5.3.20

volatilidade

Petra senta-se na cadeira ao meu lado e pousa a chávena fumegante. faz algum tempo que não falamos, mas continuamos a entender-nos como sempre. queremo-nos bem. 
somos os bichos mais voláteis da natureza, começa por dizer, enquanto sopra o chá. durante algum tempo, vivemos amargurados, angustiados de que aquilo que vivemos seja a realidade, queremos mudar o mundo, compor as suas falhas, alterar as injustiças, somo como rios revoltosos. depois, como um sopro morno que nos anestesia, passamos a viver quietos, à espera de que os tempos não se alterem, porque é nessa represa de águas mansas que tentamos esquecer o que há para além da curva da estrada.
respondo-lhe com um sorriso, mas ambas sabemos que às vezes os sorrisos são ainda mais tristes do que um soluçar.