24.5.20

te quiero, Cortázar

«Quem me dera ser o Bioy. Sempre o admirei como escritor e o estimei como pessoa.»

 Julio Cortázar


Da Forma do Mundo

Uma segunda-feira à noite, em princípios de Outono do ano 51, aquele moço Correa, que muitos apodam de Geógrafo, esperava num cais do Tigre a lancha que devia levá-lo à ilha do seu amigo Mercader, para onde se tinha retirado para preparar as cadeiras que lhe faltavam do 1.º ano de Direito. Como é certo, a ilha em questão não era mais do que um matorral alagadiço, com uma casota de madeira sobre estacas; lugar indecifrável no labirinto de riachos e de salgueiros do enorme delta. Mercader preveniu-o: «Lá perdido, sem mais companhia que os mosquitos, que recurso te resta a não ser atirares-te ao estudo? Quando chegar a tua hora, vais estar feito um campeão.» O próprio doutor Guzmán, velho amigo da família, que por encargo desta benevolamente vigiava os passos de Correa pela capital, deu a sua aprovação a esse breve desterro, que reputou muito oportuno e até indispensável. No entanto, em três dias como insular, Correa não conseguiu ler o número de páginas previsto. Perdeu o sábado a tratar de um churrasco e a chupar mate, e no domingo foi ver o encontro entre Excursionistas e Huracán, porque francamente não sentia vontade de abrir os livros.   

[in O Herói das Mulheres]