31.3.20

Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore #14

lembrei-me da história, como será fácil de associar, devido à triste morte do jovem de 14 anos [por Covid, com Covid, dizem que é agora a questão. não opino, mas lamento.]. dirigi-me eu em tempos, finalmente, à dermatologista, farta de testar todos os champôs da farmácia do costume e as mil e uma mezinhas caseiras. sentei-me pela primeira vez em frente à senhora doutora, escolhida ao acaso na listagem do hospital. nada de recomendações ou avaliações, como nos restaurantes, era um tiro de sorte no escuro. e rapidamente percebi que devia estar mesmo muito escuro quando disparei, porque à minha frente tinha, senão a própria, uma sósia da professora de inglês do primeiro ano da faculdade. a mesma cara de enfado, o mesmo desinteresse, poucas palavras, escassas soluções. tal como aquela sul-africana branca, enjoada, que nos mandava abrir o livro de exercícios durante duas horas e, em grupos, responder às fichas das páginas x, y e z, enquanto ela abria o farnel e mastigava devagar sem abrir mais a boca antes da próxima dentada. era assim em todas as aulas. todas.
era tão professora aquela, como esta era médica ou eu alguma vez serei influencier de cosmética.
voltando à consulta, nada, está tudo bem, água e sabão se preferir, mas não tenho sugestões. Como?! Não senhora! Não, doutora! Estou a pagar, exijo (pelo menos) atenção! Por essa altura, vendo o diâmetro da minha íris tão escancarado, lá se concentrou uns segundos e rabiscou no papel. A vagareza de tudo, creio, era o que mais me irritava, tal como o mastigar da senhora professora de outrora.
resumindo a história, que de interesse não tem muito, procurei ajuda numa farmácia diferente, sem sequer ter aviado a receita daquele dia. bem diferente da raiva que me espumava pela boca naquele dia em que a meio da aula arrumei as minhas coisas e saí porta fora como um rambo zangado. Fui direita à secretaria, estava tão irritada, lembro-me que tremia, e mudei de professora a meio do semestre. preferia perder a nota do que aquilo que me restava de amor-próprio. aquela mulher diminuía-me. devia-lhe ter escancarado a íris ou a boca, mas era nova, ainda não sabia que valia mais do que aquilo.
nunca foi uma questão de atitude, pago/posso, foi sempre, e apenas, uma questão de respeito, estou aqui.