4.6.20

nós

hoje
estivemos juntos 
a

declarar crepúsculo no começar da tarde,
baixar a luz dos olhos até ao nevoeiro,
abrir cada janela, na carne, até parar o vento,
articular os dedos, menos esses vinte,
até não tocar nada.


foi ele, o meu poeta azul, que me ensinou a


abrir a boca. soltar a língua até querer
ser pássaro. lamber esse ar ósseo até que nasça
carne. evaporar palavras até as tornar gritos.
sem piedade. tudo.

cerzir as duas caras num tecido.
forrar.

iluminei-me aos seus olhos.

e antes de partir, abraçou-me tão forte, como se não fosse voltar,
e disse,


talvez te encontre um dia
tarde, de noite, demais,
rodeado de livros e de rugas
escritas uma a uma sangue a sangue.

talvez eu chore, talvez tu.
seja qual for, terá valido a pena
de pato, ainda plantada
na asa ou já gasta de escrever.

virei nu.
hei-de atirar-ta
à cara essa nudez
que trago sempre no fundo
e me tem saído
caro.

caro com um beijo.
à cara como um beijo
depois.


e eu, 
palpitante borboleta, ofegante coração,
fechei os olhos e esperei.




in Bicho de Sede