25.1.20

coronavírus

o chinês que vive ilegalmente no prédio, responde ao meu cumprimento de forma ainda mais apressada do que o costume. tenho a certeza de que já começou a sentir os olhares recriminadores dos que o julgam hospedeiro do novo vírus. recordo muitas vezes uma cena que vi acontecer no Museu do Oriente, quando a gripe era das aves. um indonésio, - os europeus gozam com os americanos, mas não são muito melhores a identificar asiáticos -, espirrou, a sua face denotava fraqueza, e todos os que o acompanhavam fugiram alguns metros, assustados. o rapaz já tinha dito que estava constipado, tanto quanto me lembro, mas o medo é uma arma poderosa para a sentença rápida e a dúvida estava instalada. atravessei a sala, sem pensar, e estendi-lhe um lenço, depois uma garrafa de água. nunca esqueci o seu olhar, agradecendo muito mais do que o lenço, a confiança, o amparo.
num mundo que queremos cada vez mais global, não há culpados, apenas viajantes.