![]() |
| Milu |
Milu, a aranha que tecia as minhas memórias no tecto do submarino em tempos idos, veio ter comigo à cozinha. arrastava debaixo das patitas arqueadas dois grandes pêlos caninos, resultado dos múltiplos pinotes, sôfregos por lambeduras, das ursas pardas. que contentamento foi, confesso, ver a pequena atravessar o grande deserto sob a mesa de pedra mármore. parei o exercício da vassoura e sentei-me à conversa com ela. Milu pareceu-me em excelente forma, redondinha, alimentada na penumbra das infinitas divisões do palácio. sem receio do telemóvel que lhe apontei ao traseiro para registar a imagem, Milu deixou-se ficar quieta, vaidosa da boa pose. e o que era feito de mim, perguntou-me em feixes de ondas telepáticas, que já não escrevia nada, nem sobre ela, nem sobre coisa nenhuma. e que sei eu, Milu, se a vida me escorre por entre os dedos, rotos de cansaço, e as palavras se findam na lamúria dos dias difíceis. tu bem sabes, querida Milu, que me enfastio de mim em demasia.
mas Milu não é bicho para se deixar apiedar pela conversa tremelicada do costume e em aparente desagrado retoma a marcha ligeira, abeirando-se da catacumbas do frigorífico fantasma. não fosse Milu e a sua forma prática de se fazer ao chão da vida e ainda não teria sido hoje o dia em que aqui voltaria, obrigando-me a saber de mim.
