6.1.18

Sonho nº 5




José Buchmann sorria. Um leve sorriso de troça. Estávamos no vagão luxuoso de um velho comboio a vapor. Uma tela, pendurada numa das paredes, iluminava o ar com uma vaga luz cor de cobre. Reparei num tabuleiro de xadrez, em pau-preto e marfim, colocado numa pequena mesa, entre mim e ele. Não me recordava de ter movido as peças mas o jogo ia adiantado. O fotógrafo estava em clara vantagem.

  --Finalmente -- disse. -- Há vários dias que sonhava com isto. Queria vê-lo. Queria saber como era você.
  -- Acha, então, que esta conversa é real?
  -- A conversa, certamente, as circunstâncias é que carecem de substância. Há verdade, ainda que não haja verosimilhança, em tudo o que um homem sonha. Uma goiabeira em flor, por exemplo, perdida algures entre as páginas de um bom romance, pode alegrar com o seu perfume fictício vários salões concretos.

  Fui forçado a concordar. Às vezes, por exemplo, sonho que voo. Ora, nunca voei com tanta verdade, inclusive com tanta autoridade, quanto nos meus sonhos. Voar de avião, na época em que eu voava de avião, não me transmitia um idêntico sentimento de liberdade. Tenho chorado a morte da minha avó, em sonhos, mais e melhor do que a chorei desperto. Chorei, aliás, lágrimas mais autênticas pela morte de algumas personagens literárias do que pelo desaparecimento de muitos amigos e parentes. O que me parecia menos real ali era a tela na parede, atrás de José Buchmann, uma composição melancólica, não pelo tema, pois não era possível adivinhar qual fosse o tema, o que talvez seja a maior virtude da arte moderna, e sim pelo lume das cores.
A tarde entrava (rápida) pelas janelas. Víamos correr as praias, os coqueiros carregados de cocos, a larga cabeleira despenteada das casuarinas. Víamos ainda o mar, muito ao fundo, a arder num imenso incêndio azul-anil. O comboio abrandou numa subida. Arfava, asmático, velho monstro mecânico, quase sem fôlego. José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão.

  Ele olhou-o distraído:
  -- A verdade é improvável. -- Sorriu num relâmpago. -- A mentira -- explicou -- está por toda a parte. A própria Natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe, dizendo «Fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento?», e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.

  Comeu o peão. Fiquei em silêncio, atordoado pela revelação e pelo distante fulgor do mar. Só me lembrei de uma frase alheia:
  -- «Abomino a mentira porque é uma inexatidão.»
  José Buchmann reconheceu as palavras. Considerou-as por um instante, medindo-lhes a solidez e a mecânica; a eficácia:
  -- Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exata não seria humana. -- Ganhava animação à medida que falava: -- Você citou Ricardo Reis. Dê-me licença para citar Montaigne: «Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso.»

(...)

/O Vendedor de Passados/