10.3.20

ponto inglês

continuo a tricotar, em lã de caxemira, cor antracite, algo indefinido que ainda não se parece com nada, mas poderá vir a ser qualquer coisa e isso é quanto basta. o movimento automático, contínuo e sem intento das mãos, que às vezes magoo de propósito, ajuda o pensamento a focar-se num qualquer ponto da parede em frente, por onde o deixo escorrer sem vergonha nem freio. e assim me quedo, as mãos aflitas a gerar o mundo, até que a campainha toca, avisando-me de que tenho de regressar. sem conseguir explicar a razão, ripo quase todas as laçadas que dei e deixo cair os fios emaranhados dentro da cesta, antes mesmo de me levantar.