25.1.20

joaquim ornitólogo

Angela Moulton


aos sábados nunca encontro o joaquim, por mais voltas que dê ao parque. não que tenhamos conversas muito profícuas, a não ser que algum pássaro corra veloz por ali perto. quando isso acontece, joaquim roda imediatamente o corpo, coloca a mão em pala e, por de trás de meio metro de vidro, pisca os olhos várias vezes, tentando enganar as dioptrias. sem os binóculos é difícil, justifica-se. eu solidarizo-me com a falta e clamo vivaz: claro que é, joaquim! 
falamos pouco, mas entendemo-nos nos pontos fundamentais de uma caminhada matinal; joaquim, tal como eu, prefere falar com os bichos e tagarela com os cães de forma admirável. como aproveita para tomar o pequeno-almoço no parque, uma sandes gigante enrolada em papel de prata, garante sempre a atenção dos seus interlocutores. 
nada sei sobre o joaquim, para além do seu trabalho na junta e o seu gosto pela observação das aves. introvertido, esconde o corpo balofo em roupas largas e tem cabelo oleoso. com excepção do grupo dos domingos, que percorre as serras circundantes em busca de passarada, não lhe conheço mais nenhum passatempo. na minha arrogância de rapariga comum, espanto-me por ainda assim o joaquim ter mais vida social do que eu.