18.1.20

bando de asas negras

Bradford Martin


um bando de corvos brinca no prado do homem, logo pela manhã. no mesmo sítio onde vi as garças-boieiras, divertem-se agora os festivaleiros góticos, em voos curtos de pousa-levanta.
quando joaquim ornitólogo, auxiliar da junta de freguesia, me convidou para me juntar ao grupo de birdwatchers dos domigos, justifiquei a recusa com a falta de material apropriado. ambos sabíamos que eu estava a mentir, tenho uns velhinhos binóculos que de vez em quando ainda carrego no bolso e ele já os viu. mas observar os pássaros é algo que gosto de fazer sozinha, mirá-los enquanto me apetece, imaginar-lhes dramas e novelas, enlevar-me com a beleza dos seus voos, admirar-lhes a delicadeza das formas, rir-me das suas traquinices, coisa em que as pegas-rabudas são mestres, acreditem no que vos digo. dos corvo, reais ou imaginados, sei da inteligência, da autoconsciência e da possibilidade de assassinar. fascina-me semelhante criatura. tudo isto, perdoa-me joaquim, não o poderia ter elaborado, se ao meu lado palmilhassem o carreiro mais uma dezena de alminhas.