5.11.18

«Aqueles pobre Monstros viviam em abrigos e cabanas, que estavam sempre cheias de lixo e cheiravam mal, porque tão simplesmente lhe faltava o jeito para os manter em ordem.»

A Fenda, Doris Lessing

[os Monstros, logicamente, são os homens, mais tarde apelidados de Esguichos]


 «Cada mulher tem em si a capacidade de ser quem cuida da casa.»

Padre José Rafael Espírito Santo, Opus Dei

1.11.18

enquanto vou recolhendo as fardas secas do estendal, lembro a história de cada uma delas. são as mais antigas que mais me emocionam. de um tecido barato e reles, foram compradas numa dessas lojas de origem espanhola numa altura em que eu tinha pouco dinheiro, pouquíssimo, se quisermos ser mais apurados. não que a situação se tenha invertido o suficiente que desejo para a minha estabilidade  financeira, mas, dentro das lojas de fast fashion, consegui subir um degrauzinho na qualidade. eu sabia que matar Vendredi me iria debilitar as posses económicas, as quais desde sempre defini como a base de sustentação da minha independência. mas, contrariamente aos que me julgam uma capitalista sanguinária, o dinheiro nunca foi o objectivo, antes a ferramenta. a farda velha, que ainda uso, sem que por isso me sinta constrangida, lembra-me do quanto lutei para chegar aqui de pé. felizmente, nunca me assustou não ter croissants, que adoro, o único receio é deixar de ter pão. enquanto isso, sobrevivo de cabeça mais limpa. 
por mais repulsa que lhes sinta - e sinto tanta! -, todas as manhãs em que me dirijo ao barracão, já sem nenhum espécime viscoso à vista, tento imaginar o rastejante cortejo na sua lenta debandada para o covil. a que horas começarão elas a deixar de engolir a comida seca dos gatos - ver uma lesma com uma bola dentro da boca é o expoente máximo da minha náusea - e darão meia volta iniciando o rastejo de regresso? presumo que o momento seja calculado com base no crescendo de luminosidade, mas a verdade é que, enquanto não dedicar uma das minhas noites à experiência, nunca o saberei. embora a curiosidade se tenha agarrado a mim com uma lapa, temo não ter sangue-frio suficiente para resistir à imagem de tanta viscosidade junta. 
não pensem mal de mim, não alimento este preconceito sem alguma mágoa, não esqueço que somos todos oriundos da mesma mãe natureza e já tentei por várias vezes ultrapassar este asco observando a mesma lesma durante muitos segundos, mas há algo demasiado entranhado no meu cérebro, quem sabe memórias ancestrais de lesmas pré-históricas do tamanho de dinossauros, que não me deixa superar este nojo continuo e profundo. 
as lesmas são o meu limite em termos de tolerância à viscosidade animal, mas também abomino os caracóis - só de pensar em comê-los, sinto um refluxo gástrico potente - e as minhocas. este problema com os invertebrados existe desde que me conheço. talvez a coisa, obscura, aceito, se curasse com algumas sessões de hipnoterapia, mas suspeito que uma vez aberta a caixa de pandora a minha repulsa doentia às lesmas seria um dos meus menores problemas, ainda assim gigante.
às vezes, quando vejo as lesmas pequenas, apelo ao meu instinto maternal, o mesmo que me faz enternecer quando vejo uma família de osgas com as suas osguinhas pequeninas, e chego a ter vergonha da minha frieza. também não gosto das lesminhas...