27.2.18

eu montava a boneca, ele o trovoada, e subíamos à serra, atravessando o olival que agora é meu. até onde a vista alcança, dizia ele, quando chegávamos ao chão planalto de onde se via o meu mundo inteiro naquela altura. e ria-se. estávamos enganados, ele por brincadeira, eu por ingenuidade, nem tudo o que a vista alcançava era nosso, nem o meu mundo acabava ali. 


25.2.18

felizmente tenho Lucky Blue para me assentar um belo par de bofetadas nas parcas bochechas e me trazer de regresso à estupidez risível dos dias. é ela que me faz subir aos décimos oitavos de madrugada, descer às catacumbas cheias de lama, baloiçar no rio gelado, solavancar nos tuk-tuks e nos buracos da estrada, aventurar-me sozinha num sem número de peripécias nunca antes tentadas. para Lucky Blue o impossível é uma questão de tempo e a garantia de um rendimento é construída todos os dias, hora após hora, sem sombras para arrependimento. alterar o caminho não a assusta e entusiasma-se à falta dele, quando se vê a braços com mais uma limpeza de mato. desbravar é ser pioneira, podia ser pior e chegar no fim, quando já tudo está varrido. sempre que pode, insiste: és uma sortuda.
não posso culpar Paul por me ter levado a Anna Blume, ambas procuramos William.
Há tanto tempo que não me sentava nesta cadeira branca da cozinha, giratória de propósito, para apreciar o que está para lá do vidro que faz de parede. Há tanto tempo que não sentia o sol lambendo-me as pernas nuas, os olhos semicerrados, uma languidez de manhã de domingo. Mais uns minutos, imploro calada, mas sei que não tenho escolha.  E apetece-me mandar tudo à merda, até a mim.

24.2.18

caí na cama com Albert e o homem que o acompanhava e agora se sentou num bar de marinheiros em amesterdão e não pára de falar. ainda há pouco me dizia que bastará uma única frase aos futuros historiadores para definirem o homem moderno: "fornicava e lia jornais". gosto de ouvir falar o homem, embala-me o dia carregado de sangue e de sono. 
pão com manteiga e meia de leite com vista para o mar. Damas fuma uma cigarrilha, pensativo, de perna cruzada, à minha frente. sorvo a mistura ruidosamente, sabendo que aquele barulho o irrita, mas Damas não se manifesta. é só depois da última baforada que afasta os olhos do mar e se vira para mim dizendo, o homem não foi feito para a derrota, Alicinha, um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado. 
talvez Damas esteja velho...
Auster carrega-me ao colo para a cama. sabendo da raiva que me trilha os lábios, uma faca invisível nos dentes, fala-me em voz baixa,

Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim.


/No País das Últimas Coisas, de Paul Auster

23.2.18

posso comparar os últimos dias à piada das mãos frias. de tão frias, gelam e geladas queimam.

20.2.18

sinto-a, como uma serpente, enrolando-se em mim, deslizando pela espinha, cravando-se nos pulmões, mastigando-me os miolos. os arrepios, as dores, a fraqueza absurda. 

19.2.18

«De cada vez que parava para descansar, se o vento não estivesse a soprar, ouvia um silêncio ensurdecedor.»

/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/



Ansel Adams, Trees and Snow, 1933




lembro-me de ser criança, manhã bem cedo, e caminhar por entre as árvores cobertas de neve. ouvia-o, gigante, tomando a floresta por completo, aquele silêncio ensurdecedor

18.2.18

É quando me seco no calor uterino da toalha, que as palavras se afloram: prefiro as insónias de primavera, melhores ainda, as de verão.  Ergo o corpo da cama e desço a ladeira até ao rio, perdendo-me na imensidão do canto dos pássaros e no cheiro das ervas. Mas agora, a noite ainda tão escura, o frio gretando as mãos, abrindo-me fendas nos lábios, para onde caminhar? 

17.2.18

espanta-se o Damas, quando lhe peço que saia de cima de mim, arrastando o corpo à beira da cama, levantando-me para ir trabalhar. mas está a chover, Alicinha! hoje não podes ir lavar janelas. rio-me, ainda não lhe contei que para além da lavagem personalizada de janelas, algo que desconhecia gostar, agora, para compor o mês, que a corda me aperta, também aplico betume em brechas, fendas, rachas e outras aberturas indesejáveis. preparo a minha própria mistura com óleo de linhaça e prometo um serviço de elevada categoria. começo a ser famosa nas redondezas pela lisura da superfície final. mas nada disto interessa a Damas, que prefere fingir-me ainda como a magricela que lê livros de companhia. se já nem eu sei quem sou, em quem me ando a transformar, adaptando a mão à vida, como poderia ele, o meu Damas de carne em fogo e falo em riste, perceber que tudo mudou?

14.2.18















peço-lhe uma única coisa, antes de sair, rosas vermelhas não, por favor!, arregala-me os olhos de espanto, que vejo reflectidos no dourado do elevador. a felicidade está sobrestimada. nós cá preferimos vender memórias de melancolia, aquelas que nunca se esquecem. ranúnculos violeta, o que me diz?
perfeito.
hoje quero um beijo com língua e um verso desenhado na pele.
amanhã também.

12.2.18

um dia de trabalho como outro qualquer, percebi-o logo que cheguei ao pequeno parque improvisado no baldio. encolho jolly jumper num buraco afastado e corro para o interior do salon. d. paula, maternal e amorosa como sempre, apressa-se a sentar-me na sua sala. o costume, ex-turistas, trabalhadores dos óleos e dos escapes, ceo cinzentos, rapaziada dos escritórios em volta, há de tudo. e eis que os vejo, enquanto beberico o meu copo de tinto, os caçadores de espaços autênticos em vias de extinção... malditos sejam, não bastava os jornalistas e os actores de comédia, agora esta raça. daqui a algum tempo, dois ou três artigos romantizados nisso das revistas da moda, e terei de concorrer ao espaço - já - exíguo, mesa a mesa, com as massas urbanchic dos bairros centrais. raios os partam!

11.2.18

Orphée traces a path from darkness into light, inspired by the Orpheus myth. A story about death and rebirth, the elusive nature of creation and art and the ephemeral nature of memory. It's an album about change, love and art – a reflection of our relationships,


encontrado no encontrador de belezas

10.2.18




































Violeta, um clitóris florindo a boca de Whitman.


Sex contains all, bodies, souls, 
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the
   seminal milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,
   beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow’d persons of the
   earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications
   of itself.
já cá faltava a peça, repetindo-se tanto quanto eu com aquilo das aliterações, assonâncias também. que lhe importa a forma como escrevo, dando-se ao trabalho de digitar a reclamação, chamada de atenção, prefere chamar-lhe, esse pavão da língua portuguesa. que lhe interessa se me repito, se facilito com rimas fáceis, dessas da música pop - quase o entendo, lembrando os ais do joão pedro pais - se este é o meu espaço e tão-pouco permito nele a comunicação. mas por que diabos esta estranha criatura não se dedica a leituras mais cuidadas. sugiro as sete centúrias de curas medicinais, de Amato Lusitano, se o encontrar.
voltará amanhã para terminar a poda das árvores de fruto. só depois trará o cunhado e juntos hão-de juntar as pernadas tombadas pelo terreno, logo se verá quando se lhes pega o fogo. o sotaque a samba e bossa nova não engana, mas Ayrton diz que não é de carnavais, a poda não se pode adiar mais, os pessegueiros já estão em flor. a ver vamos, enquanto conto as notas para lhe pagar.
creio que nunca lhe mostrei um sorriso que fosse, irrita-me a pose o suficiente para fechar a cara até que se afaste, montando ora um, ora outro cavalo. da última vez, tendo alterado o percurso costumeiro junto ao rio, exibiu-se pelo caminho principal, terreno com dono em terras de frança. as cadelas, sentido o intruso, correram à rede e ladraram - olhou-as com o desdém de quem manda. fitei-o com ódio, recordo, não desviou o olhar. tivesse a espingarda do meu pai e passaria sempre debaixo de mira. imprestável traste, julgando-se por condição. 
disse-me uma vez a dona da bata às riscas, enquanto fingia limpar o pó, que o senhor engenheiro era dono por herança da colina acolá e das vacas que lá pastavam, das vinhas ao fundo e do casario junto ao chafariz. o irmão, continuou ela, é um gastador de primeira, só quer é putas e vinho verde, desculpe a expressão, menina, e então este comprou-lhe a parte dos herdos e gere tudo sozinho. não julguei na altura que tal criatura, caricatura de vilarejo do interior, viesse a ser uma das minhas das minhas /poucas/ irritações locais. 

8.2.18

a voz rouca que sai das pequena colunas de Jolly Jumper educa-me a ignorância clássica musical, afinal era Tchaikovsky o autor de tamanho orgasmo, as mãos dedilhando à exaustão as cordas de nervos equestres, eu carregando no acelerador, embalada pelo movimento frenético, as pontas dos dedos sangrando, a um instante do êxtase anunciado. no poste, junto ao portão, uma surpresa, mokambo, o mocho-galego, à minha espera. sorrio. quantos poderão gabar-se de tão exótica recepção.
a casa, escura, recebe-me sem surpresas. onde o deixei, al berto espera por mim. despi-me e entrámos juntos nas águas quentes de fevereiro. 

7.2.18

a avenida da liberdade a passo de caracol, num entardecer colorido pelo amarelo aceso das lojas e o vermelho atiçado dos semáforos. e então vi-as! num chilreio desenfreado, bailavam, eléctricas, na contraluz do fim do dia. duvidei da descoberta e desci a janela. impossível não as reconhecer. mas como?, pensei, estamos em fevereiro e nos céus de lisboa já voam as andorinhas?!

6.2.18

só al berto quebra o silêncio desta casa escura e fria.

conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
agora estou na beira do penhasco e não vou voar


 Iconography From The Album The Blue Notebooks



notas azuis, soltas, prendendo-me ao fundo do mar onde constelações de cavalos-marinhos e estrelas de mil cores explodem dentro de mim, na minha mente, na minha alma, líquida, no meu ser, e eu gritando como quem nasce, gritando como quem morre, o frio nos meus olhos, a mão procurando o pai, o irmão, a queda vertiginosa, o fim ali ao fundo, o estrondo, combate final, os ossos quebrando, rasgando a carne, válvulas, veias, vértices, tendões, os fios de sangue, sulcos, e então o medo dando lugar à paz da imutabilidade, e as sereias em côro depois, cântico, oráculo, tristeza, saudade, certeza de que a vida é curta como o riscar de um fósforo, a lâmina cravando-se na raiz da existência, crua, em milhões de voltas, flutuando nas ondas do corpo materno. mar, mãe, cama, ventre, vida, vento, solidão. correndo pelas ruas desertas da madrugada, numa cidade do norte do mundo, ninguém me vê, ninguém saberá de mim, as minhas mãos fervem. ácido. sou invisível porque me fiz poeira no voo de um beija-flor. nada agora, apenas o silêncio do azul no espelho da parede.