de Sophia talvez como se gosta de uma irmã mais nova, falta-me às vezes a paciência para o seu mau-humor, mas continuo presente, por vontade, na sua vida escassa de contacto social. durante muito tempo, revia-me em Sophia, no seu comportamento destrutivo, na sua busca desesperada por afecto. a falta de um pai transformou-nos em mulheres amargas. a diferença entre nós, sei-o agora, é que aos mortos tudo se perdoa mais depressa.
Escritora inglesa, nasceu em 1919, no Irão, mudando-se, aos cinco anos de idade, para o Zimbabwe. 

daqui

Doris Lessing, é por ela que ando apaixonada, leio-lhe A Fenda, uma 'comunidade pré-histórica é exclusivamente consistida por mulheres, que não conhecem homens nem deles têm necessidades'.

Fendas&Monstros

27.10.18

componho a loiça que seca no pequeno escorredor da copa, /encaixar as chávenas molhadas umas nas outras não é a melhor ideia/, inclinando-a, para que seque mais rapidamente e agradeço a Cirilo pelo trabalho feito. Cirilo, à sua maneira, sem hábitos do(e) género instituídos, bem pelo contrário, tem lavado a loiça toda amiúde, e não apenas a sua, como compete a cada um no bando.

moral da história: não é com vinagre que se apanham moscas ou de como as pequenas coisas mudam o mundo ou ainda de como todos gostamos de uma palavra de incentivo
talvez o vento que despenteia as árvores do jardim tenha descido pelo cano do exaustor e depois atravessado o tecto falso, não sei, nem me dei ao trabalho de confirmar. o som, delicado e continuo, lembrou-me o repique dos sinos, sinos de cristal, copos que não parti, nem dei, mas que não uso. não deixa de ser irónico - e tão irónica tem sido a vida, meus caros -, que agora me comova com a música singela dentro do armário, quando há muito me desfiz de quase tudo o que não uso, porque a beleza da vida sempre a percebi nas coisas vivas. digo mais, tantas das coisas que tinha as tinha apenas para estar em sociedade, calar bocas demasiado insistentes, não destoar do padrão. pois então, se dei uso aos belíssimos vista alegre, pintados de cidades, para que os gatos comessem a ração, se deitei a uso corrente pequenas colheres de prata para que desconhecidos mexessem o café, que sentimento é este de me sentir emocionada ao simples toque de alguns copos de cristal?

20.10.18


gild assembly, Billy Kidd

16.10.18

ah, senhores! o cheiro da terra molhada, húmus, água, erva, fruta apodrecida, anis-estrelado, tudo por entre o verde que brilha logo pela manhã, quando todas as aves se reúnem para os primeiros ensaios...  

15.10.18

sei que Tristan tem razão, a culpa, a que ele prefere chamar de responsabilidade, é minha, fui eu que decidi acreditar que ainda podia salvar o ano. deixei que a luz do sol me namorasse, analisei os números com a pele acariciada pela volúpia do calor. quão irónica pode ser às vezes a vida, que até do corpo me escoou a vitamina. estúpida, é isso que sou. acreditar que o último trimestre nos traria a salvação. Bartolomeu contrapõe, dizendo que não conhece ninguém que avance sem tropeçar, por vezes nos seus próprios passos. é necessário acreditar que o melhor virá, a chuva há-de parar. agradeço-lhe as palavras, amigas, mas não as engulo. culpa minha, que não tive a coragem, devíamos ter alterado a rota do navio, logo que o vento começou a amainar. continuo com este defeito de astrologia barata entranhado na carne, demoro séculos, demasiadas vidas, a desistir do que não vinga. 

14.10.18

Megan Lorenz















mochos, corujas, morcegos,
noitibós pequeninos,
animais nocturnos voadores
são a minha felicidade.





|para a Bela Teresa|
cavalguei o Leslie sem arreios, nem medos, a cautela é valentia dos frouxos e eu, esta noite, soltei os cabelos à ventania. aos seus assobios de réptil gigante, respondi com gargalhadas infindáveis, geradas em várias doses de conhaque - aquele que estava guardado por uma ocasião especial. que me destruísse a casa, que violentasse as árvores maiores, os caixotes do lixo, os vasos, as vassouras. que me levasse em rodopio para a morte certa, mas não haveria de me cheirar o medo na urina.
catorze de outubro de dois mil e dezoito, na graça de deus e de todos os vizinhos alarmados que saíram de casa domingo cedo para ajudar na remoção dos destroços. o meu filho mais velho, joão pedro miguel, faz-se homem e ajuda acarretar os galhos partidos. enquanto finjo pesquisar o número da epal da região, corro a internet em busca de notícias frescas. sinto-me um abutre. ou talvez exagere, o que procuro é a companhia de outros pobres infelizes a quem o vento também tenha levado as telhas e a segurança calafetada em que vivíamos, para que possamos confortar-nos nas nossa miserabilidade conjunta. joana patrícia, a minha mais nova, gasta-me o nome, enquanto marfa o segundo molete com manteiga: Ómãeeeeeeee! 
não saio à rua, mesmo que a rua seja minha, sem dar um arranjo no visual, ao menos limpar o negro dos olhos que ontem não desmaquilhei, o cabelo amarfanhado em ninho de ratos disfarça-se com um elástico da joana patrícia e o mau hálito leva com um cigarro em cima, depois um café. não sei se ao contrário evitava a úlcera, mas o prazer que me dá a nicotina em jejum é quase um orgasmo, não dá para parar só porque faz mal. a miúda, cujas goelas deve ter herdado da avó, continua a chamar, ora por mim, ora pelo irmão. joão pedro miguel não lhe liga, tão entretido que anda a fazer-se crescido juntos dos mais velhos, ajudando em tudo. nunca vi uma criança com tanta vontade de ser grande, desconfio que deve estar farto de mim e da irmã e logo que possa foge de casa.

2.10.18

Deixar de escrever é muito isso, deixar de querer, condenar ao silêncio as palavras é convidar para dentro o vazio. Porta cerrada, entretanto, torna-se o hóspede em invisível carrasco.

- Lady Kina - 
Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

25.9.18

Gao Xingjian
























caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?

chegaremos

24.9.18

não somos feitos de medo, diz-me Bartolomeu, quando percebe que há lágrimas que teimam em rolar desde manhã. Petra, que não vejo há vários meses, ter-me-ia abraçado, dizendo-me que está tudo bem,  provavelmente não deve ser nada. Bartolomeu, adivinhando o meu pensamento no silêncio com que lhe respondo, regressa à secretária e conclui, ainda é muito cedo para ter pena de ti.

22.9.18

o equinócio bateu-me à porta, bafejando vapores do caldeirão, e eu continuo branca como a cal da primavera, excepto estes longos braços escanzelados e a fronha rafeira. dizem as revistas de especialidade que este é o momento para nos desprendermos do que está maduro, folhas, frutos, projectos de vida, colhermo-nos a nós mesmos. eu, descrente desde o berço, onde mijei até tarde, deixo-o entrar. sei que traz consigo o início do fim e do meu lado nada há para parir. ano fodido este, sim senhor.
pois muito bem, lançado o repto do Ouriquense e seguindo a genial Tetisq, não posso deixar a oportunidade de penizar este blog fraquinho e murcho.

ergam-se os falos dos anjos, porque o do diabo já cá está.

 Robert Mapplethorpe

derramam gozo em carne madura, pingando fios de mel, translúcidas gotas que adornam o orifício sagrado.

16.9.18

Amar? 
Para quê? 
Por um tempo, não vale a pena. 
E, para sempre, é impossível. 


/Alexander Pushkin/

14.9.18

fez o ninho nas minhas coxas, onde se enroscou de azul estrelado e toda a noite me aqueceu. acordei com ele bicando-me os figos maduros.

13.9.18

só me dou conta da estupidez do que digo, /até pedi um desejo/, quando Damas se ri de mim. o que inicialmente acreditei ser uma estrela cadente, mas logo percebi que um rasto de luz que se transforma numa bola de fogo tem de ser coisa diferente, será tão somente lixo espacial. 

12.9.18

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.


Nagib El Desouky

11.9.18

deste vez fui sozinha, Cirilo nem se atreveu a questionar a minha decisão. atravessei a cidade com Jolly Jumper a pedir um fardo de palha, mas com boa-vontade e o freio a meio gás lá se aguentou até ao estábulo mais próximo. a pé desde cedo e de estômago vazio, ainda parei num salon desses da moda, onde filas intermináveis de turistas provam as iguarias mais típicas de lisboa, e debiquei junto deles um pastelinho com bica a correr. atravessei umas quantas ruas, galguei alguns degraus e virei a esquina. a toca do velhaco estava mesmo ali em frente, com vista para a praça. tinha pressa em resolver a questão, por isso avancei o mais rápido que pude, quase arrastando o casalinho de franceses apaixonados por uma vespa verde tropa, estacionada no passeio. pardon, i'm sorry, já se arredavam, não? 
sabia exactamente cada palavra que ia dizer, por onde começar, como demonstrar o que tinha de ser, encostá-lo à parede com a realidade certeira. sentia-me confiante da vitória. o azul escuro dava-me um ar profissional, estava com boa cara, o cabelo arrebitado num rabo de cavalo perfeito, a sobrancelha, à linha, devidamente arqueada, o sorriso no ponto certo. vamos lá então, envergonhar aquele cara de cu e obrigá-lo a puxar da carteira.
não foram precisos nem trinta segundos a caminhar pela praça, para sentir o sabor amargo da derrota. uma nesga da janela rasteira e um papel torto onde alguém tinha escrito: Fechados para férias até 24/09... ¡cabrón!... 

10.9.18

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona. 

 Luís Miguel Nava

8.9.18

da conversa entre Mariana Oliveira e Isabel Lucas, no paraíso perdido de ontem, na antena 3, ficou-me esta frase [que hoje recupero no rtp play]:

-- achas que este ódio à poesia tem a ver com essa nossa aversão a tudo o que não seja imediatamente claro ou perceptível?

6.9.18


It is almost axiomatic that the worst trains take you through magical places.

relincham alto como potros ainda sem cabresto, cheirando nada mais do que a liberdade do momento e a vontade de coicear. pondero assobiar-lhes em riste, para que se calem, ou pelo menos baixem as vozes acnosas, mas manieto a insatisfação. olho-os uma última vez, antes de me recolher ao silêncio mordido que já não me satisfaz. soubesse outrora deste maldito porvir.
enquanto me esvaio em sangue e desvaneço dentro de uma dor de cabeça velhaca e persistente, Pepetela entretém-me, contando um pouco mais da parábola do cágado velho:

A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte. Não ouvia tiros, nem gritos, nem explosões, então a morte é isso, esse silêncio num céu brilhante, esse parar da vida como naquele instante da tarde, como agora que era meio da tarde, em que tudo fica extático e ele em cima do morro olhando o seu mundo. O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios da tarde, não sentia angústia. 
Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. Impossível parar o tremor, ficou muito tempo na mesma posição, placado no solo, de olhos abertos, vivendo o seu medo e a frustração de com o medo estar vivo. Então decidiu, Munakazi tem de ser minha.


|lentamente, não se impondo, falando apenas, Pepetela vai-me levando para onde ainda há pouco pensava não querer ir.|

5.9.18

[tenho me deitado com Antonio Gamoneda nestas últimas noites]

voltando à tradução, refastelo-me nas palavras de Pablo Javier Pérez López, na enfermaria do meu coração:

A arte de traduzir é, simplesmente, uma das mais elevadas e secretas. Poucos humanos conseguem levar poemas para uma outra língua com essa estranha e árdua fidelidade que reproduz a ebriedade, o ritmo, e o pensar cosido à música da vida da qual nasce o poema. Mais difícil ainda frente ao sentir popular, é fazer viajar a poesia para uma língua aparentemente familiar ou próxima. Mudar, verbo escolhido por Helberto Helder para este facto sagrado que sempre convoca a apropriação de outra voz e a recriação oral e escrita do poema, um verbo que, Gamoneda aceitou e recebeu com gosto. Sempre tem que ser um poeta a mudar a voz de outro poeta e sempre que isto acontece nota-se logo a partir do início da leitura.


|que gozo me dão as edições bilingues|

2.9.18

e já submersa, viajando à velocidade da ponta dos dedos no ecrã, encontro o texto de miss smile, que me encanta, depois o do xilre, e deixo me ficar, contente por conseguir manter as mãos fora de água e os olhos abertos :b

|a blogosfera em bom|
e já que estou com as mãos na massa e os dedos no gatilho, aproveito para deixar mais uma semente, antes de descalçar as botas sujas de terra e mergulhar no submarino marsupial. 

«Traduzir Solaris é um desafio, porquanto a narrativa urdida neste romance ultrapassa as fronteiras da realidade conhecida e ficcionada, construindo um mundo desconhecido, completamente imaginado e povoado de fenómenos nunca dantes concebidos. Neste caso, a tarefa do tradutor estende-se a um espaço onde o visionamento destes fenómenos é a condição necessária para que não se percam as representações visuais das entidades inventadas, nem o estilo literário que, oscilando entre uma linguagem técnica, filosófica e poética, avulta em criatividade linguistica e neologismos. São exemplo disso os sugestivos nomes das entidades que habitam o planeta Solaris: «mimóides», «longóides», «cogumelões», «simetríadas», «dendromontanhas», etc. Por conseguinte, a tarefa repartiu-se entre dar a ver o mundo representado neste romance de ficção científica e, simultaneamente, dar a ouvir a voz do autor e o seu modo de expressão»

/Nota à presente tradução, Teresa Fernandes Swiatkiewicz, in Solaris/


sempre me encantou a busca por este eterno equilíbrio entre a transposição e a criação. a vontade de mostrar o outro, num acto de abnegação à nossa própria existência, tentando transportá-lo o mais puro possível, |como, santo deus, se mesmo ele próprio já é polissemia?|, permanecendo nós na sombra das palavras. saber do poder e rondá-lo sem lhe tocar o nervo, uma pouco mais do que a pele.
é das poucas vontades que ainda hoje me permanecem: por que diabos não escolhi teoria da tradução?
encantadora rata, a Josefina de Kafka, de sorriso insolente, pretensiosa, inflamada de raiva pela falta de reconhecimento, como qualquer artista que se preze, no limbo entre o mero assobio ou algo maior (assim é a arte, dizem)....


«É nessas escassas pausas entre batalhas que o povo sonha, é como se os membros de cada qual se soltassem, como se a ansiedade tivesse por uma vez direito a distender-se e esticar-se à vontade na cama grande e quente do povo. E nesse sonho ouve-se aqui e ali o som do assobio da Josefina; ela chama-lhe pérola, nós chamamos-lhe chumbo; mas de qualquer das formas, ele encontra aqui o seu lugar como em nenhum outro sítio, aqui encontra a música o momento que por ela esperava, e isto é raro acontecer. Há nisto qualquer coisa da nossa pobre e tão breve infância, de uma felicidade perdida que nunca poderá voltar a ser encontrada, mas há também qualquer coisa da vida activa, do dia a dia, da sua pequena, incompreensível e apesar disso subsistente e irreprimível alegria. E tudo isto é dito com sinceridade, sem grandes sons, antes com leveza, sussurrado, uma confidência por vezes um pouco rouca. Claro que é um assobio. Como poderia ser outra coisa? O assobio é a língua do nosso povo, só que há quem assobie a vida inteira sem o saber, enquanto que aqui o assobio está livre dos constrangimentos da vida quotidiana e pode também libertar-nos a nós por um breve momento. Assim sendo, é óbvio que não queríamos perder este espectáculo.»

/Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos, de Kafka/



acompanhei a novela de Josefina ora no Artista de bolso, ora no Bestiário (confesso a minha predilecção por bestiários). na rua ou em casa, a rata de Kafka, a mesma que os três magníficos (Borges, Bioy e Ocampo) já tinham escolhido para figurar na sua Antologia da Literatura Fantástica, acompanhou-me durante alguns dias na minha insossa vida de rato. no fim, foi-se a Josefina, ficou-me/nos, felizmente, (o) Kafka, que pouco tempo depois morreu de tuberculose laríngea |talvez daí um artista da fome...| 



__ o que ela ambiciona é então apenas o reconhecimento público da sua arte, um reconhecimento unânime, que perdure pelo tempo, que ultrapasse tudo o que até agora se conhece. 

30.8.18

 Jan Erik Waider


Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu


Daniel Faria |1998|

28.8.18

e então eu perguntei, posso ir para casa, jardinar de pijama polar, debicar uvas com scones e marmelada?... é que me apetece tanto... e tenho frio, só com este casaquinho de sem jeito nenhum... aproveitava para pôr roupa a lavar, mudava os lençóis da cama... adiantava o projecto da estufa!, fazia festas aos borregos, escovava as pretinhas... oh pá! era tão fixe!! posso?...


e eles, o bando inteiro, para que não houvesse dúvidas, semicerraram os olhos metálicos, encresparam as frontes e ergueram-se a mim respondendo:


Eugenia Loli

27.8.18


























– Pois não será nem um camelo, muito menos um dromedário! A Princesa há-de passear-se pelos jardins do deserto montada na corcunda de uma cabra coroada de chifres, igualmente alva e delgada, com rabo em largas plumas.


de todos os entra-e-sai do prédio, ups, dhl e uber eats incluídos, calhou-me fazer amizade com o carteiro provisório deste mês. tudo começou com um siga da emel, dois euros e quarenta e seis cêntimos trocados e a oferta de um cafézinho. a coisa deu-se de forma simples, como se dão todas as coisas de valor. da conversa de circunstância, aproveitou-se o tempo para falar de tudo o que no momento nos apeteceu, a filhaputice da emel e a sua aplicação merdosa, tantas vezes avariada, o tempo, que no dia abrasava com um caldeirão do diabo, as férias que ainda não gozámos, as chávenas do café com rosinhas pintadas, oferta (pirosinha) da minha querida mãe, as horas que damos a mais ao trabalho, porque temos amor à camisola, e isso é que importa, e por aí terminámos. hoje voltei a encontrá-lo no rés-do-chão, segurei-lhe a porta do elevador, inquiri-lhe da correspondência, avisando de antemão que não recebo contas à segunda. rimos os dois, reconvidei-o para mais um cafézinho, por cá há-de passar mais tarde. e é ao teclar esta meia dúzia de frases sem grande importância, que me lembro daquela vez em que a tia Lurditas, em tom de evidente desagrado, avisou a minha mãe que muito eu gostava de dar conversa aos serviçais, eu, que tinha tantos estudos! pobre tia Lurditas, de cabelos pintados e mamas volumosas - como lhas invejava, caramba -, vivia convencida que pertencia a uma casta superior, porque tinha sido secretária de administração durante algum tempo. ainda vive. deus lhe dê muita saúde. calculo que não bebesse cafézinhos com qualquer um...
beatas, centenas delas, espalhadas pela rua inteira. ainda tentei uma formação on job, perceber qual a melhor técnica de cantoneiro, a inclinação certa da pá, a posição mais adequada à vassoura, mas não havia ninguém a quem perguntar. era eu e elas, pontas redondas, mais ou menos terminadas, algumas brancas, a maioria já pisada. apanhar beatas é como um daqueles jogos básicos de computador dos anos noventa, percebemos que é sempre igual, mas não o conseguimos largar. não foi preciso muito para descobrir que estava viciada naquilo. Comecei por alargar o perímetro das buscas, insistia até nas mais difíceis, presas em sulcos de terra ou nos buracos do passeio, tudo isso enquanto ia pensando na vida, sossegada. embora o objectivo principal fosse apenas o de limpar o lixo maior, não parei enquanto não cheguei à curva do quarteirão sem uma ponta que se visse. está bom!, gritou-me lá do fundo o responsável. fosse assim tão fácil limpar o lixo da cabeça.

26.8.18

um dia teremos de chamar a polícia, digo-lhe ainda outra vez, forçando uma resposta que me ampare. Tristan suspira, de rosto voltado para a lua, tão prenhe lá em cima. ouve, Tristan, eu também não quero problemas com ninguém, mas é impossível manter os animais nestas condições, sabes que o barulho os deixa agitados. não vale a pena continuar, Tristan não me ouve, acha que é cedo demais para fazer a queixa. descalça, magoo os pés no caminho de brita, enquanto tento chegar a casa. a algazarra do grupo não me deixará descansar nas próximas horas, tão-pouco o grunhido que chega do curral, mas, quem sabe, talvez também eu me aninhe na cobardia da inacção e deixe a vida correr assim. se ao menos chovesse...

24.8.18

ao poeta

coisas da vida, dir-me-ia o leitor, se ainda por aqui passasse, isso de ouvir outra vez o poeta, num tiro de sorte à sua Caligrafia Ardente, falar-me da flor que se abre na boca dos suicidas. nesta surpresa de poder olhá-lo ali tão perto, a pele salgada em gotas, estendo-lhe as mãos às palavras, abro a boca em beijo, morro e renasço, enquanto a sua língua se enterra em mim.



o canto da velha toupeira
ondulante entre o diálogo dos mortos
na cinza das pátrias destruídas
em troca de uma estrela __e outra estrela
até à constelação chamada sempre a idade de ouro
e ilha da reunião de todos os desejos
e do amor único e louco
até à grande maravilha do princípio
das mil e uma noites sem fim
numa nuvem de sangue muito doce
erguida à altura da paixão dos olhos
perdidos no infinito


/Uma Faca nos Dentes - Antígona/

13.8.18

Wild, wild horses we'll ride them some day

28.5.18

na literatura, como na vida,
na vida, como nos blogs.

Tem de se retirar algum prazer deste trabalho, e é isso. Andar por aí disfarçado. Representar um papel. Fazermo-nos passar por algo que não somos. Fingir.

Philip Roth

27.5.18

Lo que me gusta de tu cuerpo 
es el sexo. 
Lo que me gusta de tu sexo 
es la boca. 
Lo que me gusta de tu boca 
es la lengua. 
Lo que me gusta de tu lengua 
es la palabra.
Fabrizia Milia

26.5.18




Se alguém me perguntasse por um livro, falar-lhe-ia d' O Livro de Emma Reys, que a Alexandra me apresentou no seu blog Mais Mulheres Por Favor

Um livro de memórias, contruido a partir da correspondência que trocou com Germán Arciniegas (Gabriel Garcia Marquez também entra nesta história). Aqui encontrei mais algumas referências acerca de  Emma: «Luis Caballero escribió: “Hay pintores míticos, de leyenda. De los que se habla en torno a quienes se tejen y destejen anécdotas, pero cuya pintura se ignora. Emma es uno de ellos. Su enorme personalidad impide que se vea su obra para desventura de quienes aman la pintura. La leyenda de Emma se ha elaborado a partir de su propia vida a pesar de su obra; es por eso tal vez que su obra es ignorada”. Germán Arciniegas decía: “Ella no pinta con aceite sino con lágrimas”.»


Por isso, mais uma vez, obrigada, Alexandra, que, de uma forma assertiva, inteligente e graciosa, partilhas as tuas descobertas profundamente humanas e com a singularidade do feminino. Não sendo apologista da dicotomia, sou totalmente a favor de mais mulheres, por favor!


«Todas as crianças do bairro passavam o dia ali, a brincar, a gritar e a rebolar numa montanha de barro, insultando-se e brigando umas com as outras, chafurdando nas poças de lama e esgaravatando o lixo com as mãos à procura daquilo a que chamávamos tesouros: latas de conserva para fazermos música, sapatos velhos, pedaços de arame, de borracha, paus, vestidos velhos; tudo nos interessava, era o nosso quarto de brinquedos.»


Untitled (1989)

como não, se logo na capa Ana Hatherly me acenava e o tom de tijolo me trazia um agosto de barro e espigas. peguei-lhe com cuidado, tinha o Mar grafado no título da primeira história, mas Pavese menino corria pelos campos e pelas encostas áridas do monte em frente, procurando víboras com Pale. Porque é que não respondes quando te chamam?, pergunta Pavese menino a Pale, que apanhava com frequência da mãe por não responder sempre que ela gritava pelo seu nome. Pale trouxe-me à memoria o João menino, que só não apanhava porque a mãe era a mulher mais bondosa da rua. os meus irmãos diziam que ele não respondia para mostrar aos outros rapazes que ninguém mandava nele, fazia o que lhe apetecia e só ia para casa às horas que lhe dava na telha. talvez, talvez João e Pale fossem pequenos rebeldes para quem a vida seria sempre palmilhada no fio da navalha e, ou se apanhava a víbora sibilando devagarinho, ou se descia a encosta, numa corrida sem tréguas, fugindo ao nosso próprio nome, mas eu sempre achei que o problema do João era a sua timidez disfarçada, um medo de não saber o que dizer, por se sentir tão diferente dos outros.

/Férias de Agosto, Cesare Pavese/

20.5.18

foi Bartolomeu quem tocou no assunto. sempre pensei que seria Cirilo, com o seu jeito impaciente e nervoso. mas foi Bartolomeu, o sábio, quem se abeirou de mim, já depois do computador desligado, e perguntou, até quando aguentaremos isto? as lágrimas que naquele momento oscilaram, mas não tombaram, levo-as comigo para a cama. até quando, não sei.
as mulheres de cinza continuam na borda da banheira, impacientes para que as ouça. fico sem jeito, mas repito o abuso à simpatia de Mia Couto e não lhes pego. Solaris não pode esperar mais, submerjo.
a desilusão foi sempre demasiado amarga na minha boca. primeiro o Coliseu de Roma, depois a Universidade, agora o Taj Mahal. rasgo a velha máxima de não esperar nada e acabo sempre incrédula a questionar se é só aquilo - esperava monumentos infinitos, daqueles que os sonhos me revelam, em movimentos de intersecção, geometria aumentada, bem ao estilo de Escher. há um sonho especial que desejo secretamente que represente o meu momento final: estou sentada num vale que conheço, verde, em frente a montanha da minha infância, tudo num plano muitíssimo mais íngreme, que se vai aproximando, mas não sinto medo de tombar. sou menina, a minha mãe está sentada ao meu lado e sorri, perto, os meus irmãos brincam às apanhadas. a montanha está cada vez mais perto, os ponteiros do relógio caminham para a sobreposição, vamos ser esmagados, mas estamos serenos. é um sonho escasso, soberbo, dos poucos de que me consigo lembrar. se não acontecer, será a minha última desilusão.
Stanisław Lem, é com ele que me deito esta noite, caçadora exímia que se pavoneia, venho aqui grafa-lo às 3 da manhã. num descarado ménage, deixo-me seduzir pela tradução directa do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz. a teoria da tradução será sempre o meu tesão obscuro, a problemática da apropriação. a palavra é como um corpo, como lhe tocar sem a abocanhar, onde está a equivalência pura, directa, asséptica? tudo não passa de uma mentira, a palavra é um corpo. um sopro, um murmúrio, um ligeiro tremor é quanto basta.
Solaris, o livro por fim, e Lem levando-me para "outros mundos, outras civilizações, sem conhecer inteiramente os meus próprios recantos, os meus becos sem saída, sem saber o que está por detrás das minhas portas negras"....
tem tudo para ser uma noite inesquecível.

18.5.18

rouxinol, o pássaro louco das intermináveis cantatas nocturnas, engatatão do canavial por quem me apaixonei, partiu durante o meu curto exílio nas montanhas. as noites repetem-se agora silenciosas e sem paixão. não consigo deitar-me com ninguém, um louco que seja, um deprimido novelista, um poeta, lambendo-me as mamas, as mãos, os dedos, um a um. olho-os, tacteio-lhes as capas, folheio-lhes os corpos e desisto. se escrever é corrigir a vida, levar os escritores para a cama é enganá-la.

Sono, maravilhosa edição da casa das letras, com ilustrações de Kat Menschik

falta-me, mais do que caminhar, um chão de terra onde possa cair e ficar quieta, até que outra alma tome conta de mim. e um vento suão, desalinhando-me os caracóis.
Os zés-ninguém

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou comecem o ano trocando de vassoura.
Os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os zés-ninguém, os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.


/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/


Cai
Cai eternamente
Cai no fundo do infinito
Cai no fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair

Vicente Huidobro 
mais

15.5.18

foi quando decidi não levar mais trabalho para casa que passei a viver no escritório.

14.5.18

A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (...) Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. (...) Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.

/Antologia/
Underwater Choreography Performed in the World’s Deepest Pool by Julie Gautier

Daqui  Colossal

9.5.18

não posso ir convosco, tenho o coração obliterado, gemeu Sophia. não será partido? brincaram os outros, carnes velhas e rudes, mas Sophia nunca teve um coração de vidro, o buraco que esconde debaixo do casaco não engana, por ali furou o metal a sua carne de jovem fêmea. ficarás, então, permitiu Bartolomeu, sem nada mais acrescentar. talvez pudesse ter aproveitado o momento para ensinar a Sophia uma das maiores lições de vida de um excomungado - endurecer o coração como um osso e esquecê-lo numa rua qualquer, no momento em que um feixe de luz nos cegue e o semicerrar das pálpebras seja o último beijo das nossas vidas.

8.5.18

ficou decidido, redigido em acta abstracta, logo depois de Cirilo ter partido alguns dentes a Sicrano e a Beltrano, que o bom nome das nossas limpezas corria risco na praça e era urgente seguir para longe, deixar a poeira assentar, talvez conquistar o velho oeste. escorraçados por nós mesmos, partiremos em breve, pela calada da noite, escondidos dos burocratas e das forças policiais. 
voltaremos, como volta qualquer fora da lei ao local do crime, se deus quiser, carregando pepitas de ouro e arco-íris florescentes.

6.5.18

haverá um filho dentro de todas as mulheres?
Souvent je ne parle que pour toi, afin que la terre m’oublie.

5.5.18

obrigada, miss smile. pelos textos que partilha e pelo carinho que me tem. é recíproco.
um dia voltamos à peleja. desta vez, não havendo vaca MuMu para resgatar, roubamos o cacilheiro à pirata ou outra coisa qualquer :) só para desenferrujar os ossos.

4.5.18

com o meu Campos Matos debaixo do braço suado, avancei por entre a turba de babel em busca da lisboa de Luísa e do patusco conselheiro Acácio. parece-me que ainda o ouço a tagarelar:

Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, 
só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso.
Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a
canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
– Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica
senhora! – exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica.
Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a
independência do seu país; morreria por ela, se fosse
necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só
nós, minha senhora! – E acrescentou com uma voz
respeitosa: – E Deus! 
a quantidade de irlandeses /turistas em geral e afins/ que toda a manhã olhou surpreendida para a minha camisola de gola alta foi tal, que eu própria me julguei coisa bizarra. entre as informações primordiais /de como meter o rossio na rua da betesga sem o atravancar ou memorizar o nome das cinquenta e cinco bebidas possíveis e imaginárias entre a bica e o galão/, tentei tossicar o máximo que pude, para que ao menos a ideia de um resfriado me salvasse da infeliz indumentária. soubessem eles do pior /ai que vergonha, senhores!/, que por debaixo do azul escuro morava ainda uma reles camisolinha interior...

3.5.18

desde que saí da redoma bafienta, cimentada em laje de mármore cor de rosa, onde cérebros estranhamente abençoados me ultrapassavam nos corredores, silenciando o cumprimento às reles criaturas, como deuses de um Olimpo, as teorias da vida deram lugar a carochos, bêbados caídos na rua, ciganos que ameaçam lojistas, mulheres que fumam e raspam subsídios no café. a vida, meus senhores -- excelsos doutores, todos vós --, é muito mais do que aquilo que se inventa.
Y un entrañable calor me abriga cuando el mundo me golpea,

ao contrário de Alejandra, la mejor poeta suicida, morro de frio.

1.5.18

nunca procuro uma encruzilhada deliberadamente - não há em mim qualquer tesão de adrenalina, gosto da tranquilidade aborrecida de pisar o meu carreiro -, mas se o acaso, filho da puta que o pariu, me obrigar a escolher, ou melhor, se eu baixar a guarda e permitir que seja o acaso a tentar o laço na minha garganta, então que fique escrito que, embora possa escolher o lado errado do cruzamento, nunca olho para trás. perder não me imobiliza, tão-pouco me arrecua. o que não admito é que me encostem à parede como um animal encurralado. abdiquei de muito, mas não abdicarei da minha livre vontade.

e assim escreveu a mulher, que espera, mais do que tudo, estar enganada.

29.4.18

"Sempre que me perguntavam o que eu queria, o meu primeiro impulso era responder «nada». O pensamento de que não faria diferença alguma, de que nada me iria fazer feliz, passava-me pela cabeça."

/Não-Humano, Osamu Dazai/


quando chegou a minha vez de pedir, eu que sempre respondo nada, enumerei: meia dúzia de lápis nº 2, um  bloco de papel fino, 90 g/m², cor de marfim, suave, sem ácido, uma cesta de fruta madura, queijo e vinho, uma estufa de vidro do tamanho do pátio, um balão de ar quente, um telescópio, um rebanho de cabras. e parei, esperando que a minha lista fosse suficiente para calar os que dizem que estou doente porque nunca peço nada. 

28.4.18

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Frank Horvat, Couple in a café, Warsaw, 1963

27.4.18

Yo no sé de pájaros
no conozco la historia del fuego. 
Pero creo que mi soledad debería tener alas.



toda a manhã, o pequeno pássaro trinou no alto do grande pavilhão. o homem, que passou por engano, assustou-se com o gorjear estridente e apressou-se a sair, para meu contentamento. e então ficamos só os dois, eu e o pássaro, durante muito tempo, cada um com a sua música. as máquinas, serpenteando como cobras, deslizavam rápidas, distribuindo paletes pelos corredores de A a F. quando passavam mais perto, ambos nos quedávamos em silêncio, sem medo - o pássaro porque era livre e eu porque fui pássaro toda a manhã.

Buscar no es un verbo, sino un vértigo.

24.4.18

se eu vos pedisse, amigos leitores, sugestões de leitura, o que me responderiam?

22.4.18

"All COLORS, no genres. COLORS is a unique aesthetic music platform showcasing diverse and exceptional talent from all around the globe."


21.4.18

Deixei-me ficar aninhada na cama, obrigando o dia a esperar. Da mesma forma misteriosa que as insónias me castigam às vezes, outras sou eu a mandar o corpo apagar, e ele apaga. A fuga atrasou-me o trabalho, mas nem assim abdico de vir à banheira, onde há uns olhos de cão azul à minha espera. Somos velhos conhecidos, não há constrangimento, nem pudor. Entrego o corpo à água, levo o dedo à boca, molhando-o, e toco-lhe devagar.

19.4.18

Burgessos somos nós todos
ou ainda menos.

{obrigada, Cesariny}
não é a primeira vez que comete o mesmo infortúnio, avisa-me o cavalheiro das barbas perfumadas, isso de se lançar sem rascunho, nem punho de revisão, na nobre arte das letras, mesmo que ao nível cérceo do diletante, prossegue, brioso das suas pilosidades monumentais, só lhe deprecia o que apresenta. não lhe bastava a inundação de aliterações dentro dos escritos, repete-se agora também nos verbos de abertura?
talvez o hirsuto cavalheiro tenha razão, mas repare que a barba non facit philosophum, nem o verbo a acção.
repara como nem notam o cadáver que flutua na piscina. talvez já nem se lembrem de quando adicionaram aquele contacto, esperando rentabilizar a ligação. nem sempre se dá logo, às vezes as mulas quinam primeiro. 


{obrigada, Camilo, pelas coisas que só eu sei}

17.4.18

Reparei, hoje, que é mais idiossincrática a forma como damos as más notícias, do que a forma como as recebemos, quando ele me perguntou se podia passar pelo consultório mais tarde. 

15.4.18

Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, está apaixonado pelo mocinho da pastelaria, um mulato lento de língua afiada. vai daí, a toda a hora me pede companhia para ir beber um café, bebida que o deixa ainda mais nervoso, um tremelique que o pobre disfarça a custo. o outro, experiente na arte do flirt social, vai fazendo charme pelo espelho, enquanto embrulha as meias-leite, tal é a vagareza. Jasmim deixa-se encantar, sente-se correspondido no desejo do que poderá acontecer. está escrito nas estrelas ficarmos juntos, segreda-me, e nos búzios também. os olhos prometem-se, as mãos fazem planos, ávidas, a timidez das palavras vai-se dissipando e Jasmim atreve-se às vezes a uma graçola desengonçada. é dos nervos, ambos sabemos, mas eu finjo que não vejo e vou continuando a beber o chá. Cirilo, jocoso, berra-lhe que aquilo é gajo de andar com todos, depois não te queixes, ó totózinho!, mas o coração de Jasmim já sofre de taquicardia sentimental, não há volta a dar. 
...
Ejaculas no vazio, roto de mãos, os sonhos em que a tua mãe te embalou, cambaleias, tropeças, ninguém repara, os olhos dos outros habituam-se rapidamente à tua escuridão. A puta da vida num grito de poesia. Hoje é domingo, continuas a sorver cigarros.

14.4.18

ninguém sorri, depois da contabilidade apurada por Petra. o que já todos sabíamos, confirma-se, o primeiro trimestre do ano deitou-nos ao chão. Bartolomeu insiste que é preciso ter calma, qualquer gesto imprudente pode ser fatal. dos escombros de nosso desespero construímos nosso carácter, repete-nos, valendo-se do seu poeta favorito. respiro fundo e impeço Cirilo de explodir, pousando-lhe a mão sobre o ombro. vai tudo correr bem, minto. ele castiga-me a mentira, afastado-se de mim.
Começas a desaparecer quando deixas de ter curiosidade pelo mundo, quando já não perguntas, não te importa saber. Escondido no teu buraco aprazível, não queres que mais ninguém se junte à tua vida, porque te incomoda mudar de posição, te enfastiam as perguntas da praxe, dos quandos e dos porquês. Inversamente, assoberbas-te à meia dúzia de palavras inteligentes que o condutor da Uber te dirige. Inteligentes porque as podias ter lido num jornal qualquer e não te pedem participação para lá da epiderme. Quando sais do carro, já nem te lembras e é assim que agora gostas.  Sem bagagem, não há peso nem coisa nenhuma. As mãos vazias tranquilizam-te. Ninguém voltará a habitar-te.

11.4.18

...

Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.

7.4.18

não vás, hoje, fica aqui comigo, dou-te banho de espuma, rapo-te os pêlos da ratinha assanhada,  besunto-te com aquele creme de romã que gostas tanto, frito uns ovos e umas salsichas, vemos a chuva a cair. nem tens de dizer nada, podemos ficar calados, ou se quiseres acabamos a nova temporada, há batatas fritas de pacote e umas cervejas esquecidas no frigorífico vazio. o aquecedor sempre ligado, empresto-te a minha camisola, mas só para ires à cozinha, gosto de ver as tuas maminhas a baloiçar. não vás, alicinha, fica comigo. só hoje.
As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional: — pedia as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria. 

/O Mandarim, Eça de Queirós/
AMOR 77


Y después de hacer todo lo que hacen

 se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se visten,

y así progresivamente van volviendo a ser lo que no son.

30.3.18

não foi difícil chegar ao consenso, Petra ainda estrebuchou levemente a importância da época, argumentando que era necessário dar início às limpezas da primavera, esfregar as manchas de humidade dos tectos e lavar os edredons, mas nenhum de nós se solidarizou com as tarefas. até Tristan, o nosso escritor sem obra, concorda em aproveitarmos o sol para laborar. assim sendo, manda o calendário dos empreendedores sem capitais de risco que se trabalhe nos feriados civis e religiosos. duplamente!, acrescenta Cirilo. duplamente o caraças, funga Jasmim, não sou católico, mas também não sou ateu, sigo a minha própria religião. Bartolomeu arreganha a tacha o suficiente para percebermos que deposita grandes esperanças no mês vindouro de abril - haverá sol, espera-se. ouve, miúdo, não tem nada a ver com a religião. temos de trabalhar mais nos feriados para aproveitar a vantagem à concorrência, percebes? são negócios, Jasmim. quando os outros param, nós avançamos duplamente. agora levanta esse cu de menina* da cadeira e vai buscar o Jolly Jumper. já estamos atrasados!


{*Bartolomeu num laivo de misoginia linguística irreflectida. é perdoar, caros leitores, afinal estamos na páscoa} 

28.3.18

dor

l'amour la mort

petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de  corpo  inteiro
                                                        e idade inteira



«Temos frequentemente a sensação de que será perigoso olhar, e por isso há uma tendência para desviarmos os olhos, ou mesmo para os fechar. Por causa disso, é fácil ficarmos confusos, não termos a certeza de que estamos realmente a ver a coisa que pensamos estar a ver. Pode dar-se o caso de estarmos a imaginá-la, ou a confundi-la com outra coisa qualquer, ou a lembrar-nos de qualquer coisa que vimos antes -- ou, quem sabe, que talvez tenhamos imaginado antes. (...) Não basta olharmos e dizermos para nós mesmos: «estou a olhar para aquela coisa». Porque uma coisa é dizermos isso quando o objecto que temos à nossa frente é, por exemplo, um lápis, ou um bocado de pão. Mas o que é que acontece quando damos por nós a olhar para uma criança morta, ou para uma menina que jaz toda nua no passeio, a cabeça esmagada e coberta de sangue? O que é que uma pessoa diz para si mesma num caso desses? Tenta perceber: não é assim tão simples declarar de uma forma categórica, inequívoca: «Estou a olhar para uma criança morta». A nossa mente parece negar-se a alinhar as palavras; de algum modo, não conseguimos forçar-nos a fazê-lo. Porque a coisa que temos à nossa frente não é algo que possamos separar facilmente de nós mesmos. (...)
Seria bom, suponho, ganharmos uma dureza tal que nos permitisse não sermos afectados por nada. Mas, nesse caso, ficaríamos sós, tão completamente separados de todos os outros que a vida se tornaria impossível. Há quem consiga fazer isso aqui, há quem encontre em si mesmo a força necessária para se transformar num monstro, mas garanto-te que são casos raros, raríssimos -- o que, sem dúvida, te surpreenderá. Ou, por outras palavras, todos nós nos transformámos em monstros, mas não há quase ninguém que não guarde em si mesmo um qualquer vestígio da vida que outrora se vivia.
Esse é talvez o maior de todos os problemas. A vida como nós a conhecemos acabou, e, no entanto, ninguém é capaz de entender o que é que a substituiu.»


/No país das últimas coisas, Paul Auster/
não me convencem os homens com a história da ressurreição à direita do pai, no terceiro dia. digo-lhes, renascemos nós todos, cristo também, se nos derem o corpo à terra para que, de putrefacção, se transforme em composto orgânico, húmus onde se gera a vida. é a única comunhão em que acredito, não me comovem outras liturgias.
quando eu findar, que se erga de mim um silvado de rosas-mosqueta, ou, por que não, um zângão cobridor, numa ode a fibonacci. em vez disso, aposto, hão-de cobrir-me a sepultura com uma pedra tumular feia e estéril. renascem os cães e os gatos, mas eu não.


24.3.18

O lábio ardendo 
entre tremor e temor, 



Conrad Roset

23.3.18

That’s a long way to go just to eat.

evito os evangelizadores, os bajuladores, os ególatras e os medíocres.

22.3.18

Rumámos ao sul, por entre o azul petróleo da noite e uma lua crescente. Decidimos, este ano, dar início a uma nova tradição - o enterro do inverno. Petra fez uma panela de sopa de tomate, onde alguns fatiaram ovos cozidos, outros esfarelaram queijo feta e eu abusei dos dois. Acompanhámos o banquete com pão torrado, besuntado de manteiga, e poncha caseira de maracujá. Estacionámos próximo de uma praia deserta, que Cirilo conhecia de outros tempos, e começámos por fazer a fogueira. Antes de enterrar o maldito, todos quiseram incinerá-lo, aproveitando para aquecer corpos e almas.
Passaram dois dias e o bandalho continua vivo.
Vivo no meio de desastres,
terra que se desprende, inundações, abismos,
vento contrário que nos leva ao sítio
onde o trovão sem luz secretamente habita.


Cirilo urra, grita que já não suporta tanta bandalheira, Bartolomeu, abatido, observa a janela, Petra silenciou-se também, Jasmim tem saudades da mãe e diz que nada lhe importa, é epicurista, Tristan vive enfiado no barracão, escrevendo as suas memórias de escritor falhado, Sophia foi fazer compras à primark do colombo e nunca mais voltou. somos um bando de esconjurados, maltrapilhos dos tempos modernos, adultos de sucesso nulo, todos esperando que as águas de março não venham fechar o verão.

21.3.18

um dos principais desafios, segundo o livro que pretende ensinar-me muitas coisas, é Gerir a canibalização, assim, preto no branco, mas sem o itálico que me sopre uma metáfora. pois muito bem, vamos lá, sem medos, que o cabo da esfregona é grande e os detergentes são substâncias corrosivas. 
no dia que se diz da Poesia,
um poema 'tosquiado' para a Be


Apesar das ruínas e da morte, 
Onde sempre acabou cada ilusão, 
A força dos teus sonhos é tão forte, 
Que de tudo renasce a exaltação 
E nunca as tuas mãos ficam vazias. 

/Sophia de Mello Breyner Andresen/

18.3.18

- E pró Feliciano não vai nada, nada, nada?
- Tudo!!


mas que bela comédia. 

16.3.18

senti-me uma Thoreau dos tempos modernos, Jolly Jumper trotando na estrada estreita, outrora caminho de cabras e ovelhas decerto, os máximos indicando o destino, quando o vejo pousado no chão: Mokambo*. guinada à esquerda, que o bicho parecia colado ao alcatrão, e eis que Jolly Jumper, com os seus cascos angelicais, quase trucida um coelho, igualmente estático, quiçá em fervoroso namoro com a ave. não será fácil também para a bicharada esta coisa do multirracial, imagino o preconceito de ambas as famílias, os Athene noctua e os Oryctolagus cuniculus, preocupadas com o bom nome de cada uma e as descendências vindouras. e então será isso, corações palpitando, os dois encontram-se naquele caminho, madrugada alta, quando todos dormem, menos esta que aqui vos tecla. imagino-lhes o susto, Mokambo, atarracado como sempre, levantou voo e rasou a fuça de Jolly Jumper, Bugs Bunny activou as molas do traseiro e desapareceu por entre o mar de erva. espero que voltem e se forniquem à exaustão dos seus pequenos corpos, porque o mundo precisa é de amor e fricção. 


 /*para mim, qualquer mocho-galego que apareça será sempre Mokambo/

15.3.18

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.


preciso desesperadamente de um cigarro, ou de uma marreta que desfaça crânios casquinados à primeira. logo eu, que nunca me consegui viciar na nicotina, apesar de a ter inspirado, e aprecio sem entraves a estrutura óssea de uma mulher interessante. será dos pés frios?

14.3.18

[não é que sejamos invisíveis aos seus olhos, somos apenas, e apenas só, insignificantes, minguados de interesse que os mova até nós, ao que dizemos, ao que queremos mostrar, mais longe ainda, ao que procuramos esconder. e a vida, este continuum de dia após noite após dia, obriga-nos a mais uma lição, alguns de nós, julgando-se, nada temos de especial.]
gisele chegou hoje, mal dando tempo de mudar os lençois onde felix dormiu feroz. a verdade é que já nenhum de nós acredita que ainda seja possível salvar o mês, nem mesmo Petra, que iniciou esta manhã um jejum espiritual. talvez tudo esteja condenado desde o princípio, talvez seja apenas  mais uma fase, coisas do tempo. é sempre nos cruzamentos que temos tendência a enganar-nos.

13.3.18

a chuva não traz apenas a quebra no negócio da lavagem de janelas, o pior mesmo são os índices de irritabilidade, os pagamentos em atraso e a perda de cabeças no bando. perdidas as cabeças, é cada um por si e todos pelos decibéis estronços. casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, apetece-me dizer, mas estrafego a veia proverbial e provinciana ao silêncio, pois qualquer palavra que fique a pairar sobre as cabeças perdidas só traz novas discussões. cortámos nos croissants au beurre, agora só bolachas integrais de limão, trocámos os tinteiros vip pelos enlatados, varremos o chão e desinfectamos a sanita com as próprias mãos enluvadas, deixando no desemprego a D. Suely das limpezas. já ponderei libertar Jolly Jumper em terreno baldio e passar a deslocar-me a pé, mas Cirilo, enquanto troveja gafanhotos, garante que a ideia é estúpida. Bartolomeu concorda, desnorteado. e eu pergunto, calada, onde irei buscar o dinheiro para os fardos de palha.
Cirilo volta à carga, esmurrando a mesa ruinzinha, trazida lá dos lados de frielas e montada por mim com chave de cruz. a ideia é esmurrar da mesma forma a fuça de cada um dos que ainda não pagaram as lavagens, mas tem de ser tudo feito com muito cuidado, sob o manto escuro da noite, na calada da viela. Bartolomeu suspira, parece-me que já está por tudo, Jasmim mantém-se em silêncio, Petra pede calma e tenta empurrar a ideia de Cirilo para uma pré-reserva, enquanto ela mesma telefona aos sem-vergonha. Cirilo urra Nãos com exclamação, porque essa gente não tem carácter, diz que sim e vira as costas, Não! Não! Não! eu assisto, dói-me a cabeça, parece-me tudo tão difícil. é que nem a roupa seca com este tempo e as peças estão contadas...

8.3.18

padeço de misofonia agreste e aversão aguda a multidões.

não sei porque estou a contar isto agora, mas suponho que é sempre assim: escrevemos uma coisa para contar outra.

/O Nervo Ótico, María Gainza/

7.3.18

amo um poeta. um homem azul, infinitamente belo.

3.3.18

troveja. Jolly Jumper, ruminando num estábulo aqui perto, não ficará feliz, quando me vir chegar, ensopada até às ceroulas. e com razão, bem sei, que não se atravessam pontes, quando corre um dilúvio, nem se procura abrigo no beiral das portas fechadas.

2.3.18


Se uma gaivota viesse...