30.1.18

o óbvio aconteceu,
o que eu andava a tentar matar
morreu.

28.1.18

Hari & Deepti 




a gruta

a gruta onde decidi esconder-me do mundo não passava à primeira vista de um buraco de raposas escavado no meio das silvas. pequena, forrada pela penugem de várias famílias vulpeanas, era a toca perfeita para me ausentar por tempo indefinido da realidade estúpida do mundo. nenhum som motor, nenhuma voz humana, alimentava-me de livros e de laranjas, e de algumas sementes. os dias passaram, tal e qual um guandira, o coração abrandou os seus pequenos tambores e a escuridão tomou conta de mim. o pensamento, livre do ruído das coisas visíveis, fluía sem rumo, tomando formas difusas, medonhas às vezes. em vez de o sovar como era o meu jeito, trazia-o mansamente pela mão de volta ao leito do rio e começava outra vez. o exercício da alma é aprender a ficar sozinha. assim foi até que um grito agudo me acordou a meio de uma noite qualquer. o medo paralisou-me o tempo preciso de escutar um segundo grito, mais fino e distinto. que criatura podia gritar assim, cravando-se com garras umbráticas nos meus ouvidos adormecidos? 
procurei no bolso do casaco as folhas secas de erva-cidreira e mastiguei algumas para me acalmar. os gritos, uma mistura de uivo lupino e animal marinho alienígena, continuaram por mais alguns minutos. vinham de dentro da terra, como podia ser? as pernas tolhidas pela letargia fraquejavam às tentativas de movimento, quando consegui levantar-me as carriças já cantavam lá fora. não saí, não queria cegar-me na luz branca de janeiro, procurei o coração das trevas e mordi-lhe mais um pouco da capa. estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta.

11.1.18

em hibernação.



9.1.18

vestir de preto

em cada local por onde passou, havia um ecossistema diferente. ali, onde se escondeu da luz do sol, vestindo o preto, as palmadinhas nas costas rapidamente deslizavam até às nádegas. durante vários meses, temeu os encontros com o homem que lhe dava as ordens, adivinhando o abuso físico. talvez porque carregava um peso maior ou porque toda a fauna padecia do mesmo tique, calava-se e fugia dos corredores vazios, das salas fora de horas e do horário nocturno. ele, sempre que podia, a salvo de ouvidos alheios, pedia-lhe que o deixasse tocar-lhe só um bocadinho, num tom adocicado e infantil. repetiu-lhe educadamente que não, que não podia ser, que não estava certo. ele nunca parou de insistir. às vezes, mais inflamado do que o costume, ficava furioso e gritava com ela, de seguida, aumentava-lhe o trabalho. 
ponderava muitas vezes em acusá-lo publicamente, mas precisava da insignificância daquele lugar na sua vida para se curar, o luto era uma doença vestida de preto, e sabia que ele era apenas mais um entre tantos.
ele continuou. um dia teve vontade de o matar.
Chove. No telemóvel, a mensagem é clara, trânsito lento.  Mergulho nas águas demasiado quentes, continuo gelada. Quero hibernar. Sou um animal acossado, encurralado entre o caçador e a queda.

6.1.18

Sonho nº 5




José Buchmann sorria. Um leve sorriso de troça. Estávamos no vagão luxuoso de um velho comboio a vapor. Uma tela, pendurada numa das paredes, iluminava o ar com uma vaga luz cor de cobre. Reparei num tabuleiro de xadrez, em pau-preto e marfim, colocado numa pequena mesa, entre mim e ele. Não me recordava de ter movido as peças mas o jogo ia adiantado. O fotógrafo estava em clara vantagem.

  --Finalmente -- disse. -- Há vários dias que sonhava com isto. Queria vê-lo. Queria saber como era você.
  -- Acha, então, que esta conversa é real?
  -- A conversa, certamente, as circunstâncias é que carecem de substância. Há verdade, ainda que não haja verosimilhança, em tudo o que um homem sonha. Uma goiabeira em flor, por exemplo, perdida algures entre as páginas de um bom romance, pode alegrar com o seu perfume fictício vários salões concretos.

  Fui forçado a concordar. Às vezes, por exemplo, sonho que voo. Ora, nunca voei com tanta verdade, inclusive com tanta autoridade, quanto nos meus sonhos. Voar de avião, na época em que eu voava de avião, não me transmitia um idêntico sentimento de liberdade. Tenho chorado a morte da minha avó, em sonhos, mais e melhor do que a chorei desperto. Chorei, aliás, lágrimas mais autênticas pela morte de algumas personagens literárias do que pelo desaparecimento de muitos amigos e parentes. O que me parecia menos real ali era a tela na parede, atrás de José Buchmann, uma composição melancólica, não pelo tema, pois não era possível adivinhar qual fosse o tema, o que talvez seja a maior virtude da arte moderna, e sim pelo lume das cores.
A tarde entrava (rápida) pelas janelas. Víamos correr as praias, os coqueiros carregados de cocos, a larga cabeleira despenteada das casuarinas. Víamos ainda o mar, muito ao fundo, a arder num imenso incêndio azul-anil. O comboio abrandou numa subida. Arfava, asmático, velho monstro mecânico, quase sem fôlego. José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão.

  Ele olhou-o distraído:
  -- A verdade é improvável. -- Sorriu num relâmpago. -- A mentira -- explicou -- está por toda a parte. A própria Natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe, dizendo «Fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento?», e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.

  Comeu o peão. Fiquei em silêncio, atordoado pela revelação e pelo distante fulgor do mar. Só me lembrei de uma frase alheia:
  -- «Abomino a mentira porque é uma inexatidão.»
  José Buchmann reconheceu as palavras. Considerou-as por um instante, medindo-lhes a solidez e a mecânica; a eficácia:
  -- Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exata não seria humana. -- Ganhava animação à medida que falava: -- Você citou Ricardo Reis. Dê-me licença para citar Montaigne: «Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso.»

(...)

/O Vendedor de Passados/

5.1.18

Amigos comuns, disse, e a voz
fez-se ainda mais suave,
tinham-lhe indicado aquele
endereço. Haviam-lhe falado num
homem que traficava memórias,
que vendia o passado,
secretamente, como outros
contrabandeiam cocaína. Félix
olhou-o desconfiado. Tudo no
estranho o irritava – os modos
doces e ao mesmo tempo
autoritários, o discurso irónico,
o bigode arcaico.

/O Vendedor de Passados/

3.1.18

2017 foi o ano em que uma belíssima coruja das torres veio morrer na varanda do meu quarto...

em 2018, será a ave do ano, aqui ao lado, em espanha.

2.1.18

será uma bebedeira de poesia, debaixo do édredon, escreve o Damas, pedindo-me que não me esqueça da garrafa de moscatel que está no frigorífico.
no primeiro dia do ano novo, almocei com a mãe e com a madrinha. entre abraços, beijos e muitas gargalhadas, fui menina outra vez. antes de partir, comemos tangerinas à chuva - finíssima - e meu coração transbordava de felicidade. das complicações do dia - iguais para tantos outros em viagem - já nem me lembro. as duas mulheres da minha vida estão felizes e eu estou feliz por elas.
na segunda noite do novo ano, depois de uma longa insónia, sonhei com a guerra nuclear e o fim do mundo. a explosão gigante a cegar-me os olhos, lá ao fundo, no horizonte, eu a fugir com as cadelas, entre centenas de pessoas, por um carreiro íngreme, em precipício, nas montanhas. o medo de deixar cair os animais e a pressa de chegar a algum lugar seguro - não sei para onde caminhava - misturavam-se no meu sonho. antes de acordar, lembro apenas a onda de luz que nos cobriu a todos.
acordei sem grande alívio, taciturna, lendo no sonho uma visão - pensamento que me atormenta há dias -, se a matemática da morte se mantiver na minha vida, este será o ano em que perderei alguém muito próximo.