29.4.18

"Sempre que me perguntavam o que eu queria, o meu primeiro impulso era responder «nada». O pensamento de que não faria diferença alguma, de que nada me iria fazer feliz, passava-me pela cabeça."

/Não-Humano, Osamu Dazai/


quando chegou a minha vez de pedir, eu que sempre respondo nada, enumerei: meia dúzia de lápis nº 2, um  bloco de papel fino, 90 g/m², cor de marfim, suave, sem ácido, uma cesta de fruta madura, queijo e vinho, uma estufa de vidro do tamanho do pátio, um balão de ar quente, um telescópio, um rebanho de cabras. e parei, esperando que a minha lista fosse suficiente para calar os que dizem que estou doente porque nunca peço nada. 

28.4.18

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Frank Horvat, Couple in a café, Warsaw, 1963

27.4.18

Yo no sé de pájaros
no conozco la historia del fuego. 
Pero creo que mi soledad debería tener alas.



toda a manhã, o pequeno pássaro trinou no alto do grande pavilhão. o homem, que passou por engano, assustou-se com o gorjear estridente e apressou-se a sair, para meu contentamento. e então ficamos só os dois, eu e o pássaro, durante muito tempo, cada um com a sua música. as máquinas, serpenteando como cobras, deslizavam rápidas, distribuindo paletes pelos corredores de A a F. quando passavam mais perto, ambos nos quedávamos em silêncio, sem medo - o pássaro porque era livre e eu porque fui pássaro toda a manhã.

Buscar no es un verbo, sino un vértigo.

24.4.18

se eu vos pedisse, amigos leitores, sugestões de leitura, o que me responderiam?

22.4.18

"All COLORS, no genres. COLORS is a unique aesthetic music platform showcasing diverse and exceptional talent from all around the globe."


21.4.18

Deixei-me ficar aninhada na cama, obrigando o dia a esperar. Da mesma forma misteriosa que as insónias me castigam às vezes, outras sou eu a mandar o corpo apagar, e ele apaga. A fuga atrasou-me o trabalho, mas nem assim abdico de vir à banheira, onde há uns olhos de cão azul à minha espera. Somos velhos conhecidos, não há constrangimento, nem pudor. Entrego o corpo à água, levo o dedo à boca, molhando-o, e toco-lhe devagar.

19.4.18

Burgessos somos nós todos
ou ainda menos.

{obrigada, Cesariny}
não é a primeira vez que comete o mesmo infortúnio, avisa-me o cavalheiro das barbas perfumadas, isso de se lançar sem rascunho, nem punho de revisão, na nobre arte das letras, mesmo que ao nível cérceo do diletante, prossegue, brioso das suas pilosidades monumentais, só lhe deprecia o que apresenta. não lhe bastava a inundação de aliterações dentro dos escritos, repete-se agora também nos verbos de abertura?
talvez o hirsuto cavalheiro tenha razão, mas repare que a barba non facit philosophum, nem o verbo a acção.
repara como nem notam o cadáver que flutua na piscina. talvez já nem se lembrem de quando adicionaram aquele contacto, esperando rentabilizar a ligação. nem sempre se dá logo, às vezes as mulas quinam primeiro. 


{obrigada, Camilo, pelas coisas que só eu sei}

17.4.18

Reparei, hoje, que é mais idiossincrática a forma como damos as más notícias, do que a forma como as recebemos, quando ele me perguntou se podia passar pelo consultório mais tarde. 

15.4.18

Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, está apaixonado pelo mocinho da pastelaria, um mulato lento de língua afiada. vai daí, a toda a hora me pede companhia para ir beber um café, bebida que o deixa ainda mais nervoso, um tremelique que o pobre disfarça a custo. o outro, experiente na arte do flirt social, vai fazendo charme pelo espelho, enquanto embrulha as meias-leite, tal é a vagareza. Jasmim deixa-se encantar, sente-se correspondido no desejo do que poderá acontecer. está escrito nas estrelas ficarmos juntos, segreda-me, e nos búzios também. os olhos prometem-se, as mãos fazem planos, ávidas, a timidez das palavras vai-se dissipando e Jasmim atreve-se às vezes a uma graçola desengonçada. é dos nervos, ambos sabemos, mas eu finjo que não vejo e vou continuando a beber o chá. Cirilo, jocoso, berra-lhe que aquilo é gajo de andar com todos, depois não te queixes, ó totózinho!, mas o coração de Jasmim já sofre de taquicardia sentimental, não há volta a dar. 
...
Ejaculas no vazio, roto de mãos, os sonhos em que a tua mãe te embalou, cambaleias, tropeças, ninguém repara, os olhos dos outros habituam-se rapidamente à tua escuridão. A puta da vida num grito de poesia. Hoje é domingo, continuas a sorver cigarros.

14.4.18

ninguém sorri, depois da contabilidade apurada por Petra. o que já todos sabíamos, confirma-se, o primeiro trimestre do ano deitou-nos ao chão. Bartolomeu insiste que é preciso ter calma, qualquer gesto imprudente pode ser fatal. dos escombros de nosso desespero construímos nosso carácter, repete-nos, valendo-se do seu poeta favorito. respiro fundo e impeço Cirilo de explodir, pousando-lhe a mão sobre o ombro. vai tudo correr bem, minto. ele castiga-me a mentira, afastado-se de mim.
Começas a desaparecer quando deixas de ter curiosidade pelo mundo, quando já não perguntas, não te importa saber. Escondido no teu buraco aprazível, não queres que mais ninguém se junte à tua vida, porque te incomoda mudar de posição, te enfastiam as perguntas da praxe, dos quandos e dos porquês. Inversamente, assoberbas-te à meia dúzia de palavras inteligentes que o condutor da Uber te dirige. Inteligentes porque as podias ter lido num jornal qualquer e não te pedem participação para lá da epiderme. Quando sais do carro, já nem te lembras e é assim que agora gostas.  Sem bagagem, não há peso nem coisa nenhuma. As mãos vazias tranquilizam-te. Ninguém voltará a habitar-te.

11.4.18

...

Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.

7.4.18

não vás, hoje, fica aqui comigo, dou-te banho de espuma, rapo-te os pêlos da ratinha assanhada,  besunto-te com aquele creme de romã que gostas tanto, frito uns ovos e umas salsichas, vemos a chuva a cair. nem tens de dizer nada, podemos ficar calados, ou se quiseres acabamos a nova temporada, há batatas fritas de pacote e umas cervejas esquecidas no frigorífico vazio. o aquecedor sempre ligado, empresto-te a minha camisola, mas só para ires à cozinha, gosto de ver as tuas maminhas a baloiçar. não vás, alicinha, fica comigo. só hoje.
As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional: — pedia as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria. 

/O Mandarim, Eça de Queirós/
AMOR 77


Y después de hacer todo lo que hacen

 se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se visten,

y así progresivamente van volviendo a ser lo que no son.