26.5.18

como não, se logo na capa Ana Hatherly me acenava e o tom de tijolo me trazia um agosto de barro e espigas. peguei-lhe com cuidado, tinha o Mar grafado no título da primeira história, mas Pavese menino corria pelos campos e pelas encostas áridas do monte em frente, procurando víboras com Pale. Porque é que não respondes quando te chamam?, pergunta Pavese menino a Pale, que apanhava com frequência da mãe por não responder sempre que ela gritava pelo seu nome. Pale trouxe-me à memoria o João menino, que só não apanhava porque a mãe era a mulher mais bondosa da rua. os meus irmãos diziam que ele não respondia para mostrar aos outros rapazes que ninguém mandava nele, fazia o que lhe apetecia e só ia para casa às horas que lhe dava na telha. talvez, talvez João e Pale fossem pequenos rebeldes para quem a vida seria sempre palmilhada no fio da navalha e, ou se apanhava a víbora sibilando devagarinho, ou se descia a encosta, numa corrida sem tréguas, fugindo ao nosso próprio nome, mas eu sempre achei que o problema do João era a sua timidez disfarçada, um medo de não saber o que dizer, por se sentir tão diferente dos outros.

/Férias de Agosto, Cesare Pavese/