13.3.18

a chuva não traz apenas a quebra no negócio da lavagem de janelas, o pior mesmo são os índices de irritabilidade, os pagamentos em atraso e a perda de cabeças no bando. perdidas as cabeças, é cada um por si e todos pelos decibéis estronços. casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, apetece-me dizer, mas estrafego a veia proverbial e provinciana ao silêncio, pois qualquer palavra que fique a pairar sobre as cabeças perdidas só traz novas discussões. cortámos nos croissants au beurre, agora só bolachas integrais de limão, trocámos os tinteiros vip pelos enlatados, varremos o chão e desinfectamos a sanita com as próprias mãos enluvadas, deixando no desemprego a D. Suely das limpezas. já ponderei libertar Jolly Jumper em terreno baldio e passar a deslocar-me a pé, mas Cirilo, enquanto troveja gafanhotos, garante que a ideia é estúpida. Bartolomeu concorda, desnorteado. e eu pergunto, calada, onde irei buscar o dinheiro para os fardos de palha.
Cirilo volta à carga, esmurrando a mesa ruinzinha, trazida lá dos lados de frielas e montada por mim com chave de cruz. a ideia é esmurrar da mesma forma a fuça de cada um dos que ainda não pagaram as lavagens, mas tem de ser tudo feito com muito cuidado, sob o manto escuro da noite, na calada da viela. Bartolomeu suspira, parece-me que já está por tudo, Jasmim mantém-se em silêncio, Petra pede calma e tenta empurrar a ideia de Cirilo para uma pré-reserva, enquanto ela mesma telefona aos sem-vergonha. Cirilo urra Nãos com exclamação, porque essa gente não tem carácter, diz que sim e vira as costas, Não! Não! Não! eu assisto, dói-me a cabeça, parece-me tudo tão difícil. é que nem a roupa seca com este tempo e as peças estão contadas...