5.4.20

what you see depends upon what happens in the brain*

depois da noção dos dias da semanas, perdi também a noção das horas do dia. deitar-me pelas seis da manhã, depois de vaguear pelos corredores da casa, tem sido o meu novo desenfado. acontece então o inevitável, passo o dia seguinte ressacada de sono, sentada em cada cadeira por onde passo, a olhar para lado nenhum. é um círculo vicioso, uma armadilha, e escorreguei tão facilmente nele, que não sei nem como, nem quando, voltarei a meter ordem no caos.
mas o pior têm sido os pedaços de sonhos de que agora me lembro. como me massacram. recordo-me gritando, histérica, no funeral do meu irmão, numa das portas laterais da igreja, ou fugindo de cobras pretas enraivecidas, que aparecem rápidas como flechas, onde quer que me encontre, com quem quer que esteja ao meu lado. entre a realidade e a fantasia, transpiro, choro, queimo-me, encolho-me um pouco mais. 
sinto-me presa num aquário, escrevia-me alguém ontem, como, cago e ando às voltas, vendo a meu reflexo medonho pela casa inteira. se ontem me ri, hoje parece-me profético.


*in My Philosophical Development, Bertrand Russell