28.1.18

Hari & Deepti 




a gruta

a gruta onde decidi esconder-me do mundo não passava à primeira vista de um buraco de raposas escavado no meio das silvas. pequena, forrada pela penugem de várias famílias vulpeanas, era a toca perfeita para me ausentar por tempo indefinido da realidade estúpida do mundo. nenhum som motor, nenhuma voz humana, alimentava-me de livros e de laranjas, e de algumas sementes. os dias passaram, tal e qual um guandira, o coração abrandou os seus pequenos tambores e a escuridão tomou conta de mim. o pensamento, livre do ruído das coisas visíveis, fluía sem rumo, tomando formas difusas, medonhas às vezes. em vez de o sovar como era o meu jeito, trazia-o mansamente pela mão de volta ao leito do rio e começava outra vez. o exercício da alma é aprender a ficar sozinha. assim foi até que um grito agudo me acordou a meio de uma noite qualquer. o medo paralisou-me o tempo preciso de escutar um segundo grito, mais fino e distinto. que criatura podia gritar assim, cravando-se com garras umbráticas nos meus ouvidos adormecidos? 
procurei no bolso do casaco as folhas secas de erva-cidreira e mastiguei algumas para me acalmar. os gritos, uma mistura de uivo lupino e animal marinho alienígena, continuaram por mais alguns minutos. vinham de dentro da terra, como podia ser? as pernas tolhidas pela letargia fraquejavam às tentativas de movimento, quando consegui levantar-me as carriças já cantavam lá fora. não saí, não queria cegar-me na luz branca de janeiro, procurei o coração das trevas e mordi-lhe mais um pouco da capa. estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta.