10.2.18

creio que nunca lhe mostrei um sorriso que fosse, irrita-me a pose o suficiente para fechar a cara até que se afaste, montando ora um, ora outro cavalo. da última vez, tendo alterado o percurso costumeiro junto ao rio, exibiu-se pelo caminho principal, terreno com dono em terras de frança. as cadelas, sentido o intruso, correram à rede e ladraram - olhou-as com o desdém de quem manda. fitei-o com ódio, recordo, não desviou o olhar. tivesse a espingarda do meu pai e passaria sempre debaixo de mira. imprestável traste, julgando-se por condição. 
disse-me uma vez a dona da bata às riscas, enquanto fingia limpar o pó, que o senhor engenheiro era dono por herança da colina acolá e das vacas que lá pastavam, das vinhas ao fundo e do casario junto ao chafariz. o irmão, continuou ela, é um gastador de primeira, só quer é putas e vinho verde, desculpe a expressão, menina, e então este comprou-lhe a parte dos herdos e gere tudo sozinho. não julguei na altura que tal criatura, caricatura de vilarejo do interior, viesse a ser uma das minhas das minhas /poucas/ irritações locais.