19.3.20

Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore #5

em pouco mais de duas horas, tive tempo para analisar todos os que como eu esperavam a sua vez para entrar na farmácia. distante o mais que podia, sem perder a porta do raio de audição - que os números eram gritados lá de dentro -, tentei afastar o medo das partículas voadoras ouvindo as conversas circundantes. os mais afoitos, com os seus bigodes e cabelos brancos, falavam alto e gabavam-se da resistência ao tempo de espera, estavam ali ia para três horas!, (medo!) enquanto faziam a contabilidade de quem entrava e saía. eram especialistas na matéria, percebia-se, sabiam o número que cada um de nós carregava na senha, mesmo sem ver. aquilo era habilidade treinada em muitos jogos de sueca, pensei. as senhoras, menos dadas às distâncias, esperavam sentadas nos bancos do jardim e falavam das suas coisas. de vez em quando lá interpelavam o Zé, perguntando em que númaro 'stá? e o Zé, sem precisar de ir espreitar o monitor lá de dentro, gritava o número certo. sentados nas arcadas, outros três debitavam as suas teorias da conspiração, a China e coiso e já sabiam daquela merda e num sei o quê, falavam todos ao mesmo tempo, era cansativo percebê-los. o homem que mais me preocupava era um vesgo - perdoa-me, senhor - que não parava de espirrar. pior, parecia que o homem escolhia sempre o poiso perto de mim, por mais voltas que eu desse à porra do jardim. rai's partam, sr. vesgo! a sério? com uma praça tão grande, duas opções à vista - perdoa-me outra vez - e escolhe andar a cirandar aqui ao meu lado?!
recompus-me. a caminho da segunda meia hora, já tinha uma metodologia de presença, recuando e virando costas de forma assertiva, enquanto calcorreava o oito imaginário no passeio junto ao busto. ora fingia procurar um carro que vinha longe, ora detinha o olhar da cornija da casa em frente, tudo servia para afastar o medo - e o vesgo - e esquecer a dor de costas que ali me nasceu.
tudo se resolveu em menos de dois minutos, cronometrei. o farmacêutico, outrora tão simpático e conversador, parecia agora um cozinheiro chinês em linha de montagem. tive que berrar o final do pedido, que o homem pôs-se logo a caminho, e senti-me ridícula, gel também não havia, esgotadíssimo, e seringas só tinha dois sacos. rai's partam! pronto, ok, obrigada. dois passos à recta-guarda, um de cada vez, deixe-me lá sair, se faz favor, não me vai pegar o bicho nos últimos cinco segundos destas duas horas, pois não?!  o caraças do vesgo!.....