30.7.19

alperces

LUM3N


12 alperces
2 limas 
1 laranja
qb hortelã fresca
2 c. de sopa mel
1 c. de chá sementes de erva-doce


1. Pele os alperces, tire-lhes os caroços e coloque 2 dentro do copo da varinha mágica. Corte os restantes em gomos, coloque-os numa taça e salpique com a raspa da casca de 1 lima.

2. Junte o sumo aos alperces no copo da varinha mágica. Adicione o sumo da laranja, 4 a 5 folhas de hortelã lavadas e o mel e triture até ficar em puré.

3. Corte a outra lima em rodelas finas.

4. Divida os alperces por taças individuais, regue-os com o molho, salpique com a erva-doce e enfeite com as rodelas de lima.


daqui




ou então misture tudo e delicie-se.

29.7.19

gatos

na última pergunta da entrevista feita pela wook, Haruki Murakami responde que sonha com gatos. enterneceu-me. deve ser bonito sonhar com gatos. mesmo que adivinhem más notícias, traição, doença, a morte, sempre são fantasmas mais graciosos do que os habituais.

28.7.19

27.7.19

lust

You have said that cooking with fire is a bit like making love. Why is that?

Well, because it has all those different temperatures and possibilities. It’s exactly like that! It can be something very tender and fragile, and it can be brutal like an animal… It’s very related! I lead a very sexual life. It’s the inspiration of my life: lust.

24.7.19

cemitério

estaciono, a custo, entre dois automóveis pouco generosos. sinto o calor devorar-me a carne debaixo do tecido azul justo, tenho sede e nem uma gota de água. avanço devagar pelo carreiro de terra até à estrada principal. vários homens das oficinas cruzam-se comigo. reparo nos emigrantes, ruidosos, com grandes ramos de flores amarelas nos braços. a esplanada do café, em plástico vermelho encardido, não me atrai, adio a vontade de beber, gozando o prazer obscuro da privação, e continuo a andar. mais à frente, uma pequena bomba de gasolina de chão muito escuro. um homem espera, dentro de uma carrinha comercial velha, cortando-me a passagem, que o empregado acabe de atender o homem do renault. contorno-o, pisando o alcatrão, sem parar. um pouco mais, passadas largas, e a paisagem mascara-se, abrupta, de zona fina. rolando devagar, exibindo o polimento, um maserati cruza o meu caminho, saído de uma garagem subterrânea. aqui os prédios inflacionam, as ruas alargam, o calor mantém-se colado à carne, dificultando-me a respiração. à porta do nº 28 o homem espera-me, de sorriso curto, e essa sobriedade sabe-me bem. subimos em silêncio, numa sintonia perfeita. se tudo correr como espero, regresso antes do cemitério fechar.

Gypsophila

La Femme Damnée Gypsophila by Nicolas Laborie

fábula

da fábula que aguardo, religiosamente, do meu poeta azul.


Agora vai ser assim: nunca mais te verei.

Este facto simples, que todos me dizem ser simples, trivial,
e humano, como um destino orgânico e sensato,
Fica em mim como um muro imóvel, um aspecto esquecido
e altivo de todas as coisas, de todas as palavras.

Sempre nos separaram as circunstâncias, e a essência
mesma dos dias, quando entre a relva e a copa das árvores
me esquecia de pensar, e o ar passava
por mim antes de erguer os caules verdes e alimentar
a vida sem imagens da paisagem. Marcávamos férias
em meses diferentes. O fim do ano, a Páscoa, calhavam sempre
em outros dias. Tesouras surdas
rompiam o cordão dos telefones, e por engano
urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam
anos depois no arquivo municipal. E mais: a minha idade,
a tua, não poderiam nunca encontrar-se no mundo.
[...]

Esqueçamos isto. Escrevias com as duas mãos
presas no papel, como pássaros, e só o meu olhar
era gaiola, «a gaiola discreta» a fazer de janela
para um crime violento, éramos nós. Também o vídeo emperrava
a meio do filme, bem antes da solução. No canal do lado
pais e mães gritavam, davam socos no ar ou nos filhos
de pequena dimensão, ou em falsas paredes de cartão,
não se esqueciam nunca de rimar. Eram felizes. Com estas ofertas
iriam a maravilhosas praias sublunares, onde rapazes
e raparigas mostram a pele quase todos os dias,
e têm bocas brancas como já se não ê no ocidente;
depois, na véspera do regresso (que se anuncia melancólica)
anjos e bispos descem do céu, trajando
magníficas guirlandas. Meteoros do tamanho de nuvens
rompem as nuvens, produzindo efeitos em tudo
idênticos aos da aurora borealis, mas em completa segurança.
Entravas pela garagem, sem ninguém te ver. Subias
as escadas todas, para não arder
no elevador. Estava a porta entreaberta,
não bati sequer. Sempre me espanta encontrar-te tão
assim de visita, na tua própria casa, sem ti.

Era difícil tocar-te, mexer-te. Na parede branca
oscilam os ramos, as sombras de ramos da alameda.

Era mais fácil beijar-te, por falta de palavras. Tão profundo
é o silêncio, que se ouvem todos os rumores,
o ladrar de um cão, o silvo de uma fisga,
a pancada dos ramos no entardecer, lembrando
um sino submarino. Pensava que amar-te (querer-te livre)
começava na ponta dos dedos e ia até às ideias mais abstractas,
que o teu corpo era a melhor expressão possível de ti, e ainda
muda, como um hieróglifo enterrado
na areia do teu deserto favorito (algures na anatólia),
pensava que serias um dia aquela singular memória
que nos separa, um breve instante, de tudo quanto vemos,
e muitas outras noites, acordado junto ao teu corpo ausente,
seriam como esta: vidros abertos sobre um ror de estrelas,
nuvens ligeiras navegando em direcção ao mar,
o jovem coração, liso detrás das grades, dos ossos.
[...]

António Franco Alexandre, Uma Fábula
daqui: canal de poesia

23.7.19

dúvidas

Consubstanciação ou Transubstanciação


#nosblogscomonasdoutrinas

sem pele

a luxúria de morder as fatias do pêssego maduro, despido, foi nisso que pensei durante quase todo o jantar, enquanto elas tagarelavam o costume, fazendo corte & costura nas outras lá do trabalho. a polpa, carne perfumada, desfaz-se na minha boca, enquanto me ausento em planícies longas e amarelas. de vez em quando, uma crítica azeda, prontamente anuída em grupo, chega-me aos ouvidos e distrai-me do meu encantamento. é quando procuro ajuda no copo de vinho e na certeza de que todas as refeições têm um fim.

22.7.19

the man I love

descemos a rua juntas, janelas abertas, as roupas coladas à carne, um calor absurdo, billie cantando,

He'll look at me and smile
I'll understand
Then in a little while
He'll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won't say a word




da superioridade, ignorante

entre os rios Tigre e Eufrates, inserida no crescente fértil, a Mesopotâmia, berço das civilizações.

desmistificando

devia ter continuado em economia, na verdade, a minha religião, se alguma professo.

A palavra «economia» pode parecer um pouco árida e fazer o leitor pensar numa quantidade de estatísticas aborrecidas. Mas, na realidade, o que lhe interessa é o modo de ajudar as pessoas a sobreviver e a serem saudáveis e instruídas. O modo como as pessoas obtêm aquilo de que necessitam para viver plenas e felizes - e porque é que algumas não conseguem. Se conseguirmos resolver questões económicas básicas, talvez possamos ajudar todos a viver vidas melhores.

adiada

adiada novamente a entrega, recebo hoje um pedido de desculpas, que prontamente me garante que a situação continua a dever-se ao atraso de alguns editores na entrega do(s) mesmo(s). mas que diabo, grunho mais uma vez, como pode o poeta, povoador dos sonhos azuis, a voz em sussurro no meu ouvido ondulando-me, estar retido num armazém?!

dos outros

a solidão em campo aberto,

S de Solidão (ou C de Comunidade)

19.7.19

das

das plantas que matam,
eis a preferida das feiticeiras de Orkhon,
cicuta, a singela

Conium maculatum

sou

sou vítima apenas de mim própria e mereço toda a dor que sinto de cada vez que me corto.

16.7.19

o

Um milhão de anos antes de Adão,
um escaravelho inventou a roda
fazendo uma pequena bola de merda,
(...)

[Hovhannes Grigoryan, poeta arménio traduzido do espanhol]



A esfera é o mais uniforme dos corpos sólidos, dado que todos os pontos da superfície são equidistantes do centro. Por isso, e pela faculdade de girar em torno do eixo sem mudar de lugar e sem exceder os seus limites, Platão (Timeu, 33) aprovou a decisão do Demiurgo, que deu forma esférica ao mundo. Julgou que o mundo era um ser vivo e, nas Leis (898), afirmou que os planetas e as estrelas também o eram. Dotou assim a zoologia fantástica de muitos Animais Esféricos e censurou os torpes astrónomos por não quererem entender que o movimento circular dos corpos celestes era espontâneo e voluntário.

Mais de quinhentos anos depois, em Alexandria, Orígenes ensinou que os bem-aventurados ressuscitariam sob a forma de esferas e entrariam a rolar na eternidade.

[Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários]

medo

toda a minha vida conheci gente assim, que na segurança do pátio gostava de atiçar os cães a quem passava no caminho. foi por causa dessa gente medíocre e cobarde que aprendi uma lição valiosa sobre o medo, os cães só correm atrás de quem foge.

#navidacomonosblogs

15.7.19

testículos

a dona da bata às riscas não ficou convencida. franziu o sobreolho uma e outra vez e repetiu, ó menina, olhe que isso não deve ser. mas parece mesmo, insisti eu, e comecei a bater com o garfo na latinha, sinal da janta por aqueles lados. Ramirez, assim o cria eu, apareceu de imediato no telhado do barracão, como de costume, e só dali descerá depois dos restantes terem enchido a pança. chamei a dona da bata às riscas e ali ficamos em silêncio alguns minutos. não fosse um cão ter ladrado perto e talvez o embuste não ficasse logo a descoberto, mas bastou o bicho virar costas assustado e logo a dona aponta o braço e exclama: eu não lhe disse?! não é ele, veja lá aquele par de tomates!! eu bem lhe disse!
raios partam a mulher... com um par de tomates, deitou-me por terra a alegria do reencontro. Ramirez, ainda que macho valente e afoito, era castrado. a prova daquele par de ovos de codorniz era demasiado evidente para ser ignorada. tem razão, respondi-lhe, e guardei para mim a desconfiança do assassinato do meu pobre espanhol. que diabo... tamanha convicção... terá sido o bêbado do marido dela?

11.7.19

dos

dos trinta e oito que acusavam no lombo de Joly Jumper, combatidos por várias ventoinhas arcaicas perto das orelhas do bicho, onde derreti litros de suor fedorento, regresso aos gélidos vinte e dois, que rapidamente me fazem nascer esta maldita dor de cabeça. em cima da blusa transpirada - blusa, oh là là, quel luxe! - habita agora um casaquinho foleiro. se tapar o frio não é difícil, combater a dor de cabeça é outra dor de cabeça. refugio-me no café, cápsula atrás de cápsula, sabendo de antemão a doninha neurótica que estou a gerar. 

Milu

Milu, a minha aranha de estimação, respira suavemente
sorrindo junto ao meu pescoço.

Smiling Spider (1881) – Odilon Redon

o

o calor desumaniza-me. 
ainda ontem queria retalhar a face da besta que me ameaçou, vazar-lhe os olhos com as tesourinhas de prata que repousam no porta-luvas, entalar-lhe as partes moles debaixo do capot, uma, duas, três vezes até lhes desfazer a consistência - têm colhões os homens que ameaçam mulheres? -, tudo isso me apeteceu de uma forma tão sádica, que assim me entretive durante sessenta minutos contados na recepção da oficina. uma matrícula e um telefonema apenas, facilmente se consegue nome e morada. mas que fazer? logo me disseram que pouco ou nada aconteceria, para além do tempo perdido e do dinheiro para abrir processos. não, melhor seria abrir-lhe a cabeça, - há qualquer coisa erótica no sangue que escorre na pele branca, a súplica do perdão, enquanto o terror se apodera daquele corpo. um homem ameaçando-me, não, não o permito. não o suporto sequer. 
hoje o calor adormeceu-me as memórias, até a raiva se foi. felizmente, nunca cheguei a comprar arma.

Who needs to pray?

rosalía, minha rosalía...




Agujerito del cielo
Cuelando el brillo de Dios
Un rayo cayó en tus ojo'
Y me partió el corazón

Agujerito del cielo
Díctame por dónde ir
Para yo no equivocarme
Y así ver mi porvenir

When you're done with me
I see a negative space
What you've done for me
You need to lose some day
Who needs to pray?
Who needs balance? I'll see you every day

Barefoot in the park
You start rubbing off on me
Barefoot in the park
You start rubbing off on me

Ya tengo to' lo que quiero
Ya no puedo pedir má'
Cuando te tengo a mi la'o
Lo pasa'o se queda atrá'
Si estas faltando en mi era
Y te tuviera encontrar
Hasta yo te encontraría
Como el río va a la mar

Barefoot in the park
You start rubbing off on me
Barefoot in the park
You start rubbing off on me

Silence starts turning off between
Sky's looking up I think
I call off the chase
Who needs balance? I'll see you everyday

Barefoot in the park
You start rubbing off on me
Barefoot in the park
You start rubbing off on me

10.7.19

Luna

Bartolomeu tenta convencer-me a receber Luna este verão. há muito que esqueci o castelhano martelado em meia dúzia de aulas, insisto que vai ser uma trapalhada, mas Bartolomeu é teimoso, mais ainda do que eu. Luna é divertida, como tu, quando não dás para cismar nas coisas, afiança-me. torço o nariz, não quero gente na minha vida. recordo-lhe que a minha prima de Leça virá passar alguns dias comigo e não tenho agenda nem doçura para tanta sociabilidade numa única estação do ano, especialmente nesta dos abandonos. duvido que o tenha convencido, o mais certo é a moça bater-me à porta um dia destes, com a frescura e o ruído de quem é demasiado jovem para saber quanto custa cada verão na subtracção da vida, berrando ¿Qué coño pasa, Florita?

Adverbios de lugar

Aquí es donde estoy yo. Esté donde esté
yo siempre estoy aquí donde me ves.
esta casa, estas caras, estas cosas
cansan, porque aquí cansa
aquí hace sed de irse, sed de allí
pero allí es el lugar donde jamás podré estar,
donde yo soy imposible.
[...]

|in Instruções para Atravessar o Deserto|

9.7.19

der zweifel

tenho Schlump e Jakob von Gunter à minha espera. a dúvida é saber se dou primazia a um ou a outro, ou se pelo contrário, de mãos dadas com ambos, o dedo lambendo os cantos das páginas, dobrando-as de satisfação, vou avançando numa estranha orgia literária. depressiva, suspeito.


Schlump, Hans Herbert Grimm

«Schlump acabara de completar dezasseis anos quando, em 1914, a guerra rebentou.»




«Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto de Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas muito pequenas e subalternas.»

6.7.19

Lady Kina, é verdade?!

[como assim, Lady Kina?! Esse mordomo emprestado de universidade inglesa, uma ratazana decrépita de sacristia, mandou dizer por bilhetinho de pombo-correio, cuspido a caneta de feltro, que se cancelava a festa "devido a expectável falta de comparências e outros problemas do foro privado e intestinal" e tu foste dar com ele, o macho-alferrimo de sua Orchidee, a fungar e a beber rosé?? Rosé?!?!]

Ps: a adaptação do slowzinho terá sido obra do velho também?...

5.7.19

xilre

não tem qualquer pendor de corrente, afinal estamos em julho ou estamos no instagram, certo é que parece que já ninguém está por aqui, mas, com muito gosto e votos de que por cá continuem por muitos mais anos o cafézinho de D. Iara e os suspiros vaporosos de Orchidée, essa alma caridosa,  Parabéns Xilre!




|Exmo. J. Eustáquio de Andrada, consigo e com a Lady Kina, somos três. Traga a bela Orchidée, por sua conta e risco, atente, e o Reboredo e já somos cinco. Virão também as Donas lá do tal café, alguma alma perdida que ainda deambule pela blogosfera e temos festa! Não seja tão azedo, homem. Pelo camarada Xilre já em tempos declaramos guerra, não será agora uma festa de aniversário em época balnear que nos recua o passo.|

3.7.19

Instruções

Instruções para Atravessar o Deserto

Para sair deste íntimo deserto
é preciso saber que não tem saída.

Esperar, caminhar, desesperar,
cultivar a paciência até perdê-la
quando todo tu sejas já pura paciência.

É preciso sentir que o deserto és tu mesmo,
recordar com irónica ternura
aqueles dias só agora felizes
em que tivemos fé nas miragens.

Já não há mais coração do que aquele que ardeu.

Não há maneira nem água nem amanhã
nem oriente nem ocidente. Não há estrelas
que te digam onde, que te indiquem
messias ou saídas que não existem.

Até que um dia encontres
diante de ti as tuas pegadas de outros anos
e compreendas que chegaste ao teu passado,
que já estás onde estavas,
que morrerás de sede.
                                         Olha na areia
as sombras dos abutres que julgavas gaivotas.


Juan Vicente Piqueras, Instruções para Atravessar o Deserto
|daqui: canal de poesia|

2.7.19

Ramirez

A importância de um corpo. Tivesse existido um corpo, não aquele que quase me pareceu e bem serviu para o que o meu pensamento se habituasse a ideia, tivesse existido um corpo, dizia, a certeza da morte seria inequívoca e hoje, ao vê-lo, julgar-me-ia louca, mas não chamaria pelo seu nome. Mas corpo, desfeito ou abandonado, nunca vi, e o luto que lhe fiz foi inacabado, desobediente. Não que houvesse esperança, nunca espero o melhor, sou uma desgraça, mas a falta de um corpo altera logo a narrativa.
Que  alegria vê-lo, primeiro ainda na dúvida, será mesmo ele?! Mas é, foge de mim sem muita convicção, olhando para trás, desconfiado. É ele, não há casaco igual. Pergunto me agora se aqueles presentes no tapete, o passarinho primeiro,  o ratito a seguir, não seriam já oferendas suas, como antigamente. O meu querido Ramirez, o espanhol, voltou a casa, depois de mais de seis meses de ausência. Quem diria?

1.7.19

entro

entro em julho
cuspindo o ácido da desesperança