18.5.18

Os zés-ninguém

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou comecem o ano trocando de vassoura.
Os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os zés-ninguém, os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.


/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/